junho 2011


Mais um representante da programação oficial do Festival Varilux de Cinema Francês, Uma Doce Mentira (De Vrais Mensonges, França, 2010) trouxe a atriz Audrey Tautou, eternizada como a personagem Amélie Poulain, para promover o filme no Brasil. Sorte de nós, brasileiros, que recebemos a bela Tautou (considerada musa da nova geração do cinema francês) e seu filme mais recente, uma deliciosa comédia francesa, no sentido mais literal que se possa ter.

Como crítico, confesso que me incomodou assistir Uma Doce Mentira. A razão? Não encontrar motivos para falar mal do longa do diretor e roteirista Pierre Salvadori (Après vous…, Les Marchands de Sable e Amar não Tem Preço, este também com a presença de Tautou). Confesso que há tempos uma comédia não me agradava tanto.

Em Uma Doce Mentira, a atriz interpreta Émilie, uma jovem que é dona de um salão de cabeleireiro junto com a amiga Sylvia (Stéphanie Lagarde). Lá, ela trabalha com o tímido Jean (Sami Bouajila), uma espécie de faz-tudo do local. Entre pinturas e manutenção elétrica do local, ele esconde seus sentimentos por Émilie e lhe envia uma carta de amor anônima, que é tratada com descaso pela cabeleireira. Ela, ao ver a mãe, Maddy (Nathalie Baye), depressiva após ser abandonada por uma moça bem mais jovem e descrente de que atraia a atenção de qualquer homem, vê na romântica carta de Jean a oportunidade de trazer de volta a alegria de Maddy. Está criada a teia de confusões e mal entendidos que permearão todo o filme.

Quando se sente amada à distância Maddy vai, a todo custo, em busca da identidade do autor e, quando por uma ironia do destino, se depara com o próprio Jean, a vida dos três se transforma em um turbilhão de confusões e equívocos que farão a plateia se deliciar com o trio central, interpretados com extrema competência e afinidade, especialmente no timing para comédia.


A tempo, outra qualidade que pesa a favor de Uma Doce Mentira é a qualidade do roteiro que, nunca perdendo o ritmo em sua direção segura e apoiando-se no carisma intocável de seus personagens, traz cenas memoráveis e inteligentes. Fica difícil escolher uma favorita: Émilie se entupindo de vodka para escrever uma carta de amor (para a própria mãe); o momento em que Émilie diz, depreciando, ao próprio Jean o que pensa do autor da carta ou a maior das consequências, quando Maddy tenta conquistar Jean a todo o custo.

Nathalie Baye e Audrey Tautou estão ótimas como mãe e filha, mas se Uma Doce Mentira tem seus méritos, boa parte deles são de Sami Bouajila, que cria em Jean um personagem cativante em sua introspecção e timidez, misturando expressões faciais que dizem mais em seus silêncios do que muitas linhas. E nesse jogo de mentiras e segredos, ele é quem se destaca, quando se vê como objeto de desejo da mãe da mulher pela qual está apaixonado.

E nesse desconforto hilário, com sua bem cuidada fotografia, humor ácido e ritmo que nunca perde o fôlego, Uma Doce Mentira é uma despretensiosa comédia que se destaca pela qualidade e se sobressai em seu ritmo cativante do começo ao fim. Até mesmo em seu epílogo, que fecha com chave de ouro, no melhor estilo vaudeville.


Queria pedir permissão ao leitor para começar esta crítica com uma história pessoal. Trata-se de uma grande amiga que, tempos atrás, vivendo às turras com a mãe, comemorou quando tiveram de se separar (a mãe ia para o Rio de Janeiro e ela permaneceria em São Paulo). A distância, acreditavam as duas, faria bem para a relação, que já estava desgastada pela convivência diária. Porém, logo começaram a sentir uma saudade descomunal uma da outra e, quando voltaram a morar juntas (a minha amiga também se mudou para o Rio posteriormente), as brigas voltaram a acontecer.

