setembro 2011


Os filmes de Lars von Trier deveriam conter uma placa de “Cuidado” ao lado da sinopse ou na exibição de cada trailer. Cada vez mais angustiante em seus longas, o diretor dinamarquês só se supera a cada filme, não exatamente no quesito qualidade, mas na questão de incomodar a fundo seu público fiel, espécie de masoquistas que, a cada novo lançamento, se embrenham em seu universo tão particular e sobrecarregado.


Depois de Dançando no Escuro (2000), o diretor incomodou o mundo com Dogville (2003) e Anticristo (2009), mostrando alguns dos pontos mais cruéis da natureza humana. Mas com Melancolia (Melancholia, Dinamarca/França/Suécia/Alemanha, 2011), consegue tocar na ferida e nos mais profundos medos que nos sustentam.

Acompanhando a história de duas irmãs temos, de um lado, Justine (Kirsten Dunst), prestes a se casar com Michael (Alexander Skarsgård). Na esperada e luxuosa cerimônia, está Claire (Charlotte Gainsbourg) e seu pedante marido John (Kiefer Sutherland). A festa revela o lado profundamente depressivo de Justine, que não consegue conter sua melancolia nem mesmo no dia do próprio casamento.

Inicialmente mais racional, temos Claire apoiando a irmã mais nova, que desaba diante da iminência de um planeta chamado Melancolia, que pode vir a se chocar com a Terra. Neste ambiente claustrofóbico e extremamente melancólico, von Trier dilacera os nossos maiores medos com movimentos de câmera lenta, silêncios ensurdecedores, uma fotografia impecável e o (des)prazer de viver se esvaindo e/ou tomando forma.

De imagens que, de tão oníricas, inspirariam poemas épicos, Melancolia lida com a metafísica, o cosmos e o psicológico de seus personagens em conflitos que começam a ser exteriorizados diante da proximidade do planeta, com a melancolia inerente e permanente em locais, atitudes, gestos, expressões faciais. E em momentos de plena contemplação alternando câmera na mão seguindo as ações dos personagens, o filme se divide entre Justine e Claire com uma parte dedicada a cada uma delas, embora interajam em ambas.

Angustiante do começo ao fim, o longa, grandiloqüente por si só, traz Gainsbourg, sempre extremamente eficiente em suas interpretações mas a grande surpresa de Melancolia é, de fato, Dunst. Vencedora do prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes, ela cria uma Justine densa, profundamente imersa em suas amarguras.

E em um epílogo excepcional, favorecido pela trilha sonora carregada, observamos as atitudes de Justine e Claire diante do fim do mundo (tema tão explorado superficialmente pelos blockbusters hollywoodianos). E a pergunta se concretiza: se você estivesse diante dos seus últimos momentos, faria tudo ou não faria nada? E von Trier, que consegue embaralhar o psicológico de muitos, nos faz sair da sala escura com o peito apertado e a mente em ebulição. Gênio.

Confesso que minhas expectativas diante de A Árvore da Vida (The Tree of Life, EUA, 2011) eram grandes. O trailer intrigante e de imagens belíssimas, a mistura filosofia/religião/família e Terrence Malick na direção, diretor recluso que, antes do retorno com o ótimo Além da Linha Vermelha (1998), havia mantido um hiato de vinte anos sem dirigir. Depois, dirigiu a versão repaginada de Pocahontas com O Novo Mundo (2005), que trazia Colin Farrel e Christian Bale.

 Rumores de prováveis indicações ao Oscar 2012 e a Palma de Ouro em Cannes aumentaram ainda mais a curiosidade diante de A Árvore da Vida. Centrado em uma conservadora família americana nos anos 50, o filme acompanha o rígido pai Sr. O’Brien (Brad Pitt), a doce sra. O’Brien (Jessica Chastain) e seus três filhos, interpretados por Laramie Eppler, Hunter McCracken e Tye Sheridan.

O mais velho, Jack (Hunter McCracken) vai chegando à adolescência e enfrentando de frente a inevitável perda da inocência daquele mundo, aparentemente, tão perfeito. Da delicada e submissa mãe às frustrações do severo pai, Jack passa seus dias em meio a esse universo que, deixam marcas profundas em sua vida adulta (Sean Penn), incluindo quando lida de perto com a morte.  


