fevereiro 2012


Originalmente publicado no Umbigo das Coisas

“Antes de embarcar em uma vingança, cave duas covas”. A célebre frase do pensador chinês Confúcio (551 a.C. – 479 a.C.) pode ser o pontapé inicial desta análise do longa A Separação (Jodaeiye Nader az Simin, Irã, 2011), dirigido, escrito e produzido por Asghar Farhadi (mais conhecido pelo seu trabalho no ótimo Procurando Elly).

O filme, que já levou quatro prêmios no Festival de Berlim (incluindo o Urso de Ouro), o Globo de Ouro e National Board of Review de Melhor Filme Estrangeiro e, de quebra, ainda garantiu duas indicações ao Oscar 2012 (Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Roteiro Original), já pode ser considerado um marco do cinema iraniano.

Na trama, o casal Nader (Peyman Maadi) e Simin (Leila Hatami) passa por uma separação por conta do conflito de interesses. Enquanto Simin quer sair do Irã com a filha por conta da “situação do País” (uma clara, porém velada, discordância da misoginia e violência que assombram, há anos, a nação governada por Mahmoud Ahmadinejad), Nader se mostra irredutível à decisão da esposa por conta da doença do pai, que está em estado avançado de Mal de Alzheimer.

Sozinho e tendo de cuidar da filha pré-adolescente Termeh (Sarina Farhadi) durante a permanência temporária da esposa na casa da mãe, Nader se desdobra entre cuidar da casa, da filha e do pai. Assim, contrata Razieh (Sareh Bayat, ótima no papel) que, grávida, leva a tiracolo a outra filha, a pequena Somayeh (Kimia Hosseini), para cuidar do idoso. Passando pelas previsíveis e desconfortáveis dificuldades de cuidar de uma pessoa convalescente (higiene, medicação, fugas), Razieh mostra-se sem forças para tamanha dedicação por conta de sua gravidez.

As coisas se complicam de vez quando um incidente envolvendo Nader e Razieh expõe uma grave acusação, fazendo com que Hodjat (Shahab Hosseini), marido de Razieh, entre em cena e, a partir daí, nasça o conflito entre as duas famílias, que terá conseqüências cada vez mais incontroláveis.

Com personagens totalmente críveis em situações reais, A Separação tem, como principal mérito, expor temas que são considerados grandes tabus pelo conservadorismo político, social e, especialmente, religioso dos iranianos, como aborto, divórcio e fé. Assim, a direção segura de Farhadi extrai o suprassumo do talento de seus atores em longos diálogos do inteligente roteiro.

A submissão feminina se esvai na força de Simin, uma mulher que desafia o marido sem medo – em uma cultura cujo casamento e obediência ao marido são quase intocáveis – indo ao desencontro da passividade de Razieh, em olhos repletos de constante medo e tristeza. Nos olhares infantis que veem a perda da inocência, o conflito entre os pais refletirá nas garotas a visão de mundo como um todo, em uma sociedade enraizada ao preconceito. Uma condição, infelizmente, passível em qualquer nação do planeta.

Mantendo o impasse do que realmente teria acontecido, A Separação nos oferece de bandeja a chance de tirarmos nossas próprias conclusões – sejam elas definitivas ou substituíveis – durante o filme todo. Com uma câmera no meio da sala de estar, incluindo diálogos paralelos (que podem entregar detalhes do que realmente deflagrou o conflito), somos levados ao cerne de duas famílias cuja realidade colocará à prova diversos objetos da psique humana, como mentira, medo, angústia e, especialmente, a já citada vingança.

Incômodo e com conflitos cada vez mais complexos e labirínticos, o filme angustia por si só, mostrando que, por mais semelhantes que possam parecer, ainda estamos despreparados para coexistir em paz, em uma natureza narcisista de autoproteção, soterrando a verdade dos fatos.

Em sua obra Inibições, Sintomas e Angústia, o psicanalista Sigmund Freud descreve o sinal de angústia como um sinal ou aviso de que algo tremendamente terrível está para acontecer, de modo que é melhor fazer alguma coisa bem rápida para a sobrevivência física e mental. Assim, aprendemos a distinguir os indícios de experiências anteriores traumáticas e desagradáveis a fim de evitá-los em uma próxima situação.

É exatamente isto que pode-se observar em A Separação: os perigos internos ocasionam um aumento gradual na tensão, deixando o(s) sujeito(s) incapaz(es) de dominar as excitações e acaba(m) sendo dominado(s) por elas. Para lidar com a angústia da perda do objeto amado (seja algo ou alguém), uma das artimanhas utilizadas pela raça humana é a vingança, tão louvada por alguns e tão condenada por outros.

Assim como citado na abertura deste texto, a vingança em A Separação acaba por levar até o próprio vingador para o fundo do poço – como acontece com o quarteto principal do longa-metragem. E as consequências são as molas que impulsionam a angústia generalizada que se cria. Nada anormal, afinal, é instinto humano responder a um tapa com outro tapa, por mais que o dogma cristão defenda “oferecer a outra face”. No caso de A Separação, é Alá que mediará o desfecho precipitado e inconclusivo do filme, mas que não chega a causar danos no resultado geral.