Já li uma vez que o ser humano é como um porco-espinho: quando vivem muito próximos, se machucam e, quando se separam, morrem de frio. E é esse o ponto de partida de Copacabana (idem, França/Bélgica, 2010), comédia do diretor e roteirista Marc Fitoussi, que entra na programação oficial do Festival Varilux, que teve início no dia 8 e está espalhado pelo Brasil em 22 cidades.


Babou (Isabelle Huppert) é o tipo de mulher de meia idade que não se preocupa com os convencionalismos: se veste de modo espalhafatoso, diz o que quer, aproveita-se das oportunidades para se dar bem e não se preocupa com carreira ou com o que vão pensar sobre ela. Para alguns, seria uma ótima amiga e uma mulher de espírito livre. Porém, quando se trata de sua filha Esméralda (Lolita Chammah), é julgada como uma inconsequente, gerando uma relação complicada e praticamente insustentável.

Porém, quando Esmé diz que vai se casar e assume, com todas as letras, que não quer a presença de Babou na cerimônia, ela decide dar um novo rumo à sua vida, mudando-se para uma monótona cidade na Bélgica, onde arruma um emprego em uma imobiliária. Disposta a provar que pode ser uma pessoa “de respeito” para a filha, ela vai descobrir – e se descobrir – capaz de mudar não somente para agradar Esmé, mas também para si mesma.


O título do filme, que remete ao amor que Babou sente pelo Rio de Janeiro, é uma grande homenagem do cinema francês ao Brasil, com uma trilha repleta de canções tupiniquins e uma personagem de espírito livre, capaz de encantar e fazer rir boa parte do público na sala de cinema. Isso deve-se, principalmente, a Isabelle Huppert. Vencedora de dois prêmios em Cannes (Violette Nozière e Professora de Piano), é uma das grandes divas do cinema francês contemporâneo que, mais do que interpretar, dá vida a Babou com classe e competência intocáveis.

Com um roteiro bem escrito e leve – apesar de tocar na ferida da relação mãe em filha quando necessário – acompanhamos a rotina de Babou na tediosa cidade belga e sua relação com os outros funcionários, desde a hostil e invejosa Irene (Chantal Banlier) até a exigente chefe Lydie (Aure Atika), além do compreensivo Bart (Jurgen Delnaet), que surge como um caso amoroso e do casal sem-teto Sophie (Magali Woch) e Kurt (Guillaume Gouix), peças-chave para que Babou (re)descubra sua natureza caridosa.


Tratando com delicadeza do tema, sem tomar lados, Copacabana foca nesse  acerto de contas entre mãe e filha, sempre atual, com delicadeza e sinceridade, mas sem perder o foco na comédia. E faz isso com gostinho brasileiro, com Huppert em uma cena no páreo de se tornar antológica em que, no epílogo, ela se esforça em passos de samba e até arrisca uma frase em português, deixando os fãs da atriz com um sorriso largo no rosto. Merece ser conferido.

É curioso observar a ousadia de Nous Étions Un Seul Homme (Nós Éramos Um Só Homem, em tradução literal), filme francês de 1979 dirigido por Philippe Vallois. Numa pequena vila rural durante o final da Segunda Guerra, o camponês Guy Rouveron (Serge Avedikian) resgata Rolf (Piotr Stanislas), um soldado alemão ferido nas proximidades de sua casa.

Aos hospedar o militar, a relação dos dois vai se transformando em uma mistura de amizade, ódio e tensão sexual. Infantilizado e, ao mesmo tempo, sexual, Guy vai se tornando um objeto de desejo de Rolf, que camufla seus sentimentos pelo jovem, cada vez mais perturbado mentalmente.

Com produção limitada, que lembra as obras neo-realistas do cinema italiano, Nous Étions Un Seul Homme traz semelhanças, ainda, com as obras carregadas de teor sexual de Pasolini, com um humor carregado de qüiproquós, com ritmo rápido e aspecto teatral.