Com pouquíssimos diálogos, o filme se entrega a imagens estonteantes em uma impecável fotografia, dando ao público de bandeja a chance de analisar por si só os eventos que permeiam o filme. Contemplativo e com um ritmo lento, A Árvore da Vida é, por si só, um filme sobre a própria natureza humana. Com elementos que remetem desde 2001 – Uma Odisséia no Espaço (1968) de Stanley Kubrick ao Fonte da Vida (2006) de Darren Aronofsky, Malick esmiúça a vida humana em imagens impressionantes – porém extensas e cansativas – que vão de fenômenos naturais ao cosmos.

As frases de efeito aliadas aos detalhes e planos de câmera inteligentes fazem de A Árvore da Vida um filme difícil de digerir de um garoto perdido entre a poesia materna e a realidade paterna. Sem a empatia necessária, podemos nos sentir jogados em um universo de lembranças que não são concretizadas na vida atual de Jack (resta a Sean Penn fazer caras e bocas tristes em sua monótona vida de executivo brevemente mostrada). É o silêncio de Malick querendo dizer algo, mas que não deixa claro a que veio.


E nesse ambiente, ora onírico ora claustrofóbico dos O’Brien, temos toda a fragilidade e força da natureza latente e prestes a explodir, seja ela em si ou de sentimentos velados. Entre silêncios e a trilha de ópera e cantos gregorianos, planos de câmera mostrando o ser humano entre a grandeza e pequenez diante de sua existência, temos um epílogo de rendição apático, que não emociona.

Diante de tanto a dizer, Malick se perde em sua própria contemplação, se rendendo às imagens e filosofia de traumas familiares que tentam tocar o público e, na minha concepção, falham em sua concretude etérea. Não comove, não incomoda e não evolui.

Existe um conceito popular que diz que boa parte das mulheres não são burras, mas se fazem de tal para enganar e manipular as pessoas. Dissimuladas, inteligentes, maquiavélicas são alguns dos adjetivos que muitos designam a este comportamento feminino. Em Potiche – Esposa Troféu (Potiche, 2010, França), do diretor François Ozon (O Refúgio,O Tempo que RestaO Amor em 5 TemposSwimming Pool – À Beira da Piscina8 Mulheres), uma personagem consegue ser a mistura na medida certa de todos esses adjetivos.

Ela é Suzanne (Catherine Deneuve, impecável), a potiche(vaso, em francês) do título, uma mulher rica que, na década de 70, vive com o marido Robert (Fabrice Luchini), um homem machista e que a trata como se ela fosse um mero vaso de decoração. Nesse ambiente de aparências e conservadorismo, a Suzanne resta apenas o amor dos filhos: a doce Joelle (Judith Godrèche), prestes a se separar do marido e o compreensivo Laurent (Jérémie Renier).


Presa em sua rotina de um casamento infeliz, Suzanne mantém a classe e o sorriso no rosto como se vivesse em perfeita felicidade. O marido, que preside a empresa do sogro, é sequestrado após uma greve dos funcionários, que o consideram um déspota explorador. Após solicitar a ajuda do político Maurice (Gérard Depardieu, ótimo), Suzanne terá de assumir as rédeas da empresa. E essa é a sacada de Potiche – Esposa Troféu: mostra como a dona de casa é capaz de se tornar uma líder sensata e de punho firme.


Ozon e Deneuve, que já haviam trabalhado no esplendoroso musical 8 Mulheres, trazem às telas a peça escrita pela dupla Pierre Barillet e Jean-Pierre Grédy, mantendo – embora com menos força – o teor teatral da história, com um elenco primoroso, ritmo, diálogos inteligentes e humor carregado de ironia e sarcasmo. Porém, as farpas trocadas entre os personagens que se confrontam em uma mistura ácida de sentimentos, política e negócios nunca beiram o deboche. Remetem, na verdade, às comédias dramáticas de Almodóvar e Wes Anderson, com inspiração, inclusive, nas cores carregadas e no visual kitsch.

