Produzido em 2006, o documentário Os EUA x John Lennon só chegou ao Brasil em 2010. Com direção e roteiro de David Leaf e John Scheinfeld, o longa marcou os 70 anos de nascimento de Lennon e os 30 de sua morte (assim como o lançamento de O Garoto de Liverpool), que estreou no mesmo ano.

Acompanhando a atuação do Beatle durante a Guerra do Vietnã no governo Nixon, o filme traça um panorama bem completo das estratégias que Lennon e Yoko Ono utilizaram para chamar a atenção da mídia e fãs para o massacre da invasão ianque no país dividido entre socialistas e capitalistas. Vemos, já no início, a intervenção de Lennon com relação à prisão de John Sinclair, ativista contra o governo e que ganhou uma canção em seu nome, cantada pelo próprio Lennon em um show realizado em Michigan.


Com agentes do FBI em seu encalço, Lennon e Yoko viviam em constante medo, mas jamais se renderam ao governo americano. Com depoimentos de amigos do casal, ativistas, escritores,  jornalistas, políticos e outras pessoas próximas em meados dos anos 60 até começo de 70, tempo em que duraria o grande conflito entre o presidente norte-americano e o músico inglês. Entre as declarações do conflito Nixon x Lennon, estão testemunhas como os escritores Ron Kovi e Jon Wiener, o ex-prefeito de Nova Iorque Mario Cuomo, os senadores George McGovern e Strom Thurmond,  os ativistas Noam Chomski, Tariq Ali, Angela Davis, Robin Blackburn, Steve Albert, Paul Krassner e David Peel, o ex-agente do FBI Jack Ryan, o ex-assessor da Casa Branca John Dean e os jornalistas Carl Bernstein, Joe Treen e Geraldo Rivera.

Entre as passeatas de jovens furiosos com a guerra e os famosos discursos de Martin Luther King, surge o grupo Panteras Negras que, forte influência na defesa dos negros, tornou-se aliada de Lennon, que já havia se transformado na grande estrela cultural engajada nas causas políticas. Em um vasto arquivo audiovisual de protestos, discursos (tanto de Lennon como de outros ativistas e políticos contrários à guerra) e documentos, Os EUA x John Lennon traz, inclusive, a lua de mel dele com Yoko que, em março deu 1969, se transformou na lendária Hair Peace, Bed Peace, em que os dois ficaram por sete dias na cama, rodeados pela imprensa, como forma de manifestação pacífica pelo fim do conflito no Vietnã.


Grampeados pelo FBI e proibidos de entrar no país, Lennon e Yoko usaram de tudo que podiam para demonstrar sua insatisfação com o sangrento governo de Nixon. Com 50 mil jovens americanos e 4 milhões de vietnamitas mortos no conflito, é emocionante observar quando um milhão de pessoas cantam a emblemática Give Peace a Chance em frente à Casa Branca. Afinal, para Lennon, não era importante o que pensassem dele, mas sim que o ouvissem.

A situação de Nixon, além disso, se complica ainda mais quando decide bombardear o Camboja em 1969, a fim de destruir o Centro de Operações Vietnamita, ligado aos comunistas. Aqueles, ainda defensores da Guerra do Vietnã, voltam-se contra o presidente, especialmente quando quatro universitários são mortos pela Guarda Nacional em manifestações. Lennon, então, escreve Imagine, uma das canções mais simbólicas pelo fim da violência.


Este conflito entre Nixon e Lennon, muito bem conduzido no filme em ritmo e evidências, perdura até 1973, quando o presidente renuncia após o escândalo do caso Watergate e Lennon pode, finalmente, permanecer nos EUA. O filme, porém, evita tocar ainda mais na ferida e ligar o governo norte-americano a David Chapman, assassino do músico. Porém, ainda assim, é um ótimo registro de como o governo usa de suas armas para defender seus interesses. E merece ser conferido.

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