Os filmes de Lars von Trier deveriam conter uma placa de “Cuidado” ao lado da sinopse ou na exibição de cada trailer. Cada vez mais angustiante em seus longas, o diretor dinamarquês só se supera a cada filme, não exatamente no quesito qualidade, mas na questão de incomodar a fundo seu público fiel, espécie de masoquistas que, a cada novo lançamento, se embrenham em seu universo tão particular e sobrecarregado.


Depois de Dançando no Escuro (2000), o diretor incomodou o mundo com Dogville (2003) e Anticristo (2009), mostrando alguns dos pontos mais cruéis da natureza humana. Mas com Melancolia (Melancholia, Dinamarca/França/Suécia/Alemanha, 2011), consegue tocar na ferida e nos mais profundos medos que nos sustentam.

Acompanhando a história de duas irmãs temos, de um lado, Justine (Kirsten Dunst), prestes a se casar com Michael (Alexander Skarsgård). Na esperada e luxuosa cerimônia, está Claire (Charlotte Gainsbourg) e seu pedante marido John (Kiefer Sutherland). A festa revela o lado profundamente depressivo de Justine, que não consegue conter sua melancolia nem mesmo no dia do próprio casamento.

Inicialmente mais racional, temos Claire apoiando a irmã mais nova, que desaba diante da iminência de um planeta chamado Melancolia, que pode vir a se chocar com a Terra. Neste ambiente claustrofóbico e extremamente melancólico, von Trier dilacera os nossos maiores medos com movimentos de câmera lenta, silêncios ensurdecedores, uma fotografia impecável e o (des)prazer de viver se esvaindo e/ou tomando forma.

De imagens que, de tão oníricas, inspirariam poemas épicos, Melancolia lida com a metafísica, o cosmos e o psicológico de seus personagens em conflitos que começam a ser exteriorizados diante da proximidade do planeta, com a melancolia inerente e permanente em locais, atitudes, gestos, expressões faciais. E em momentos de plena contemplação alternando câmera na mão seguindo as ações dos personagens, o filme se divide entre Justine e Claire com uma parte dedicada a cada uma delas, embora interajam em ambas.

Angustiante do começo ao fim, o longa, grandiloqüente por si só, traz Gainsbourg, sempre extremamente eficiente em suas interpretações mas a grande surpresa de Melancolia é, de fato, Dunst. Vencedora do prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes, ela cria uma Justine densa, profundamente imersa em suas amarguras.

E em um epílogo excepcional, favorecido pela trilha sonora carregada, observamos as atitudes de Justine e Claire diante do fim do mundo (tema tão explorado superficialmente pelos blockbusters hollywoodianos). E a pergunta se concretiza: se você estivesse diante dos seus últimos momentos, faria tudo ou não faria nada? E von Trier, que consegue embaralhar o psicológico de muitos, nos faz sair da sala escura com o peito apertado e a mente em ebulição. Gênio.

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