O sexteto se completa com a iludida secretária Nadège (Karin Viard), que mantém um caso frustrante com Robert, mas, posteriormente, percebe que ambas são vítimas do empresário. E nesta aura dos anos 70, essa mulher-bibelô enfrenta seu universo de mentira e hipocrisia, evoluindo como ser humano e se abrindo ao mundo sem culpa ou medo diante de sua reputação.


Ozon, indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza 2010 como melhor diretor e um dos diretores mais talentosos do cinema francês contemporâneo, traz uma câmera fascinada por Deneuve (que esteve no Brasil para lançar o longa), ainda exalando charme e beleza em seus 67 anos. E Potiche – Esposa Troféu, lançado no Brasil pela Imovision, já está em sua terceira semana consecutiva entre os dez mais assistidos no Brasil. Pelo visto, muita gente gostaria de ter um vaso raro como Catherine Deneuve para decorar sua casa. Ainda mais quando ela decide tomar as rédeas de sua vida e nos mostra que vaso bom também não quebra. Imperdível.

Diretor veterano, aos 73 anos o francês Claude Lelouch traz seu modo costumeiro de filmar histórias em seu mais novo longa, Esses Amores (Ces Amours-là,  França, 2010). Com roteiros que abrangem diversos países e continentes, personagens passionais e o contexto histórico de cada época agindo como fator de extrema influência, ele retoma de forma eficiente o sucesso de outros exemplos do gênero presentes em sua filmografia.


Da questão de personagens que passam pelas mazelas da guerra e as cicatrizes deixadas em Retratos da Vida, de 1981, Lelouch bebeu da própria fonte também de Toda Uma Vida, filme de 1974 que retrata diversos universos ao redor do mundo durante um século de histórias de vida. E, como não poderia ficar de fora de seu filme mais conhecido – e premiado – Um Homem, Uma Mulher (1966), que recebeu o Oscar de Roteiro Original e Palma de Ouro em Cannes, o cineasta explora o amor.

Nessa miscelânea, Esses Amores explora, durante duas horas, os amores vividos pela personagem Ilva (Audrey Dana). Do envolvimento com um universitário (o cantor e ator Raphaël), passando pelo conturbado romance com um oficial nazista (Samuel Labarthe) até ousar ainda mais e se envolver com dois soldados americanos (Jacky Ido e Gilles Lemaire) em um trágico triângulo amoroso.


O projeto, que era um sonho antigo de Lelouch e foi escrito a quatro mãos pelo diretor e por Pierre Uytterhoeven, deixa o público espantado e curioso quando afirma que quaisquer semelhanças do filme com a realidade não serão mera coincidência. A personagem de Ilva, “a mulher que se apaixona rápido porque coloca o amor acima de tudo”, permeia todo o longa, em uma oportunidade que Lelouch tem de declarar seu amor à música, ao cinema e, claro, ao amor.

Com um prólogo que vai agradar aos fãs do cinema mudo, a sétima arte vai estar presente em todo o envolvimento dos personagens, interligados pelos três elementos principais. Da trilha imponente feita para emocionar (com sucesso), Esses Amores vai costurando a história de cada um de seus inúmeros personagens que desembocam em Ilva durante quase setenta anos.

Falado em francês, alemão, italiano e inglês, Lelouch reafirma a linguagem universal do amor, que agrada aos mais românticos, embora resvale em certos clichês não prejudiciais no resultado final. O resultado, curioso e tocante, explora todas as vertentes desse sentimento, desmembrando-o em separação pela guerra, solidão, loucura, felicidade, perdas e ganhos, traições, lembranças e destino, só para citar alguns.


E das consequências desses amores, Ilva e os demais personagens vão amadurecendo, sofrendo como quem já sofreu por amor. E, como todo ato traz uma consequência, Ilva passa pelas mais diversas amarguras, resultado de uma vida longa e de uma mulher cuja personalidade não se encaixa com o conservadorismo das épocas em que viveu.

Bem dirigido, com uma bela fotografia e atores corretos em seus papéis, Esses Amores não é um dos melhores filmes de Lelouch, mas encanta por trazer, ainda, participações especiais da diva Anouk Aimée (de Um Homem, Uma Mulher) e da quase centenária Gisèle Casadesus (de Minhas Tardes com Margueritte, em cartaz nos cinemas), que emociona no espetacular epílogo, onde música, cinema e amor atingem seu ápice.

