março 2011


Talvez a cena mais marcante de Reencontrando a Felicidade (Rabbit Hole, EUA, 2010) seja quando Becca (Nicole Kidman), para o carro próximo à casa de Jason (Miles Teller), o jovem de 17 anos que atropelou e matou seu filho Danny (Phoenix List), de apenas 4 anos. A alegria do rapaz, que está com amigos, se divertindo e prestes a ir pro baile de formatura do colégio, contrasta com a atitude de Becca, que se desfalece em lágrimas ao volante.

O ator, diretor e roteirista John Cameron Mitchell (Shortbus, Hedwig – Rock, Amor e Traição) deixa o rock’n roll e o sexo de lado, tão presentes em suas outras obras, para assumir as rédeas de uma história baseada na premiada peça homônima de David Lindsay-Abaire, vencedora dos prêmios Tony e Pulitzer. O filme acompanha a rotina de um casal de classe média alta oito meses após a morte do filho único do casal e como cada um lida de forma diferenciada com sua dor.


Outras obras já haviam tratado a morte de um filho de forma dramática, porém respeitosa, como o italiano O Quarto do Filho e o americano Entre Quatro Paredes (ambos de 2001), além do angustiante A Escolha de Sofia (1982), que deu o segundo Oscar da carreira a Meryl Streep. E Reencontrando a Felicidade não foge de sua proposta.

Acompanhamos o dia a dia de Becca e seu marido Howie (Aaron Eckhart) que, ainda sem poderem lidar com a morte do filho, evitam amigos e se refugiam dentro de casa para evitar qualquer tipo de contato. Decidem, então, participar de um grupo com outros pais para conversarem sobre o assunto, mas Becca, atéia, decide abandonar a terapia. Howie permanece e se torna próximo a Gaby (a sempre interessante Sandra Oh). Nesse meio tempo, Becca se aproxima da mãe Nat (Dianne Wiest) e do jovem que atropelou o próprio filho.

Com situações que não caem no lugar comum, Reencontrando a Felicidade traz um clima melancólico intrínseco, com bela fotografia e trilha que cai como uma luva para os momentos de contemplação, sempre tão constantes no longa. Assim, Howie vai descobrindo em outra pessoa a chance de conversar e fugir da realidade que tanto atormenta o casal, enquanto Becca se aproxima, ainda, da irmã caçula Izzy (Tammy Blanchard), que descobre-se grávida.

É impressionante a interpretação de Nicole Kidman que, indicada ao Oscar pelo papel, traz toda a densidade que a situação exige de sua personagem, desde o sofrimento nas cenas mais dramáticas até os momentos em que, fugindo da realidade, mostra-se estática ou realizando tarefas que, à primeira vista, parecem não fazer sentido.

Assim, a partir da proximidade com a mãe (que também perdeu um filho e ajuda a filha a enfrentar a situação), o mote principal do filme é o convívio dela com Jason. Ele, que escreve uma história em quadrinhos (intitulada Rabbit Hole, título original do filme), inesperadamente, também ajudará Becca a superar a dor da perda do filho. Da doação de roupas e brinquedos até aprender a lidar com situação em que mães e filhos cruzam seu caminho, ela vai ter de enfrentar os conflitos com o marido e com a mãe, em mágoas guardadas em família por anos.

E Reencontrando a Felicidade consegue emocionar sem abusar da figura do menino Danny, que somente aparece em uma cena e em imagens de fotografias (às quais o diretor não se prende). Ele ganha vida através de outras referências, como a casa, o cachorro da família, os desenhos que fez, o quarto e os brinquedos, só para citar alguns.

E o diretor Mitchell, com uma direção segura e apoiado pelo ótimo roteiro (adaptados pelo próprio autor, mantendo o aspecto teatral de diálogos curtos e objetivos), sentimos a empatia necessária de personagens que dizem tanto em alguns momentos de puro silêncio e somos aliviados pelos fragmentos de felicidade que vão emergindo no decorrer do filme. E não tem como sentir alívio por aquele casal em busca de si mesmo quando perdem o que mais os unia.

E tudo isso me faz lembrar de uma passagem marcante em um episódio da série de TV Six Feet Under. Ao saber que um casal havia perdido um filho, uma das personagens diz: “Quem perde o marido ou esposa, fica viúvo. Quem perde o pai ou a mãe, fica órfão. E quem perde um filho? É uma dor tão grande que nem possui um nome”.

