junho 2012


Publicado originalmente no Cinemaorama.

Quando soube que Louis Garrel e Monica Bellucci estariam no novo filme do diretor Philippe Garrel, pai do ator que tem protagonizado seus últimos filmes, fiquei empolgado. Afinal, um diretor competente, que abusa de temas profundos e reais, havia trazido dois símbolos sexuais europeus para um longa com um título, no mínimo, instigante. O resultado, confesso, não supriu minhas expectativas.

Em “Um Verão Escaldante”, seu mais recente trabalho, o cineasta francês co-roteiriza e dirige a história de amor entre Frédéric (Louis Garrel) e Angèle (Monica Bellucci). Ele, um pintor introspectivo cujas obras só parecem ser apreciadas pelos amigos. Ela, uma voluptuosa atriz de cinema italiana. Por meio de flashbacks, acompanhamos o que levou à tragédia envolvendo ciúmes e traição – entregue logo nos primeiros momentos de projeção.

Apresentado por um amigo, Frédéric conhece Paul (Jérôme Robart), um ator que consegue pequenos papéis em filmes. Lá, ao conhecer Élisabeth (Céline Sallette), a paixão do figurante é instantânea, assim como a amizade cultivada com Frédéric. Então, aproveitando as férias, os dois decidem passar o período juntos em Roma. Quem não gosta muito da ideia é Élisabeth, enciumada com a amizade dos rapazes, além de se sentir incomodada com a beleza provocadora de Angèle diante de Paul.

A relação do quarteto é abalada rapidamente, com exceção do laço cada vez mais forte entre Frédéric e Paul que ganha até mesmo contornos homoeróticos (não tão) velados. Escondendo segredos ocultos e revelados do passado que abalariam – e abalaram – a paixão dos dois, observamos o dia a dia do grupo, regado a conversas sobre o amor, as artes e a vida, em um roteiro que se esforça, mas não empolga como poderia ou deveria.

Porém, a chegada de Roland (Vladislav Galard), outro amigo de Fredéric, será a mola propulsora no conflito já instaurado entre o artista e Angèle. Assim, com uma trama de mistério, sedução e ciúmes, “Um Verão Escaldante” tinha tudo para decolar como um ótimo representante dos conflitos humanos com os outros e consigo mesmo. Entretanto, toma rumos previsíveis, sem criar uma empatia entre espectadores e personagens.

A passionalidade, que deveria transbordar na tela, entretanto, descamba em figuras que transitam entre a impulsividade e a infantilidade. E em decisões precipitadas, ora sentimos que os silêncios que deveriam dizer muito (muito presentes nos filmes do cineasta) de pouco servem; além disso, temos a impressão que tudo acontece rápido e rasteiro, sem um desenvolvimento sensato. Ficamos jogados diante de cenas entrecortadas, com personagens aparentemente frios, distantes, alheios à realidade.

Para o elenco, não resta muito o que fazer. No roteiro, que alterna entre curtos diálogos e frases marcantes, “Um Verão Escaldante”, que concorreu ao Leão de Ouro no Festival de Veneza 2011, parece se perder ao misturar muitos elementos em uma direção perdida, sem ritmo. Nos resta esperar o desfecho, que não emociona, em uma estranha apatia do lado de cá da tela.

Mesmo com uma trilha sonora competente de autoria de John Cale (o mesmo do ótimo “Psicopata Americano”) e tendo Garrel e Bellucci, dois atores cujo charme e sensualidade fariam jus a um título tão sugestivo, a trama de conflitos humanos de “Um Verão Escaldante” parece beber da fonte de Ingmar Bergman ao tentar expor os conflitos das relações humanas do mestre sueco. Porém, durante o gole, engasga e resulta em um filme irregular.

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Publicado originalmente no Umbigo das Coisas.

Ter um filho, para algumas pessoas mais radicais, é simplesmente obter uma cópia em miniatura de si mesmo. Os pais, que desejam projetar a perfeição em seus rebentos, sentem-se frustrados quando a realidade não supre suas expectativas. Afinal, se algo não sai como o esperado, é inevitável a culpa cair sobre os seus criadores. Isso acontecerá, é claro, em algum momento da vida, pois todo ser humano é passível de falhas.

Em Deus da Carnificina, novo filme de Roman Polanski (de obras-primas como O Bebê de RosemaryChinatown e Repulsa ao Sexo), o cineasta polonês adapta a peça homônima da escritora francesa Yasmina Reza, com colaboração da própria autora, para contar a história de duas famílias em conflito por conta de seus minieus.

Tudo começa quando Ethan (Eliot Berger) é fortemente agredido por Zachary (Elvis Polanski, filho do cineasta) após um desentendimento. O episódio sai dos portões do colégio e chega até o apartamento dos pais de Ethan, Michael (John C. Reilly) e Penelope (Jodie Foster), que decidem tratar da punição do agressor com os pais do garoto, Alan (Christoph Waltz) e Nancy (Kate Winslet).