A história de dois personagens completamente diferentes que se conhecem e atingem uma maturidade por conta de uma amizade já foi tema de diversos filmes. Do oscarizado Conduzindo Miss Daisy (1989) ao clássico E.T – O Extraterrestre (1982), passando pelo melancólico Tomates Verdes Fritos (1991) até o brazuca Cinema, Aspirinas e Urubus (2005) e, sem esquecer de Mary e Max – Uma Amizade Diferente (2009) e o italiano Cinema Paradiso (1988).

Todos exploraram o tema de forma sincera e emocionante, cada um com sua peculiaridade. E é pegando carona nessa premissa que o francês Minhas Tardes com Margueritte (La Tête en Friche, França, 2010) garante seu lugar na estante de uma-amizade-que-tinha-tudo-para-dar-errado mas que, inesperadamente – ou justamente por conta disso – dá certo. E como dá certo.


Dirigido e com roteiro adaptado pelo veterano Jean Becker (O Olhar da InocênciaEstranhos JardinsConversas com Meu Jardineiro), o longa baseia-se na obra homônima da escritora conterrânea Marie-Sabine Roger, publicada em 2009 e conta a história da amizade entre Germain (Gérard Depardieu) e Margueritte (Gisèle Casadesus).

Ele, em seus cinquenta anos e cem quilos, é um grandalhão semi-analfabeto de bom coração. Ela, em seus cinquenta quilos e quase cem anos, é uma senhora letrada, doce e solitária. Quando ambos se conhecem ao observar os pombos em um parque, nasce uma relação tão profunda e generosa que, pra quem está do lado de cá da tela, é impossível não sentir inveja boa.


Germain, que vive em um presente atormentado pela figura da mãe eternamente hostil e já senil Jacqueline (interpretada por Claire Maurier), divide suas tardes entre os papos de bar com os amigos nada sensíveis e sua relação amorosa com a doce e jovem Annette (Sophie Guillemin). Porém, quando ele e Margueritte se aproximam, ela vai fazer com que ele descubra o prazer da leitura, apresentando-lhe um mundo que fará com que sua imaginação alce voos sem limites.

O diretor e roteirista Jean Becker mostra que seus 73 anos só lhe trazem carga e força dramáticade extrair de seus atores o máximo de suas performances. E os méritos não param por aí. Depardieu, despido do que lhe restava de vaidade, traz no doce grandalhão Germain a dose certa de sensibilidade que, aliado a Casadesus que, em seus impressionantes 97 anos, nos entrega de bandeja uma personagem fascinante em seu mistério e doçura. Finalmente, a mãe que Germain procurou durante toda a vida e não teve.

E com diálogos inteligentes e sensíveis, permeados pela literatura, olhamos encantados a afinidade que ambos encontram em um amor que tardou, mas não falhou. E o filme, que não tarda (são apenas 1h17min), ficamos aqui, compassivos de uma sutileza tão latente, passeando pelo vai e vem de seu passado e por visitas rápidas à sua imaginação, mostrando que a “la tête en friche” do título original (algo como “cabeça ociosa”) de Germain tem maior potencial do que nós – e ele – imaginamos.

E em Minhas Tardes com Margueritte, observamos, assim, essa senhora tão terna e indefesa, abrindo um novo mundo a Germain, o grandalhão de coração doce em que nem as mazelas da vida lhe tiraram a capacidade de se emocionar, sonhar e amar. Entre poucas palavras que dizem muito e uma naturalidade impressionante, somos capazes de rir de Dépardieu, que criou naquele doce grandalhão um dos personagens mais singelos e adoráveis do cinema francês, enquanto Casadesus, em seus 97 anos – sendo 77 de carreira – vigora em um filme poético por si só.

De confrontos inevitáveis a situações que emocionam sem apelar para o melodramático, Minhas Tardes com Margueritte é mais uma prova do cinema francês acertando de novo em sua delicadeza. Redondo e simples, prova que o menos, conforme dita o clichê, pode ser mais. Muito mais.