Com uma diversificada carreira como ator, diretor e produtor, Clint Eastwood já percorreu os mais diversos gêneros com competência: o faroeste (Os Imperdoáveis), o romance (As Pontes de Madison), o suspense (Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal), a política (Poder Absoluto)e o drama (Menina de Ouro), só para citar alguns.

Porém, desta vez, Eastwood quis enveredar por outro caminho: a espiritualidade. O resultado, a meu ver, não supriu as expectativas. Para um tema polêmico e controverso, em Além da Vida (Hereafter, EUA, 2010) o cineasta fugiu de certas discussões, como a religião e a fé. Ateve-se a mostrar três personagens envoltos em experiências com a morte: perder um ente querido, comunicar-se com os mortos e estar na tênue linha que a separa da vida.


Com um prólogo impressionante, Além da Vida nos coloca dentro de um violento tsunami que atinge uma turista francesa em férias. Após essa experiência de quase-morte (EQM), a apresentadora de TV Marie (Cécile De France) começa a se questionar sobre o que viu e sentiu após quase morrer durante a viagem. Nesse ínterim, acompanhamos a rotina do médium norte-americano George (Matt Damon) que, renomeado e bem sucedido em sua capacidade de comunicar-se com os mortos, decidiu abandonar a carreira e viver um vida “normal”. Longe dali, em Londres, seguimos a vida da família de Marcus (George McLaren) que terá de lidar com a morte enquanto separa-se da mãe (Lyndsey Marshal), uma viciada em heroína que pode perder a guarda do filho.

Com um ritmo lento que pode cansar certas pessoas, Além da Vida é uma obra menor de Eastwood, sem dúvidas, mas tem seus méritos. Apresentando cada personagem em seus dilemas e conflitos, temos Marie tentando superar e entender seu trauma após o tsunami, o pequeno Marcus tentando lidar com a morte e a solidão e George, fugindo de seu dom (ou “maldição”, como alega o personagem) para levar uma vida “normal”.


O roteiro (escrito por Peter Morgan, de Frost/Nixon,  A Rainha e  O Último Rei da Escócia) traz certas falhas, como a personagem de Bryce Dallas Howard, que não é concluída ou o epílogo que deixa a desejar mas, mesmo assim, pode atrair os fãs do gênero, tão explorado no Brasil por conta do centenário de nascimento do médium Chico Xavier, completado em 2010 e que ofereceu ao público um leque de filmes sobre espiritualidade.

Tratando de como o ser humano lida com a morte, Eastwood traz esse desconforto e dificuldade na qual, além das pendências a serem resolvidas, mostra como segue a vida dos que ficam. Da incredulidade ao charlatanismo, da superação (ou não) à compreensão (ou não) da questão da vida pós-morte, o diretor oferece o lado mais íntimo dos personagens, focando na natureza do ser humano, único animal que já nasce sabendo que vai morrer.


Eastwood, que está em produção com o filme que vai contar a história de J. Edgar Hoover, o polêmico homem que dirigiu o FBI por quase cinco décadas, ainda é um cineasta de atores, que se dedica a construir seus personagens. Aqui o resultado fica abaixo da média, com uma demora para chegarmos, finalmente, ao esperado encontro dos três, onde a coisa deveria degringolar mas, quando se encontram, culmina de forma insatisfatória, ou seja, fria e deveras distante.

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