Assim, Polanski vai costurando uma história que se passa em um único local —a sala de estar de Michael e Penelope Longstreet, que tentam manter uma conversa “amigável” de como resolver o desentendimento dos dois garotos de forma, digamos, justa. Bebendo da fonte de Bergman, um perito em conflitos humanos, acompanhamos o desconforto que pulsa na tela entre as famílias Longstreet e Cowan em defesa de sua própria ninhada.

Com ofensas a princípio sutilmente destiladas entre o quarteto, conservadorismo, bons costumes e convenções morais ganham espaço em uma discussão que vai se tornando, cada vez mais, trocas de acusações e buscas por um —ou mais de um— culpado. Enquanto Penelope expõe toda sua indignação por ter o filho agredido em uma gana por justiça, o marido Michael tenta amenizar a situação, colocando panos quentes. Já Alan, um irritante homem de negócios, começa a incomodar todos —inclusive a refinada esposa Nancy— com suas incessantes e longas ligações a trabalho no celular.

A situação dos filhos —que servem apenas como estopim para o que se assiste na tela— conduz a um embate que se expande de forma impressionante, atingindo esferas como casamento, carreira, comportamento e religião. Do rancor latente de Penelope em defender sua cria ao jeito marrento de Alan, um homem sem educação que esbanja seu dinheiro e poder sem pudores, Deus da Carnificina amarra os conflitos que se desenrolam com uma mistura louvável de drama e humor em doses certas. Isso sem contar com o desabrochar da personagem Nancy, um deleite aos fãs de Kate Winslet.

Em uma espécie de retorno à natureza pré-histórica, o longa expõe a queda das máscaras que carregamos e que, em algum momento, caem por terra, expondo nossa real natureza. E, por conta das convenções impostas, nos leva a agir com uma falsa polidez que não tarda em se esfacelar, fazendo com que seus personagens explodam e percebamos a família como instituição falida, mantida a unhas e dentes diante de seus conflitos (não e/ou mal) resolvidos.

Aparentemente simples, Deus da Carnificina mostra famílias que, ocupadas e/ou relapsas diante de seus filhos, transferem a educação das crianças ao cônjuge ou à escola. Porém, sem conseguirem conviver até mesmo entre si, exigem dos filhos um padrão de comportamento que não têm, ou seja, tal ausência ou terceirização de suas funções acabam por produzir sujeitos fracassados.

Diante disso, subentendemos que estamos diante de crianças encurraladas diante da própria relação dos pais, espelhando-se naquilo que lhes é passado. E no longa, o importante não é discutir os lados dos meninos, seja diante da conduta (comportamento exigido de acordo com regra em uma sociedade), seja por conta de um dever (comumente associado com razão, virtude, consciência, razão e justiça). Ali, é crucial a análise do ser humano como adulto e juiz, seja ele pai ou mãe. Até porque a consciência moral na criança se desenvolve de forma natural pela ação dos educadores (os pais), por meio da experiência sensorial do que é certo e errado, recompensados, respectivamente, com premiação e punição. É, praticamente, a atitude de Alan, que se sente, de certa forma, envaidecido quando descobre que seu filho agrediu. Afinal, é uma prova do seu gene da virilidade transmitido para o filho.

Afinal, quando os pais dizem que estão orgulhosos do filho, isso muitas vezes denota que suas crias melhoram sua imagem diante dos outros, aumentando seu ego por terem moldado um ser humano à sua imagem e semelhança. A fundo, seria uma nova forma de sentirem-se deuses, de darem vida a uma criatura que os envaidece, indo ao desencontro do objetivo fundamental da educação, que é a formação da consciência moral do homem. O psicanalista francês Jacques Lacan (1901–1981), inclusive, defendia que a ética na psicanálise “consiste essencialmente em um juízo sobre nossa ação”.

Sem nos colocar diante dos garotos para expor o motivo que os levou ao conflito (explicitando que o que deflagrou a briga é o que menos importa), Deus da Carnificina, antes mesmo da explosão do conflito, discute justiça x tolerância sem tentar tomar lados e nos insere como espectador de um ringue. Enquanto Penelope, a mãe do garoto agredido, usa (em boa parte do tempo, exageradamente) seus argumentos com relação à impunidade, o pai do agressor não se mostra preocupado com o castigo, abusando de sarcasmo e arrogância. Quando seus cônjuges decidem sair da bolha em que parecem viver, novos embates vêm à tona.

Segundo o filósofo francês Alain (1868–1951), “a justiça existirá se a fizermos; eis o problema humano”, que bate de frente com o compatriota Vladimir Jankélévitch (1903-1985), que expressa que “não há falta tão grave que não se possa, em último recurso, perdoar”. E diante de tanta sujeira debaixo do tapete aliada aos temas penalidade x misericórdia, Deus da Carnificina ameniza a raiz do problema com o humor de personagens (magistralmente interpretados pelos quatro atores) que se infantilizam no decorrer de seu combate. Porém, já é tarde demais para se darem conta que as crianças, muitas vezes, são capazes de lidar melhor com os conflitos que os adultos.