Mais um representante da programação oficial do Festival Varilux de Cinema Francês, Uma Doce Mentira (De Vrais Mensonges, França, 2010) trouxe a atriz Audrey Tautou, eternizada como a personagem Amélie Poulain, para promover o filme no Brasil. Sorte de nós, brasileiros, que recebemos a bela Tautou (considerada musa da nova geração do cinema francês) e seu filme mais recente, uma deliciosa comédia francesa, no sentido mais literal que se possa ter.

Como crítico, confesso que me incomodou assistir Uma Doce Mentira. A razão? Não encontrar motivos para falar mal do longa do diretor e roteirista Pierre Salvadori (Après vous…, Les Marchands de Sable e Amar não Tem Preço, este também com a presença de Tautou). Confesso que há tempos uma comédia não me agradava tanto.

Em Uma Doce Mentira, a atriz interpreta Émilie, uma jovem que é dona de um salão de cabeleireiro junto com a amiga Sylvia (Stéphanie Lagarde). Lá, ela trabalha com o tímido Jean (Sami Bouajila), uma espécie de faz-tudo do local. Entre pinturas e manutenção elétrica do local, ele esconde seus sentimentos por Émilie e lhe envia uma carta de amor anônima, que é tratada com descaso pela cabeleireira. Ela, ao ver a mãe, Maddy (Nathalie Baye), depressiva após ser abandonada por uma moça bem mais jovem e descrente de que atraia a atenção de qualquer homem, vê na romântica carta de Jean a oportunidade de trazer de volta a alegria de Maddy. Está criada a teia de confusões e mal entendidos que permearão todo o filme.

Quando se sente amada à distância Maddy vai, a todo custo, em busca da identidade do autor e, quando por uma ironia do destino, se depara com o próprio Jean, a vida dos três se transforma em um turbilhão de confusões e equívocos que farão a plateia se deliciar com o trio central, interpretados com extrema competência e afinidade, especialmente no timing para comédia.


A tempo, outra qualidade que pesa a favor de Uma Doce Mentira é a qualidade do roteiro que, nunca perdendo o ritmo em sua direção segura e apoiando-se no carisma intocável de seus personagens, traz cenas memoráveis e inteligentes. Fica difícil escolher uma favorita: Émilie se entupindo de vodka para escrever uma carta de amor (para a própria mãe); o momento em que Émilie diz, depreciando, ao próprio Jean o que pensa do autor da carta ou a maior das consequências, quando Maddy tenta conquistar Jean a todo o custo.

Nathalie Baye e Audrey Tautou estão ótimas como mãe e filha, mas se Uma Doce Mentira tem seus méritos, boa parte deles são de Sami Bouajila, que cria em Jean um personagem cativante em sua introspecção e timidez, misturando expressões faciais que dizem mais em seus silêncios do que muitas linhas. E nesse jogo de mentiras e segredos, ele é quem se destaca, quando se vê como objeto de desejo da mãe da mulher pela qual está apaixonado.

E nesse desconforto hilário, com sua bem cuidada fotografia, humor ácido e ritmo que nunca perde o fôlego, Uma Doce Mentira é uma despretensiosa comédia que se destaca pela qualidade e se sobressai em seu ritmo cativante do começo ao fim. Até mesmo em seu epílogo, que fecha com chave de ouro, no melhor estilo vaudeville.


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