Confesso que não tinha nenhuma curiosidade com relação ao filme O Discurso do Rei (The King´s Speech, Reino Unido, Austrália, EUA, 2010). Eu, que não tinha aquele encanto todo do mundo diante de A Rede Social (filme que ganhava cada vez mais destaque conforme as premiações iam acontecendo), fiquei instigado diante deste filme que começou a roubar os holofotes do Facebook. Mas sempre imaginei que não haveria muito a ser feito diante de um filme sobre um rei gago. Ledo engano meu.


Grande vencedor do Oscar 2011, O Discurso do Rei abocanhou os quatro principais prêmios: Filme, Diretor, Ator (Colin Firth) e Roteiro Original, retratando a história do rei George VI, pai de Elizabeth II, atual rainha do Reino Unido que, sofrendo de gagueira crônica e enfrentou diversas dificuldades por conta disso, especialmente quando da eclosão da Segunda Guerra Mundial.

Dirigido por Tom Hooper, mais conhecido por direção de séries e filmes para a TV, o filme ganha seu primor além da bela direção de arte e fotografia, elementos sempre presentes nas requintadas produções inglesas. E isso se dá, ainda, pelas interpretações de seus atores, dando tanta veracidade a seus personagens que, por alguns momentos, esquecemos que são atuações.

Apoiado pela compreensiva esposa, Elizabeth, a rainha mãe (Helena Bonham-Carter, indicada ao Oscar) o herdeiro Albert (Colin Firth) tem de assumir o trono após a renúncia do irmão Edward VIII (Guy Pearce), que abdicou do trono pelo amor a uma mulher divorciada, um escândalo para a época.

Assim, com a ascensão do rádio nos anos 30 e 40, Albert, já como rei George VI, precisa superar sua gagueira para dar voz à sua nação. Para isso, aceita ser tratado por Lionel Logue (Geoffrey Rush, outro indicado ao Oscar), um ator frustrado, fã de Shakespeare e especialista em discursos, que possuía métodos nada ortodoxos para trabalhos com a fala. E nessa necessidade milenar de comunicação dos seres humanos, Lionel será a peça-chave para trabalhar com os traumas de George.

Nesta controversa terapia, Lionel e o futuro rei vão passar pelos mais diversos conflitos e exposição de seus medos e dramas para mudar a história de um país que caiu no meio da Segunda Guerra. Lionel tira todas as formalidades e trata o rei como um homem comum, colocando-o em pequenos discursos, para que o medo de falar em público se torne, ao menos, suportável. E, claro, uma grande amizade se firma e perdurará durante toda a vida.

Com um trio de atores de causar encantamento e empatia em seu público, o encanto diante de Firth, Carter e Rush é inevitável. Carter, como a doce e paciente esposa, é o porto seguro de um rei perdido em si mesmo, vulnerável e que precisa parecer confiante e forte diante de toda a realeza e sociedade britânica. Rush, sempre uma escolha segura, traz mais um personagem inesquecível em sua filmografia, depois de personagens como o ousado Marquês de Sade, o medonho Barbossa da série Piratas do Caribe ou o pianista David Helfgott, que lhe rendeu o Oscar de Ator na cinebiografia Shine – Brilhante (1996). Mas o filme é mesmo de Firth que, depois de sua indicação em 2010 por Direito de Amar, no papel de um professor homossexual nos anos 50, teve sua grande chance e abocanhou a estatueta dourada pela interpretação.


Criando um personagem único, que usa das expressões faciais e da dificuldade da fala para mostrar um homem traumatizado de diversas formas (problemas de saúde, a morte de um dos irmãos aos 13 anos e a “deficiência” de ser canhoto), Firth não deixa seu personagem cair na mesmice mesmo nas cenas mais dramáticas.

Com ótimo roteiro e ritmo que dão veracidade a uma história aparentemente morna, O Discurso do Rei traz cenas memoráveis, como a abertura em que, diante de um enorme público, Albert gagueja em extensos ecos do microfone, a hilária cena em que explode nos mais diversos palavrões durante sessão com Lionel ou, em uma das mais irônicas, assiste a uma gravação de discurso de Hitler, invejando a eloquência do ditador alemão.

Mas nada como a mais emblemática cena do filme em que, com o país sem saída, George precisa fazer o discurso oficial da entrada do Reino Unido na Guerra. No corredor que leva à sala com o microfone, Firth traz uma expressão apreensiva tão visceral e real que o público do lado de cá da tela agradece e torce junto.

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