O interessante é observar a relação da dupla, que inclui a bela Jenine (Catherine Albin), que mantém um caso às escondidas com Guy, provocando ainda mais o ciúmes em Rolf.

Sem muitas ações acontecendo no dia a dia dos dois em meio à paisagem rural, o filme foca na tensão homoerótica que transborda na tela, com direito a nu frontal masculino (uma ousadia para a época) e cenas convincentes de sexo.


Misturando surrealismo , viagem pelo inconsciente, distúrbios mentais e obsessão, o filme incomoda ao mostrar dois personagens impossibilitados  de viver juntos e incapazes de se separar. E o resultado final, como haveria de ser, não é nenhum mar de rosas.

Inspirado no documentário Small Wonders (1995), o longa Música do Coração (Musico f the Heart, EUA, 1999) conta a emocionante história real de Roberta Guaspari (Meryl Streep, que conseguiu sua 12ª indicação ao Oscar), uma violonista e mãe de dois filhos que, após ser abandonada pelo marido, se torna professora em uma escola no East Side Harlem, bairro da periferia dos EUA.

Dirigido por Wes Craven (mais conhecido pela série de terror Pânico), dirigiu Música do Coração com competência, onde Streep, sempre intocável, dá vida a uma mulher cuja principal esperança e prazer na vida era a música.


Feito para emocionar, o filme acompanha Guaspari enfrentando as dificuldades de ensinar alunos de baixa renda na escola comandada pela diretora Janet Williams (Angela Basset, correta no papel). Entre problemas pessoais dos pequenos estudantes, ela ainda tem de enfrentar a desconfiança da mãe de um dos alunos e o invejoso coordenador de música do colégio, Dennis Rausch (interpretado por Josh Pais).

Feito para emocionar e com altas doses de açúcar, Música do Coração traz, ainda, Brian Turner (Aidan Quiinn) como um dos romances que surgem na vida da personagem e a preocupada mãe, Assunta (em ótima performance de Cloris Leachman, vencedora do Oscar em 1972 por seu papel em A Última Sessão de Cinema). A cantora Gloria Estefan também faz uma ponta, como uma das professoras que apoiam a iniciativa de Guaspari em ensinar música aos jovens.


A história de um professor que enfrenta dificuldades ao ensinar a alunos marginalizados não é nova, mas sempre funciona. Tratando com leveza o problema – e mostrando somente a ponta do iceberg – Craven e Streep fazem um trabalho que não decepciona, embora resvale em alguns clichês do gênero.

Porém, a história vai ganhando força a partir do momento que Guaspari vai superando os conflitos com os filhos e vê seu trabalho crescer nos dez anos que se seguem na escola, que lhe fazem superar a traumática separação do marido.


Entregando-se com dedicação à sua grande paixão, Guaspari lutou para passar adiante a arte do violino, esforçando-se para conseguir verbas e dar uma nova perspectiva a alunos que poderiam ser vítimas do crime e das drogas. Com um epílogo emocionante, Música do Coração entrega a história real de uma professora que, mais do que salvar seus alunos, salvou a si mesma.

Perdoem-me os leitores, mas é impossível falar de Contracorrente (Contracorriente, Peru/Colômbia/França/Alemanha, 2009) sem entregar a grande surpresa do longa do diretor Javier Fuentes-León, debutando em longa-metragem.

Grande vencedor do Prêmio do Público no Festival de Sundance 2010, Contracorrente retrata a história de Miguel (Cristian Mercado), um pescador de uma vila costeira peruana que mantém um caso com um fotógrafo e pintor do local, Santiago (Manolo Cardona). Casado e com a esposa Mariela (Tatiana Astengo) prestes a dar à luz, a vida de Miguel vira pelo avesso quando, após o afogamento de Santiago, ele é o único capaz de enxergar o amante morto.


