Em um de seus mais aclamados romances, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, a escritora Clarice Lispector declara: “Falar no que realmente importa é considerado uma gafe”. De fato, quem se atreveu a expor os maiores segredos da alma humana, sempre teve sua figura associada à perversidade, obscenidade e sofreu perseguições. Na década de 50, umas dessas figuras foi o poeta beatnik Allen Ginsberg.

Com roteiro e direção da dupla Rob Epstein e Jeffrey Friedman (do ótimo documentário The Cellulloid Closet e que estão no projeto Lovelace, que vai contar a história da lenda do pornô Linda Lovelace), Howl traz o ator James Franco no papel principal, encarnando com carisma, sensualidade e veracidade o escritor, que sofreu com a publicação de sua obra Howl and Other Poems (Uivo e Outros Poemas, em tradução literal).


O filme mostra os três mais relevantes períodos de Ginsberg: o desenvolvimento do livro em 1955, a sua publicação em 1956 e o processo judicial que sofreu em 1957. Com fotografias que diferenciam os períodos – como o uso do preto e branco que retrata a criação do livro e sua vida pessoal – Howl mostra a efervescência da Geração Beat, que modificou para sempre a literatura nos EUA e no mundo desde então. Com nomes como Jack Kerouac (Todd Rotondi) que foi a fonte de inspiração de Ginsberg para escrever a obra; Neal Cassady (Jon Prescott) um dos amores frustrados do escritor; e Lawrence Ferllinghetti (Andrew Rogers), também editor do livro de Ginsberg, Howl se firma como uma biografia de respeito e sucinta.


Com uma belíssima trilha, repleta de jazz gritante e um ritmo capaz de prender a atenção do público, acompanhamos os amores de Ginsberg (um homossexual sempre em conflito com sua orientação), a influência de seu pai alcoólatra e mãe, que sofria de distúrbios psicológicos, em sua literatura é citada, porém sua maior influência foram os amores frustrados (Ginsberg frequentemente se apaixonava por homens heterossexuais) e a sua constante observação do mundo e dos dilemas da alma humana. Cita, ainda, a relação amorosa com o também poeta Peter Orlovsky (Aaron Tveit), que durou de mais de trinta anos e permaneceu amistosa até a morte de Ginsberg em 1987.

Com textos polêmicos, que falavam de racismo, filosofia, surrealismo, política, sexo, suicídio e tudo mais que sua mente fervilhante permitisse, Ginsberg falava em voz alta o que a ala conservadora relutava em assumir. Por conta disso, o risco de transparecer a hipocrisia da sociedade pós Segunda Guerra Mundial fez com que fosse considerado um não-literato, traçando um paralelo entre ele e Walt Whitman, grande poeta norte-americano e considerado o pai do verso livre, que fugia do academicismo e se tornou um dos precursores da poesia moderna com a obra Leave of Grass.


Em Howl, acompanhamos por menos de uma hora e meia a vida de Ginsberg, condensada de forma competente e capaz de prender a atenção até em um contexto difícil de prender  a atenção de boa parte dos espectadores: cenas de tribunal. Porém, é ali, também, que se discute o conceito de Arte. E, diferente de algumas tantas biografias de escritores, Franco lê trechos da obra que são complementados com animações – ora psicodélicas, surreais, etéreas, violentas – localizando o público ainda não apresentado à sua obra.

Defendido pelo advogado Jake Ehrlich (Jon Hamm) e acusado por Ralph McIntosh (David Strathairn), acompanhamos o parecer dos que condenam Ginsberg, como Gail Potter (Mary-Louise Parker) e o professor David Kirk (Jeff Daniels) e aqueles que o defendem, como o professor Mark Schover (Treat Williams) e o crítico literário Luther Nichols (Alessandro Nivola). Mentes que conflitavam diante de Ginsberg, um homem que via a humanidade como ela era – e ainda é, talvez em menor grau – e não tinha medo de assumir essa nossa mistura de miséria aliada aos mais profundos desígnios da alma.

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