0, 23 \23\UTC maio \23\UTC 2011


Com uma diversificada carreira como ator, diretor e produtor, Clint Eastwood já percorreu os mais diversos gêneros com competência: o faroeste (Os Imperdoáveis), o romance (As Pontes de Madison), o suspense (Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal), a política (Poder Absoluto)e o drama (Menina de Ouro), só para citar alguns.

Porém, desta vez, Eastwood quis enveredar por outro caminho: a espiritualidade. O resultado, a meu ver, não supriu as expectativas. Para um tema polêmico e controverso, em Além da Vida (Hereafter, EUA, 2010) o cineasta fugiu de certas discussões, como a religião e a fé. Ateve-se a mostrar três personagens envoltos em experiências com a morte: perder um ente querido, comunicar-se com os mortos e estar na tênue linha que a separa da vida.


Com um prólogo impressionante, Além da Vida nos coloca dentro de um violento tsunami que atinge uma turista francesa em férias. Após essa experiência de quase-morte (EQM), a apresentadora de TV Marie (Cécile De France) começa a se questionar sobre o que viu e sentiu após quase morrer durante a viagem. Nesse ínterim, acompanhamos a rotina do médium norte-americano George (Matt Damon) que, renomeado e bem sucedido em sua capacidade de comunicar-se com os mortos, decidiu abandonar a carreira e viver um vida “normal”. Longe dali, em Londres, seguimos a vida da família de Marcus (George McLaren) que terá de lidar com a morte enquanto separa-se da mãe (Lyndsey Marshal), uma viciada em heroína que pode perder a guarda do filho.

Com um ritmo lento que pode cansar certas pessoas, Além da Vida é uma obra menor de Eastwood, sem dúvidas, mas tem seus méritos. Apresentando cada personagem em seus dilemas e conflitos, temos Marie tentando superar e entender seu trauma após o tsunami, o pequeno Marcus tentando lidar com a morte e a solidão e George, fugindo de seu dom (ou “maldição”, como alega o personagem) para levar uma vida “normal”.


O roteiro (escrito por Peter Morgan, de Frost/Nixon,  A Rainha e  O Último Rei da Escócia) traz certas falhas, como a personagem de Bryce Dallas Howard, que não é concluída ou o epílogo que deixa a desejar mas, mesmo assim, pode atrair os fãs do gênero, tão explorado no Brasil por conta do centenário de nascimento do médium Chico Xavier, completado em 2010 e que ofereceu ao público um leque de filmes sobre espiritualidade.

Tratando de como o ser humano lida com a morte, Eastwood traz esse desconforto e dificuldade na qual, além das pendências a serem resolvidas, mostra como segue a vida dos que ficam. Da incredulidade ao charlatanismo, da superação (ou não) à compreensão (ou não) da questão da vida pós-morte, o diretor oferece o lado mais íntimo dos personagens, focando na natureza do ser humano, único animal que já nasce sabendo que vai morrer.


Eastwood, que está em produção com o filme que vai contar a história de J. Edgar Hoover, o polêmico homem que dirigiu o FBI por quase cinco décadas, ainda é um cineasta de atores, que se dedica a construir seus personagens. Aqui o resultado fica abaixo da média, com uma demora para chegarmos, finalmente, ao esperado encontro dos três, onde a coisa deveria degringolar mas, quando se encontram, culmina de forma insatisfatória, ou seja, fria e deveras distante.

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Uma história de amor impossível, um galã de Hollywood, uma princesinha dos amantes do Cinema, um vilão cheio de sangue-frio e um circo como pano de fundo:  assim é Água para Elefantes (Water for Elephants, EUA, 2011), longa baseado no romance de Sara Gruen e dirigido por Francis Lawrence (A Lenda, Constantine).

Em flashback, acompanhamos a história de Jacob Jankowski (Hal Holbrook) um idoso que, ao pedir emprego em um circo, relembra uma grande história de amor vivida nos anos 30. Após perder os pais em um acidente de carro, o jovem polonês Jankowski (Robert Pattinson) decide perambular até a cidade em busca de emprego. É quando se depara com um circo itinerante, o Benzini Brothers, comandado pelo severo August (Christopher Waltz, vencedor do Oscar de Coadjuvante por seu papel em Bastardos Inglórios).


Casado com a bela Marlena (Resse Whiterspoon), estrela do seu circo nos números com animais, August vai usar de todo seu poder para não perder sua estrela para Jankowski, quando descobre que eles estão apaixonados.

Água para Elefantes
não inova em questão de roteiro, trazendo a clássica história do homem que abriga um jovem, dá seu voto de confiança e sente-se traído quando ele e a esposa se apaixonam. Porém, curiosa é a forma como Lawrence trabalha o desenrolar da história, desde a aproximação dos amantes com a chegada da elefanta Rosie, nova estrela dos espetáculos com Marlena após a morte do cavalo Silver até a sufocante situação que se desenrola após o romance vir à tona.


Com uma fotografia que tira o máximo da beleza da magia do circo em suas luzes e sombras, o filme mostra os bastidores e conflitos desta família nada tradicional, que viaja de trem em acomodações nada confortáveis (a cena de plano sequência, que mostra os corredores dos vagões com os circenses, é marcante).

A trilha, emocionante, aliada aos belos planos de câmera fazem do circo não só cenário da trama mas, também, grande personagem. Trazendo poesia e saudosismo ao filme, a bela direção de arte revive os anos 30 nos EUA que, mesmo atingido pela Crise de 1929, mantinha seu charme e glamour.


Reese, vencedora do Oscar de Melhor Atriz por Johnny e June, cumpre seu papel, com simpatia e competência, embora não tenha a química necessária com o ainda inexperiente Pattinson que, em seu primeiro papel de destaque depois da saga Crepúsculo, não compromete o filme, embora não seja, nem de longe, o grande trunfo dele. Um ator de maior calibre faria mais por um personagem de personalidade forte e ousada.

Mas, a experiência falou mais alto e Água para Elefantes tem, sem sombras de dúvidas, sua grande estrela em Waltz, que cria um personagem que mistura medo, egocentrismo, descontrole, sede de poder, ironia e que, mesmo quase caindo na caricatura, consegue criar as mais diversas sensações na plateia em um filme que mistura ação, suspense e romance. Não é um filme obrigatório, mas vale a pena ser conferido, especialmente aos fãs da grande arte circense e de uma boa história de amor.