A história de dois personagens completamente diferentes que se conhecem e atingem uma maturidade por conta de uma amizade já foi tema de diversos filmes. Do oscarizado Conduzindo Miss Daisy (1989) ao clássico E.T – O Extraterrestre (1982), passando pelo melancólico Tomates Verdes Fritos (1991) até o brazuca Cinema, Aspirinas e Urubus (2005) e, sem esquecer de Mary e Max – Uma Amizade Diferente (2009) e o italiano Cinema Paradiso (1988).

Todos exploraram o tema de forma sincera e emocionante, cada um com sua peculiaridade. E é pegando carona nessa premissa que o francês Minhas Tardes com Margueritte (La Tête en Friche, França, 2010) garante seu lugar na estante de uma-amizade-que-tinha-tudo-para-dar-errado mas que, inesperadamente – ou justamente por conta disso – dá certo. E como dá certo.


Dirigido e com roteiro adaptado pelo veterano Jean Becker (O Olhar da InocênciaEstranhos JardinsConversas com Meu Jardineiro), o longa baseia-se na obra homônima da escritora conterrânea Marie-Sabine Roger, publicada em 2009 e conta a história da amizade entre Germain (Gérard Depardieu) e Margueritte (Gisèle Casadesus).

Ele, em seus cinquenta anos e cem quilos, é um grandalhão semi-analfabeto de bom coração. Ela, em seus cinquenta quilos e quase cem anos, é uma senhora letrada, doce e solitária. Quando ambos se conhecem ao observar os pombos em um parque, nasce uma relação tão profunda e generosa que, pra quem está do lado de cá da tela, é impossível não sentir inveja boa.


Germain, que vive em um presente atormentado pela figura da mãe eternamente hostil e já senil Jacqueline (interpretada por Claire Maurier), divide suas tardes entre os papos de bar com os amigos nada sensíveis e sua relação amorosa com a doce e jovem Annette (Sophie Guillemin). Porém, quando ele e Margueritte se aproximam, ela vai fazer com que ele descubra o prazer da leitura, apresentando-lhe um mundo que fará com que sua imaginação alce voos sem limites.

O diretor e roteirista Jean Becker mostra que seus 73 anos só lhe trazem carga e força dramáticade extrair de seus atores o máximo de suas performances. E os méritos não param por aí. Depardieu, despido do que lhe restava de vaidade, traz no doce grandalhão Germain a dose certa de sensibilidade que, aliado a Casadesus que, em seus impressionantes 97 anos, nos entrega de bandeja uma personagem fascinante em seu mistério e doçura. Finalmente, a mãe que Germain procurou durante toda a vida e não teve.

E com diálogos inteligentes e sensíveis, permeados pela literatura, olhamos encantados a afinidade que ambos encontram em um amor que tardou, mas não falhou. E o filme, que não tarda (são apenas 1h17min), ficamos aqui, compassivos de uma sutileza tão latente, passeando pelo vai e vem de seu passado e por visitas rápidas à sua imaginação, mostrando que a “la tête en friche” do título original (algo como “cabeça ociosa”) de Germain tem maior potencial do que nós – e ele – imaginamos.

E em Minhas Tardes com Margueritte, observamos, assim, essa senhora tão terna e indefesa, abrindo um novo mundo a Germain, o grandalhão de coração doce em que nem as mazelas da vida lhe tiraram a capacidade de se emocionar, sonhar e amar. Entre poucas palavras que dizem muito e uma naturalidade impressionante, somos capazes de rir de Dépardieu, que criou naquele doce grandalhão um dos personagens mais singelos e adoráveis do cinema francês, enquanto Casadesus, em seus 97 anos – sendo 77 de carreira – vigora em um filme poético por si só.

De confrontos inevitáveis a situações que emocionam sem apelar para o melodramático, Minhas Tardes com Margueritte é mais uma prova do cinema francês acertando de novo em sua delicadeza. Redondo e simples, prova que o menos, conforme dita o clichê, pode ser mais. Muito mais.

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