Nos dias 16 e 17 de julho de 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, a França manchou, para sempre, o seu nome na história mundial. Durante a ocupação nazista no País, a polícia parisiense realizou uma prisão em massa de judeus, na qual 13 mil de pessoas – maioria mulheres e crianças – foram enviados para o Velódromo d’Hiver (também conhecido como Velódromo de Inverno).

Sem qualquer assistência com relação à comida, água e higiene, permaneceram ali por uma semana, até serem enviados ao lendário campo de concentração de Auschwitz. O episódio permaneceu como um tabu na França, na qual muitos cidadãos nem sabiam da existência do fato, tamanha era a vergonha que ele provocou (e ainda provoca). Porém, no dia 16 de julho de 1995, no aniversário de 53 anos do acontecimento, o então presidente Jacques Chirac, fez um memorável discurso, onde revelou: “Aqueles dias negros serão, para sempre, uma mancha em nossa história”.


Entre essas pessoas que nem faziam ideia do Velódromo d’Hiver estava Tatiana de Rosnay que, sensibilizada com a história, escreveu A Chave de Sara. A obra, lançada em 2008, se tornou um best seller na França e rendeu o filme homônimo. Dirigido por Gilles Paquet-Brenner, que adaptou a obra a quatro mãos junto a Serge Joncour, A Chave de Sarah (Elle s’appelait Sarah, França, 2010) conta a história da jornalista Júlia (Kristin Scott Thomas, indicada ao César pelo papel) que, incumbida de realizar uma matéria sobre o tema, descobre estar prestes a morar no apartamento que pertenceu à família Starzynski, uma das muitas famílias desfeitas pelo trágico episódio. Embora não seja inspirada em personagens reais, livro e filme se baseiam na história real do episódio.

Quando são surpreendidos pela polícia para serem levados, a pequena Sarah Starzynski (Mélusine Mayance) tranca seu irmão mais novo, Michel (Paul Mercier) em um esconderijo da casa e, acreditando que a prisão não seria longa, promete ao garoto que voltaria para buscá-lo. Pronto, está lançado um filme que, apesar do tema batido da Segunda Guerra, não cai no lugar comum e nos entrega um filme comovente e muito bem feito. Sou obrigado a confessar que não tive contato com o livro, portanto, não tenho repertório para comparar a transposição para o cinema de sua obra original.


Alternando os tempos passado e presente, A Chave de Sarah acompanha o martírio de Sarah em tentar fugir do campo e resgatar o irmão, por mais que isto lhe custe a própria vida. No presente, Julia se envolve com essa história de forma que irá mudar, para sempre, sua própria família, especialmente quando descobre que há uma conexão do sogro com o passado.

Falado em francês e inglês, acompanhamos a vida das pessoas que conviveram com Sarah e seu destino quando é separada da mãe em um campo de transição antes de ser levada a Auschwitz (em uma das mais cruéis e inesquecíveis cenas do filme). Nesse entrelaçamento do passar dos anos, Julia vai seguindo o rastro do destino tomado pela menina após a fuga do campo para, com a chave em mãos, retirar o irmão do esconderijo.

Com um ritmo que não se perde em nenhum momento, a história é emocionante por si só, sem apelar para o melodrama rasteiro. Bem amarrado, com roteiro competente e uma direção segura, reforçada pela interpretação dos personagens, temos nos olhos expressivos da menina Mélusine Mayance a carga dramática necessária em uma situação como aquela.


Mesmo com alguns clichês previsíveis do gênero, como a presença do militar nazista que se sensibiliza, A Chave de Sarah traz um frescor novo à expressão “esperança convivendo junto ao caos”, sempre presente nos filmes de guerra, onde a bondade pode estar logo à frente, capaz de direcionar e acalentar após o terror. Além disso, quando tomamos o individual ao invés do todo, percebemos como a crueldade do nazismo não afetou milhões de pessoas, mas, sim, milhões de famílias, sonhos, amores, enfim, seres humanos, cada qual com sua particularidade e histórico de vida.

O filme, que não se perde em nenhum momento tem, ainda, a participação de Aidan Quinn (com um personagem crucial à trama) e da quase centenária Gisele Casadesus (de Minhas Tardes com Margueritte). O curioso, também, é que A Chave de Sarah mostra, mesmo que de forma leve, como o Velódromo d’Hiver afeta os personagens do presente. Tal enfoque poderia ser mais político, como Entre os Muros da Escola (2008) tratou com relação à xenofobia que assola a França nos últimos anos. No entanto,  A Chave de Sarah preferiu dar atenção à dramática história de uma personagem sofrida e consumida impiedosamente pela culpa. E o resultado, de fato, emociona e agrada.

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