Talvez a cena mais marcante de Reencontrando a Felicidade (Rabbit Hole, EUA, 2010) seja quando Becca (Nicole Kidman), para o carro próximo à casa de Jason (Miles Teller), o jovem de 17 anos que atropelou e matou seu filho Danny (Phoenix List), de apenas 4 anos. A alegria do rapaz, que está com amigos, se divertindo e prestes a ir pro baile de formatura do colégio, contrasta com a atitude de Becca, que se desfalece em lágrimas ao volante.

O ator, diretor e roteirista John Cameron Mitchell (Shortbus, Hedwig – Rock, Amor e Traição) deixa o rock’n roll e o sexo de lado, tão presentes em suas outras obras, para assumir as rédeas de uma história baseada na premiada peça homônima de David Lindsay-Abaire, vencedora dos prêmios Tony e Pulitzer. O filme acompanha a rotina de um casal de classe média alta oito meses após a morte do filho único do casal e como cada um lida de forma diferenciada com sua dor.


Outras obras já haviam tratado a morte de um filho de forma dramática, porém respeitosa, como o italiano O Quarto do Filho e o americano Entre Quatro Paredes (ambos de 2001), além do angustiante A Escolha de Sofia (1982), que deu o segundo Oscar da carreira a Meryl Streep. E Reencontrando a Felicidade não foge de sua proposta.

Acompanhamos o dia a dia de Becca e seu marido Howie (Aaron Eckhart) que, ainda sem poderem lidar com a morte do filho, evitam amigos e se refugiam dentro de casa para evitar qualquer tipo de contato. Decidem, então, participar de um grupo com outros pais para conversarem sobre o assunto, mas Becca, atéia, decide abandonar a terapia. Howie permanece e se torna próximo a Gaby (a sempre interessante Sandra Oh). Nesse meio tempo, Becca se aproxima da mãe Nat (Dianne Wiest) e do jovem que atropelou o próprio filho.

Com situações que não caem no lugar comum, Reencontrando a Felicidade traz um clima melancólico intrínseco, com bela fotografia e trilha que cai como uma luva para os momentos de contemplação, sempre tão constantes no longa. Assim, Howie vai descobrindo em outra pessoa a chance de conversar e fugir da realidade que tanto atormenta o casal, enquanto Becca se aproxima, ainda, da irmã caçula Izzy (Tammy Blanchard), que descobre-se grávida.

É impressionante a interpretação de Nicole Kidman que, indicada ao Oscar pelo papel, traz toda a densidade que a situação exige de sua personagem, desde o sofrimento nas cenas mais dramáticas até os momentos em que, fugindo da realidade, mostra-se estática ou realizando tarefas que, à primeira vista, parecem não fazer sentido.

Assim, a partir da proximidade com a mãe (que também perdeu um filho e ajuda a filha a enfrentar a situação), o mote principal do filme é o convívio dela com Jason. Ele, que escreve uma história em quadrinhos (intitulada Rabbit Hole, título original do filme), inesperadamente, também ajudará Becca a superar a dor da perda do filho. Da doação de roupas e brinquedos até aprender a lidar com situação em que mães e filhos cruzam seu caminho, ela vai ter de enfrentar os conflitos com o marido e com a mãe, em mágoas guardadas em família por anos.

E Reencontrando a Felicidade consegue emocionar sem abusar da figura do menino Danny, que somente aparece em uma cena e em imagens de fotografias (às quais o diretor não se prende). Ele ganha vida através de outras referências, como a casa, o cachorro da família, os desenhos que fez, o quarto e os brinquedos, só para citar alguns.

E o diretor Mitchell, com uma direção segura e apoiado pelo ótimo roteiro (adaptados pelo próprio autor, mantendo o aspecto teatral de diálogos curtos e objetivos), sentimos a empatia necessária de personagens que dizem tanto em alguns momentos de puro silêncio e somos aliviados pelos fragmentos de felicidade que vão emergindo no decorrer do filme. E não tem como sentir alívio por aquele casal em busca de si mesmo quando perdem o que mais os unia.

E tudo isso me faz lembrar de uma passagem marcante em um episódio da série de TV Six Feet Under. Ao saber que um casal havia perdido um filho, uma das personagens diz: “Quem perde o marido ou esposa, fica viúvo. Quem perde o pai ou a mãe, fica órfão. E quem perde um filho? É uma dor tão grande que nem possui um nome”.

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