A Rede Social vem sendo considerado o melhor filme de 2011. Já abocanhou quatro National Board of Review (Filme, Diretor, Roteiro e Ator, para Jesse Einsenberg), o que já lhe deu prestígio necessário para ser uma das apostas do Oscar 2011, visto que os vencedores são escolhidos por uma extensa bancada de críticos e historiadores. Foi o gancho para o filme de  David Fincher (O Curioso Caso de Benjamin Button, O Quarto do Pânico, Clube da Luta) ser indicado em seis categorias no Globo de Ouro (Melhor Filme Drama, Diretor, Roteiro, Ator, Ator Coadjuvante e Trilha Sonora Original). E, acreditem, não vai parar por aí.


Pressinto que irei desapontar os fãs mais fervorosos do filme, mas não concordo com tamanha adoração ao longa. Isso se deve a algumas razões que, obviamente, explicarei no decorrer do texto. O filme, que conta – a partir do livro de Ben Mezrich com adaptação de Aaron Sorkin – a polêmica trajetória do Facebook, não é um filme ruim, de fato. Mas, pessoalmente, fica a anos-luz de ser considerado uma obra-prima.

Voltamos no tempo quando, no final de 2003, o estudante nerd da universidade de Harvard, Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg), após levar um fora da namorada, decide usar seu conhecimento desmedido em computadores para criar uma espécie de votação online. O objetivo era hackear as fotos das meninas das fraternidades de Harvard que, de duas em duas, seriam votadas como as “mais gostosas” da renomada instituição. Uma brincadeira que, em apenas duas horas, recebeu 22 mil acessos. Zuckerberg – com a ajuda do melhor amigo Eduardo Saverin (Andrew Garfield) – havia descoberto sua mina de ouro, que recebeu o nome inicial de Facemash.


A partir daí, a notícia se espalha e Zuckerberg passa a ser cobiçado pelos irmãos gêmeos Cameron (Armie Hammer) e Tyler Winklevoss (Josh Pence) que, juntos do sócio Divya Narendra (Max Minghella), pretendem criar a Harvard Connection, uma rede de informações e fotos dos alunos da tradicional universidade. Assim, com a ideia na mão, Zuckerberg começa a desenvolvê-la. O problema é que ele se esquiva dos sócios durante semanas e toma a ideia para si. Quarenta e dois dias depois, ou seja, no começo de 2004, estava criado o Facebook. E também estava no ar um dos maiores conflitos judiciais dos últimos anos.

“Eles tiveram uma ideia, eu tive uma melhor”, alega Zuckerberg durante o processo em que é acusado pelos Winklevoss e Narendra. Ali na mesa está, ainda, Eduardo (ou Wardo, interpretado pelo apático Andrew Garfield), outrora melhor amigo dele, que decide processá-lo por ter sido substituído no cargo por Sean Parker (Justin Timberlake), um dos criadores da Napster, famoso programa de compartilhamento de música na internet. Zuckerberg não perdeu tempo: pegou uma ideia pré-concebida por outrem, usou seu conhecimento para aperfeiçoá-la e se apropriou das mais cabíveis ferramentas (ou contatos, falando em português claro) para expandir o Facebook.


Um grande mérito de A Rede Social é sua bem cuidada edição, que alterna entre o processo judicial e os acontecimentos que levaram a essa disputa. Assim, o espectador acompanha o conflito por uma das mais lucrativas empresas do mundo, hoje estimada em US$ 25 bilhões e com mais de 500 milhões de membros. Com roteiro que, em alguns momentos, chega a ser cansativo e frenético, o que vale mesmo em A Rede Social é a interpretação impecável de Eisenberg, que dá vida ao super-geek Zuckerberg que, de bozinho mesmo, parece não ter quase nada. Com um humor ácido e mordaz, aliado a uma personalidade arrogante, ousada e inteligente, Eisenberg cria um Zuckerberg inesquecível.

No processo, que deu a Eduardo Saverin a quantia de US$ 600 milhões pela co-criação do Facebook, o filme vai costurando essa ambição de Zuckerberg em se destacar de alguma forma diante dos outros para sair do estigma de “completo idiota” e mostra que tais atitudes serviram para que o homem de 500 milhões de “amigos” em sua rede social deixasse um rastro bem profundo de inimigos. Já os irmãos Winklevoss saíram com US$ 65 milhões nos bolsos e um acordo de confidencialidade sobre a empresa. Zuckerberg, por outro lado, perdeu os amigos, ganhou fama de ovelha negra nos negócios e se tornou o mais jovem bilionário do planeta. Já o mundo ficou com isso: um filme opaco e vazio.

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