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Confesso que não tinha nenhuma curiosidade com relação ao filme O Discurso do Rei (The King´s Speech, Reino Unido, Austrália, EUA, 2010). Eu, que não tinha aquele encanto todo do mundo diante de A Rede Social (filme que ganhava cada vez mais destaque conforme as premiações iam acontecendo), fiquei instigado diante deste filme que começou a roubar os holofotes do Facebook. Mas sempre imaginei que não haveria muito a ser feito diante de um filme sobre um rei gago. Ledo engano meu.


Grande vencedor do Oscar 2011, O Discurso do Rei abocanhou os quatro principais prêmios: Filme, Diretor, Ator (Colin Firth) e Roteiro Original, retratando a história do rei George VI, pai de Elizabeth II, atual rainha do Reino Unido que, sofrendo de gagueira crônica e enfrentou diversas dificuldades por conta disso, especialmente quando da eclosão da Segunda Guerra Mundial.

Dirigido por Tom Hooper, mais conhecido por direção de séries e filmes para a TV, o filme ganha seu primor além da bela direção de arte e fotografia, elementos sempre presentes nas requintadas produções inglesas. E isso se dá, ainda, pelas interpretações de seus atores, dando tanta veracidade a seus personagens que, por alguns momentos, esquecemos que são atuações.

Apoiado pela compreensiva esposa, Elizabeth, a rainha mãe (Helena Bonham-Carter, indicada ao Oscar) o herdeiro Albert (Colin Firth) tem de assumir o trono após a renúncia do irmão Edward VIII (Guy Pearce), que abdicou do trono pelo amor a uma mulher divorciada, um escândalo para a época.

Assim, com a ascensão do rádio nos anos 30 e 40, Albert, já como rei George VI, precisa superar sua gagueira para dar voz à sua nação. Para isso, aceita ser tratado por Lionel Logue (Geoffrey Rush, outro indicado ao Oscar), um ator frustrado, fã de Shakespeare e especialista em discursos, que possuía métodos nada ortodoxos para trabalhos com a fala. E nessa necessidade milenar de comunicação dos seres humanos, Lionel será a peça-chave para trabalhar com os traumas de George.

Nesta controversa terapia, Lionel e o futuro rei vão passar pelos mais diversos conflitos e exposição de seus medos e dramas para mudar a história de um país que caiu no meio da Segunda Guerra. Lionel tira todas as formalidades e trata o rei como um homem comum, colocando-o em pequenos discursos, para que o medo de falar em público se torne, ao menos, suportável. E, claro, uma grande amizade se firma e perdurará durante toda a vida.

Com um trio de atores de causar encantamento e empatia em seu público, o encanto diante de Firth, Carter e Rush é inevitável. Carter, como a doce e paciente esposa, é o porto seguro de um rei perdido em si mesmo, vulnerável e que precisa parecer confiante e forte diante de toda a realeza e sociedade britânica. Rush, sempre uma escolha segura, traz mais um personagem inesquecível em sua filmografia, depois de personagens como o ousado Marquês de Sade, o medonho Barbossa da série Piratas do Caribe ou o pianista David Helfgott, que lhe rendeu o Oscar de Ator na cinebiografia Shine – Brilhante (1996). Mas o filme é mesmo de Firth que, depois de sua indicação em 2010 por Direito de Amar, no papel de um professor homossexual nos anos 50, teve sua grande chance e abocanhou a estatueta dourada pela interpretação.


Criando um personagem único, que usa das expressões faciais e da dificuldade da fala para mostrar um homem traumatizado de diversas formas (problemas de saúde, a morte de um dos irmãos aos 13 anos e a “deficiência” de ser canhoto), Firth não deixa seu personagem cair na mesmice mesmo nas cenas mais dramáticas.

Com ótimo roteiro e ritmo que dão veracidade a uma história aparentemente morna, O Discurso do Rei traz cenas memoráveis, como a abertura em que, diante de um enorme público, Albert gagueja em extensos ecos do microfone, a hilária cena em que explode nos mais diversos palavrões durante sessão com Lionel ou, em uma das mais irônicas, assiste a uma gravação de discurso de Hitler, invejando a eloquência do ditador alemão.

Mas nada como a mais emblemática cena do filme em que, com o país sem saída, George precisa fazer o discurso oficial da entrada do Reino Unido na Guerra. No corredor que leva à sala com o microfone, Firth traz uma expressão apreensiva tão visceral e real que o público do lado de cá da tela agradece e torce junto.

