O diretor norte-americano Darren Aronofsky nunca fez um filme simples. Um daqueles diretores que incomodam com seus longas, nos ofereceu o complexo Pi (1998), chocou o público com o realista drama sobre drogas Réquiem para um Sonho (2000) e misturou reencarnação, carma, filosofia e amor no interessante A Fonte da Vida (2006), só para citar alguns. Entretanto, o diretor se supera com sua obra mais ousada, Cisne Negro (2010), com estreia prevista para 4 de fevereiro no Brasil.

Na trama, a doce Nina (Natalie Portman) é uma grande bailarina de uma companhia de dança que se prepara para uma nova produção do clássico O Lago dos Cisnes. Auxiliada pelo exigente professor Thomas Leroy (Vincent Cassel), ela se esforça para ser a estrela principal do espetáculo. Na clássica história, uma jovem presa no corpo de um cisne, precisa encontrar seu grande amor para se livrar da maldição. Porém, quando o seu príncipe está prestes a declarar seus sentimentos, o malvado cisne negro o seduz, provocando o ciúme, desolação e suicídio do cisne branco.


Nina, que anseia pelo papel principal (em que interpretaria tanto o cisne branco como o cisne negro), terá de disputar a atenção de Leroy com Lily (Mila Kunis), uma ousada e sexy bailarina da companhia. Porém, diversos acontecimentos farão com que Nina perceba que a busca pelo papel pode lhe custar muito, inclusive a sanidade e a própria identidade.

Considerado um dos melhores filmes de 2010, o filme foi indicado em quatro categorias no Globo de Ouro 2011 (apenas Natalie levou como Melhor Atriz de Filme Dramático) e está garantido com algumas indicações no Oscar. Kunis, que começou a carreira na série de comédia That 70´s Show e conseguiu fugir do estigma de sua personagem, levando pra casa o prêmio Marcello Mastroianni no Festival de Veneza. Não é para menos: Aronofsky conseguiu dar tensão e suspense em uma obra prima que trata dos bastidores do dança clássica com veracidade e respeito merecidos.


Com cenas de dança muito bem coreografadas, misturando beleza e terror na medida certa, Cisne Negro tem uma condução primorosa, com ótimo uso de luz e sombras, sempre acompanhada da música clássica como fundo incidental. Na personagem da doce Nina, os mistérios que a rondam passeiam pelos campos do surrealismo, dos sonhos e do mais profundo do seu inconsciente. Porém, o que poderia cair como situações piegas, ganham vigor e mistério nas mãos de Aronofsky.

Com participação de Winona Ryder, que interpreta Beth, uma bailarina veterana que tem de se afastar após anos de balé, o filme ganha força mesmo na dupla Natalie Portman e Mila Kunis. Enquanto Natalie entra com a pureza e sensibilidade, Kunis é o lado libertino e livre, como se cisne branco e negro duelassem em sua disputa pela perfeição diante de Leroy, que enxerga nas duas o grande papel da Rainha dos Cisnes. E para alcançar isso, a inveja, ambição e dedicação serão três elementos constantes, que prenderão a atenção do espectador durante todo o longa.

É perigoso falar de Cisne Negro, pois eu poderia estragar o grande trunfo, que é seu mistério constante. Assim, me atenho a citar a interpretação impecável de Natalie (bailarina clássica e que dança em todo o longa). No auge da beleza e talento, o filme é seu, não há dúvida. Aronofsky, ciente disso, faz com que a câmera – em grande parte colocando o público no meio dos bailarinos – seja hipnotizada por Natalie e com que nos apaixonemos por ela em sua constante busca, transformação e/ou encontro de si mesma.

Impossível não falar da sensualidade do filme, que inclui masturbação e uma ousada cena de sexo entre as protagonistas, além das delicadas cenas de dança que são um colírio para os olhos masculinos e femininos. A própria Natalie, entretanto, em entrevista ao programa norte-americano Entertainment Weekly, confessou que a inserção da cena foi feita com intuito de atrair o público. Afinal, “que homem iria ao cinema ver um filme de balé e que mulher iria ao cinema ver um filme de terror?”, declarou a atriz. Para ela, somente uma cena de sexo lésbico resolveria o “problema”.

Polêmicas – seja pela declaração ou cena – à parte, Cisne Negro se sagra, de fato, como um dos grandes filmes a serem lançados em 2011. Da direção segura de Aronofsky, passando pelas duas atrizes no auge da beleza e talento e uma história clássica contada para atrair a atenção do público, que deve lotar os cinemas para repetir a experiência em uma segunda sessão.

Porém, vale lembrar que, antes mesmo da criação de O Lago dos Cisnes (1876), o escritor dinamarquês  Hans Christian Andersen criou, trinta anos antes, a fábula O Patinho Feio. Ali, um patinho rejeitado por todos os outros, cresce e descobre ser, na verdade, o mais belo dos cisnes. Entretanto, nesta busca incessante pela perfeição, uma pequena rachadura pode destruir toda a estrutura que nos sustenta.

 

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