Perdoem-me os leitores, mas é impossível falar de Contracorrente (Contracorriente, Peru/Colômbia/França/Alemanha, 2009) sem entregar a grande surpresa do longa do diretor Javier Fuentes-León, debutando em longa-metragem.

Grande vencedor do Prêmio do Público no Festival de Sundance 2010, Contracorrente retrata a história de Miguel (Cristian Mercado), um pescador de uma vila costeira peruana que mantém um caso com um fotógrafo e pintor do local, Santiago (Manolo Cardona). Casado e com a esposa Mariela (Tatiana Astengo) prestes a dar à luz, a vida de Miguel vira pelo avesso quando, após o afogamento de Santiago, ele é o único capaz de enxergar o amante morto.


A premissa, claro, remete à clássica estória de Jorge Amado, Dona Flor e Seus Dois Maridos, porém com uma dose menor de humor, mais leve que convém ao filme. Enxergando Santiago, Miguel pode, finalmente, viver esse romance proibido, condenado pela comunidade conservadora e religiosa da vila litorânea.

Para que Santiago vá embora, Miguel precisa encontrar o corpo desaparecido e cumprir os rituais religiosos, conforme manda a tradição. Nesse dilema de não aceitação de sua homossexualidade, ele entrará em conflitos com todos, especialmente com a doce esposa, Mariela.


A grande crítica de Contracorrente é mostrar que o amor de Santiago e Miguel só pôde se concretizar na morte. Só quando ninguém além de Miguel podia enxergá-lo é que esse romance pôde ser vivido.

Com belas locações litorâneas e personagens simples, presos em suas crenças religiosas, o roteiro do longa colabora para prender a atenção do público, com ritmo e, mesmo quase resvalando no drama fácil, se sobressai em sua delicadeza e sinceridade para lidar com tema, mesmo se entregando ao realismo fantástico.


Sem pressa em seu epílogo, emociona ao tratar das escolhas envolvidas que atormentam Miguel, como família e as regras morais do conservadorismo e da religião. E diante das escolhas a serem tomadas, as chances de acarretar consequências são, inevitavelmente e praticamente, certas.

 

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