Mais um dos filmes que fez bonito no Oscar 2011, O Vencedor (The Fighter, EUA, 2010) tem grandes méritos. Não chega a ser um Touro Indomável (1980) ou um Menina de Ouro (2004), mas é um bom filme sobre boxe que merece ser descoberto.

Inspirado na história real da dupla de irmãos boxeadores Micky Ward (Mark Wahlberg) e Dick Eglund (Christian Bale), o filme mostra a vida dos irmãos envolvidos no boxe e a relação com a mãe, Alice (Melissa Leo). Quando Micky se torna uma grande promessa do esporte, seu irmão, um viciado em crack e a mãe, uma perua suburbana, decidem tomar conta da carreira do lutador.


Dirigido por David O. Russel (Três Reis, Huckabees – A Vida é Uma Comédia), o filme traz um lado sujo dos personagens, todos despidos de suas vaidades para mostrar um trio envolvido pelo sonho da fama e do dinheiro envoltos pelo boxe. Dick, o irmão mais velho e vivendo do ostracismo, projeta no irmão Micky sua chance de brilhar fora de seu submundo das drogas. A mãe, que perdeu no primeiro filho a chance do sucesso, além das outras sete filhas frustradas e manipuladoras, vê no caçula Micky a oportunidade de sair da miséria.

Quando Micky se envolve com a garçonete Charlene (Amy Adams), a jovem vê a pressão diante do namorado como um empecilho para seu sucesso, criando uma guerra entre a desestruturada família. Porém, o grande drama do filme decai sobre Dick, interpretado com maestria por Christian Bale (Oscar de Ator), em uma atuação espantosa, misturando ironia, tiques nervosos e a aparência cadavérica provocada pelo uso do crack.

Melissa Leo, que interpreta a mãe Alice, abocanhou a estatueta dourada de Melhor Atriz Coadjuvante (ganhando da colega de elenco Amy Adams, também indicada), traz uma personagem complexa que causa certa ojeriza e pena, mas que cativa o público. Com relação a isso, Russel tem seu grande mérito, obviamente. Não apenas por arrancar interpretações excelentes de seus atores, mas por dar um ritmo e naturalidade à história, com bons diálogos e personagens no limite de suas emoções.

Isso se dá, também, em Micky (interpretado corretamente por Wahlberg), que mistura masculinidade, serenidade e doçura, ao mesmo tempo em que é pressionado por todos os lados, como família, namorada, treinadores, empresários, adversários e até por si mesmo. E nesse redemoinho de emoções, acompanhamos uma família unida e destruída pelo boxe, que se tornou sua própria salvação e maldição.

Filmes de fuga sempre fizeram parte da história do Cinema, com títulos como Papillon (1973) com Dustin Hoffman e Steve McQueen ou Um Sonho de Liberdade (1994), com Tim Robbins e Morgan Freeman. Bons exemplos de personagens que não se renderam e buscaram sua liberdade a todo o curso. Eis que, em 2011, outro exemplo desta safra chega aos cinemas brasileiros (com estreia prevista para em 13 de maio).

Caminho para a Liberdade (The Way Back, EUA, 2010), baseado no romance The Long Walk: The True Story of a Trek to Freedom, escrito por Slavomir Rawicz, contou com a direção e roteiro adaptado de Peter Weir (Sociedade dos Poetas Mortos, O Show de Truman). Em 1940, durante a Primeira Guerra Mundial, um grupo de homens decide fugir de um Gulag Soviético, local onde aqueles contrários ao regime de do ditador Joseph Stalin eram mantidos como prisioneiros e condenados por espionagem.


Na gélida Sibéria, o grupo, comandado pelo jovem Janusz (Jim Sturgess) e pelo experiente Mister Smith (Ed Harris), partem na companhia de outros prisioneiros, incluindo o sádico e temperamental criminoso Valka (Colin Farrel, ótimo). Passando por situações extremas de frio, fome, sede e cansaço, o grupo decide ir, a pé, até a Mongólia. Porém, as situações extremas do clima (com frio capaz de cegar e matar em poucos minutos), vão fazendo com que o contingente de fugitivos vá diminuindo no decorrer do trajeto.

