Queria pedir permissão ao leitor para começar esta crítica com uma história pessoal. Trata-se de uma grande amiga que, tempos atrás, vivendo às turras com a mãe, comemorou quando tiveram de se separar (a mãe ia para o Rio de Janeiro e ela permaneceria em São Paulo). A distância, acreditavam as duas, faria bem para a relação, que já estava desgastada pela convivência diária. Porém, logo começaram a sentir uma saudade descomunal uma da outra e, quando voltaram a morar juntas (a minha amiga também se mudou para o Rio posteriormente), as brigas voltaram a acontecer.

Já li uma vez que o ser humano é como um porco-espinho: quando vivem muito próximos, se machucam e, quando se separam, morrem de frio. E é esse o ponto de partida de Copacabana (idem, França/Bélgica, 2010), comédia do diretor e roteirista Marc Fitoussi, que entra na programação oficial do Festival Varilux, que teve início no dia 8 e está espalhado pelo Brasil em 22 cidades.


Babou (Isabelle Huppert) é o tipo de mulher de meia idade que não se preocupa com os convencionalismos: se veste de modo espalhafatoso, diz o que quer, aproveita-se das oportunidades para se dar bem e não se preocupa com carreira ou com o que vão pensar sobre ela. Para alguns, seria uma ótima amiga e uma mulher de espírito livre. Porém, quando se trata de sua filha Esméralda (Lolita Chammah), é julgada como uma inconsequente, gerando uma relação complicada e praticamente insustentável.

Porém, quando Esmé diz que vai se casar e assume, com todas as letras, que não quer a presença de Babou na cerimônia, ela decide dar um novo rumo à sua vida, mudando-se para uma monótona cidade na Bélgica, onde arruma um emprego em uma imobiliária. Disposta a provar que pode ser uma pessoa “de respeito” para a filha, ela vai descobrir – e se descobrir – capaz de mudar não somente para agradar Esmé, mas também para si mesma.


O título do filme, que remete ao amor que Babou sente pelo Rio de Janeiro, é uma grande homenagem do cinema francês ao Brasil, com uma trilha repleta de canções tupiniquins e uma personagem de espírito livre, capaz de encantar e fazer rir boa parte do público na sala de cinema. Isso deve-se, principalmente, a Isabelle Huppert. Vencedora de dois prêmios em Cannes (Violette Nozière e Professora de Piano), é uma das grandes divas do cinema francês contemporâneo que, mais do que interpretar, dá vida a Babou com classe e competência intocáveis.

Com um roteiro bem escrito e leve – apesar de tocar na ferida da relação mãe em filha quando necessário – acompanhamos a rotina de Babou na tediosa cidade belga e sua relação com os outros funcionários, desde a hostil e invejosa Irene (Chantal Banlier) até a exigente chefe Lydie (Aure Atika), além do compreensivo Bart (Jurgen Delnaet), que surge como um caso amoroso e do casal sem-teto Sophie (Magali Woch) e Kurt (Guillaume Gouix), peças-chave para que Babou (re)descubra sua natureza caridosa.


Tratando com delicadeza do tema, sem tomar lados, Copacabana foca nesse  acerto de contas entre mãe e filha, sempre atual, com delicadeza e sinceridade, mas sem perder o foco na comédia. E faz isso com gostinho brasileiro, com Huppert em uma cena no páreo de se tornar antológica em que, no epílogo, ela se esforça em passos de samba e até arrisca uma frase em português, deixando os fãs da atriz com um sorriso largo no rosto. Merece ser conferido.

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