O economista turco Naci Mocan, autor de um estudo sobre o desejo de vingança, analisou 53 países e concluiu que o sentimento de vingança é controlado de acordo com o desenvolvimento econômico e democrático sólido de uma nação. Ou seja, a melhoria dos indicadores sociais torna as pessoas menos vingativas. No caso do Irã, podemos traçar esse perfil exposto no filme, pois quando o sistema não satisfaz sua população, os indivíduos buscam a resolução privada de seus conflitos no famoso “olho por olho, dente por dente”. E em A Separação, os governados de Ahmadinejad se embrenham neste caminho labiríntico em um longa ousado, corajoso e real.

Texto originalmente publicado no Umbigo das Coisas

Todos temos, em graus variados, uma inconsciência de particularidades do que sentimos. Esta mistura, que envolve sentimento, afeto e/ou emoção, um outro elemento se mistura para alavancar ainda mais o hall de sensações humanas: o desejo.

No longa alemão Triângulo Amoroso (3, Alemanha, 2010), acompanhamos o casal Hanna (Sophie Rois) e Simon (Sebastian Schipper) que, juntos há 20 anos, têm suas vidas alteradas com a chegada de Adam (Devid Striesow). Com entrada (quase) livre no inconsciente dos personagens, especialmente de Hanna, acompanhamos aos poucos o desenvolvimento desta relação com diálogos pontuais e bem elaborados, em roteiro instigante do também diretor Tom Tykwer (Corra Lola, Corra; Perfume – A história de um assassino) que recebeu uma merecida indicação ao Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2010.


O envolvimento de Hanna e Simon com Adam, que acontece em períodos diferentes, surge após a descoberta de uma grave doença que acomete Simon. Mantendo-a em segredo com medo de abalar a relação com a mulher, o personagem não sabe que um fato lhe é alheio: o caso dela com o sensual Adam. Nessa rede de mentiras, acompanhamos os olhares e expressões corporais que envolvem o casal, em situações reais, de pessoas autênticas. Nada é perdido ou resvalado ao lugar comum.

Sem julgar os segredos mantidos, Triângulo Amoroso se apoia, ainda, em um delicado retrato da efemeridade da vida, pincelando temas como espiritualidade, perda e destino. Inclusive, este último surge de forma crível, onde coincidência e acaso se dão as mãos. Nesta mistura de virilidade, Simon se deixa levar e envolve-se com Adam, em um longa adulto, sincero, bem interpretado e sem meias-palavras.


E neste misto de prazer, culpa e dor, a introspecção de Triângulo Amoroso se firma no amor que Hanna e Simon sentem um pelo outro, evitando que o envolvimento velado de ambos com Adam afete o que sentem um pelo outro. Já a frieza (in)consciente e aparentemente calculada do terceiro elemento – que afeta o casal de forma sedutora – faz com que seus atos sejam digeridos pelo casal em uma espécie de masturbação psicológica.

Porém, no enfrentamento inevitável da verdade, a situação se inverte, no conflito final dos elementos paixão, amor e desejo, incontroláveis em sua complexidade humana. Para Sigmund Freud, o amor é uma projeção no outro, uma espécie de reconhecimento precoce, em que ambos podem ser analisados com um Simon doente diante da saúde e virilidade de Adam, enquanto Hanna se encanta diante de libido e sensualidade do amante, além do elemento proibido, sempre tão tentador.


Na análise do psicanalista francês Jacques Lacan, o amor segue uma das vertentes: manter a promessa de felicidade ou transformá-lo em proibido. E é exatamente isso que Hanna e Simon sentem diante de Adam e de si mesmos (a felicidade que ambos construíram aliada ao proibido que envolve Adam). Enquanto segredo, a relação a três permanece sem maiores abalos, porém quando o crucial momento da revelação se faz presente os personagens são colocados à prova. Afinal, Hanna e Simon se amam? Adam está apaixonado por um dos dois ou por ambos? Ali repousa apenas desejo, existe amor ou são apenas personagens em busca – ou fuga – de algum mal estar que talvez nem eles tenham ciência?

Triângulo Amoroso poderia simplesmente se limitar a Simon visto pelos olhos de Lacan que, seguindo Freud, formula o encontro do sujeito com a sexualidade. Não há uma discussão sobre hetero, bi ou homossexualidade, mas sim um modelo de busca da felicidade com intuito de tolerar o mal estar que sentimos com relação ao desejo humano.

Diante disso, podemos ir além e tratar de três vertentes, fechando o círculo da relação que permeia o trio: a amor/castração como completude para fazer desaparecer a falta original do desejo (a doença de Simon, por exemplo); a de amor/sexo em que o amor, segundo Freud, ultrapassa a relação de puro prazer (assim, estaríamos diante da relação de Hanna e Simon, que vai além do desejo sexual); e, finalmente, a vertente amor/gozo onde, com a dor do amor (Hanna/Simon), o prazer (Adam) se torna o grande elemento da paixão, em uma mistura perigosa e irresistível.