A grande sacada de Caminho para a Liberdade não é discutir política, traçando um perfil do mundo nos anos 40, onde Hitler e Stálin puseram fim a milhões de vidas na Grande Guerra mas, sim, colocar esses personagens, tão distintos e conflitantes em busca de um mesmo objetivo: a liberdade. E com personagens bem trabalhados, onde nenhum ali é um mero coadjuvante, Weir uniu um grupo de atores que misturam talento e carisma, criando uma empatia invejável com o público.


Afinal, é esperada a proximidade que se cria com o reservado Mr. Smith (Harris), com a bondade do jovem Janusz (Sturgess), não rir com a ironia e sarcasmo do extremista Valka (Farrel). Além disso, somam-se a eles o doce Kazik (Sebastian Urzendowsky) e sua cegueira não assumida além do poético desenhista Tomasz (Alexandru Potocean), que são obrigados a conviver com suas diferenças para seguirem diante de um objetivo em comum.

Porém, quando chegam à Mongólia, descobrem o país aliado a Stalin e o plano precisa ser estendido, com uma ida desumana até a Índia, somando mais de 6500 quilômetros percorridos a pé em mais de um ano, passando pelo inóspito Himalaia. No meio do caminho, surge a corajosa e doce Irena (Saoirse Ronan, que ficou famosa pelo papel da jovem Briony em Desejo e Reparação), que será o contraponto feminino naquele grupo de homens e fará com que os personagens se aproximem e exorcizem seus demônios internos.


Com ritmo e uma direção segura, acompanhamos esses personagens em situações extremas capazes de causar a perda de sanidade, fazendo com que o homem volte ao seu instinto animal, primitivo, no limite psicológico e físico, inclusive pela deterioração corporal (que deu ao filme a indicação ao Oscar de Fotografia), observamos um grupo que atingiu seu máximo com um único objetivo: sobreviver.

Para quem decide assistir ao filme 127 Horas (127 Hours, EUA e Ing, 2010), uma irônica cena pode causar um riso nervoso quando, com duas moças desconhecidas em uma fenda no inóspito Blue John Canyon, Aron Ralston (James Franco) diz que “tudo na natureza se move”, mas “espera que naquele dia isso não aconteça”. É a primeira das peças que o premiado diretor Danny Boyle (Cova Rasa, Trainspotting, Quem Quer Ser Um Milionário?) nos dará durante o filme.

Baseado em uma história real, acompanhamos o engenheiro Ralston, um aventureiro incurável que adora conhecer lugares inóspitos e aproveitar ao máximo o contato com a natureza. Porém, sem nunca dar satisfações de suas viagens, ele se embrenha no Blue John, grande cadeia montanhosa dos EUA em uma tarde de abril de 2003. Começava ali um pesadelo que duraria pouco mais de cinco dias.


Escrito pelo próprio Ralston, o livro Between a Rock and a Hard Place foi a base para criar 127 Horas, que acompanha sua incessante luta pela sobrevivência quando, em uma profunda fenda rochosa, ele se vê com uma enorme pedra caída em cima de sua mão. Isolado, sem comunicação com o resto do mundo, sem comida e com poucos mililitros de água, seu desespero torna-se o desespero de quem assiste a tudo do lado de cá da tela.

Conseguir carregar um filme sozinho nas costas é mérito de poucos atores, como Tom Hanks o fez em Náufrago, por exemplo. E Franco, um ator da nova safra de Hollywood, que foi firmando sua carreira a passos curtos – e com alguns deslizes – consegue exalar todo o drama que a situação exige. Claro que isso tudo com a direção sempre segura de Boyle, que com seus planos curtos e cortes secos, cria um ritmo frenético aliado sempre a uma trilha que casa perfeitamente com as situações.


O bom roteiro se desenrola com Franco expondo suas situações diante da sua câmera portátil, alternando entre ironias, divagações e declarações de quem sente que estaria diante dos últimos momentos antes da morte. E essa tensão deixa o espectador apreensivo, criando uma expectativa constante, ainda mais pelos truques que Boyle prega no público.


Com medo de não enlouquecer, Ralston tenta manter a sanidade e improvisa das mais diversas maneiras para manter-se vivo. Frio, areia, chuva, fome, sede e calor vão se misturando a lembranças e devaneios de o que estaria acontecendo naquele momento em que ele está ali.

Emocionante sem ser piegas, 127 Horas foi indicado a seis Oscars (incluindo Filme, Roteiro Adaptado e Ator) e foi capaz de retratar a fundo a mente de um homem que chegou ao limite em sua luta pela sobrevivência. Angustiante e chocante, porém indispensável.