A premissa, claro, remete à clássica estória de Jorge Amado, Dona Flor e Seus Dois Maridos, porém com uma dose menor de humor, mais leve que convém ao filme. Enxergando Santiago, Miguel pode, finalmente, viver esse romance proibido, condenado pela comunidade conservadora e religiosa da vila litorânea.

Para que Santiago vá embora, Miguel precisa encontrar o corpo desaparecido e cumprir os rituais religiosos, conforme manda a tradição. Nesse dilema de não aceitação de sua homossexualidade, ele entrará em conflitos com todos, especialmente com a doce esposa, Mariela.


A grande crítica de Contracorrente é mostrar que o amor de Santiago e Miguel só pôde se concretizar na morte. Só quando ninguém além de Miguel podia enxergá-lo é que esse romance pôde ser vivido.

Com belas locações litorâneas e personagens simples, presos em suas crenças religiosas, o roteiro do longa colabora para prender a atenção do público, com ritmo e, mesmo quase resvalando no drama fácil, se sobressai em sua delicadeza e sinceridade para lidar com tema, mesmo se entregando ao realismo fantástico.


Sem pressa em seu epílogo, emociona ao tratar das escolhas envolvidas que atormentam Miguel, como família e as regras morais do conservadorismo e da religião. E diante das escolhas a serem tomadas, as chances de acarretar consequências são, inevitavelmente e praticamente, certas.

 

A curta, porém expressiva filmografia do diretor francês Christophe Honoré, que inclui filmes como Em Paris (2006), Canções de Amor (2007), A Bela Junie (2008) e Não, Minha Filha, Você Não Irá Dançar (2009), recebe Homme Au Bain (idem, França, 2010), um dos mais recentes filmes do cineasta.

Comparando com o diretor norte-americano John Cameron Mitchell, que ousou em seus primeiros filmes, tratando de sexo – e homossexualidade – abertamente até desencadear no drama Reencontrando a Felicidade, que mostra as dificuldades de um casal em superar a morte do filho, Honoré deixou de lado o formato mais convencional e decolou na temática sexual com afinco.


Em Homme Au Bain, acompanhamos a curta separação de um casal em crise, Omar (Omar Ben Sellem) e Emmanuel (o astro do pornô gay François Sagat). Quando Omar decide viajar para os EUA, Emmanuel se embrenha em um universo de sexo e, ao mesmo tempo, solidão, que permeia todo o filme.

Emmanuel, que exibe seu corpo torneado durante quase todo o filme, sente-se desprezado e busca todo o tempo resgatar o desejo que provoca nos homens e nas mulheres. Então, dentro do apartamento de Omar, ele vai se envolver com os mais diversos personagens para suprir sua carência de sexo e amor, desde sexo a três até a chegada de uma bela atriz (Chiara Mastroianni, filha dos lendários atores Marcello Mastroianni e Catherine Deneuve).


Entre os jogos sexuais praticados por Emmanuel, o personagem, por meio de flashes, revisita os momentos com Omar, inclusive representando com outros amantes os momentos passados com ele. E nessa retrospectiva não linear do romance dos dois, as divagações vão tomando forma através de movimentos bruscos de câmera na mão, planos experimentais e tentativa de preencher, através do sexo, o vazio que lhe atormenta.

Ao mesmo tempo vamos acompanhando, também, o envolvimento de Omar com um jovem em Nova York, na qual Honoré, sem julgamentos, trata do sexo livre em um filme com chances de se tornar cult entre os jovens da atualidade, que podem se identificar com a temática como-somos-ou-não-somos-desejados.

Com realistas cenas de sexo – incluindo uma de sexo oral explícito – Homme Au Bain traz personagens por ora desequilibrados, transitando entre o delicado e o lascivo, o ódio e o amor, em que a sexualidade (e não necessariamente sensualidade) é constante, mostrando que somos tomados, a todo o tempo, por nossos desejos; sejam eles carnais ou sentimentais.