janeiro 2011


A metalinguagem entre a animação francesa O Mágico (2010) e o longa Meu Tio (1958), também da França, é espantosa. No filme, lançado há 53 anos, escrito, dirigido e interpretado pelo francês Jacques Tati (1907 – 1982), um senhor de meia-idade vai passar uns dias na casa da irmã e do cunhado. Lá, torna-se próximo do sobrinho e tem de passar pelas mais curiosas situações ao lidar com a casa da família, um ambiente repleto das maiores geringonças tecnológicas. É o antigo contrastando com o novo, provocando risos e até um certo desconforto da plateia que assiste atônita. É quase como ver Fred Flinstone visitando os Jetsons.


Pois eis que, quase 29 anos depois da morte de Tati, somos levados a uma animação que beira a perfeição e conta com história – escrita em 1956 – pelo adorável ator francês. Dirigido e com roteiro adaptado por Sylvain Chomet (do ótimo As Bicicletas de Belleville), O Mágico, a meu ver, consegue superar o outro longa de animação de Chomet.

Bem cuidado ao extremo e com um roteiro primoroso, o filme conta a história de um mágico de meia-idade dos anos 50 que, com a ascensão do rock´n roll e da tecnologia (jukebox e televisão, por exemplo), sofre com o ostracismo de suas apresentações. Afinal, praticamente ninguém mais quer assistir às apresentações regadas a coelhos tirados da cartola e objetos que aparecem e desaparecem por debaixo de pequenos lenços nas ágeis mãos dos artistas.


Assim, o personagem passa pelos maiores perrengues para tentar disseminar seu trabalho e não ser esquecido. Da apresentação em uma casa de shows largada às moscas a um trabalho em uma festa, o ilusionista tem de lidar com o desinteresse do público. Durante uma viagem a um pequeno bar na Escócia para uma apresentação, ele conhecerá a jovem Alice, uma garçonete humilde do local. Encantada com os números de mágica do mágico, os dois seguirão juntos em uma jornada que irá mudar suas vidas para sempre.

A animação tradicional em 2D de O Mágico é espetacular, no sentido literal da palavra. Com uma graciosidade e uma riqueza de detalhes impecáveis, o filme preza pela iluminação irretocável, na qual seguimos com os personagens em uma busca para reacender o amor pela arte, esvaído diante da viciante tecnologia. Monsieur Hulot, de Meu Tio, ganha o contorno de ilusionista na animação, com o mesmo jeito reservado e cavalheiro, que tenta mostrar ao mundo que mágicas existem.

O contraponto da beleza e poesia de O Mágico é, justamente, essa melancolia que percorre o filme todo. Com um humor delicado, quase tênue – que pode levar o público a sorrir sem graça, com um sorriso de canto – ora  mordaz, o longa é repleto de gags visuais e muitas informações a cada frame. Sem diálogos, os personagens se restringem a murmurarem algumas frases em inglês e francês, dando ao filme um clima ainda mais denso, com situações extremamente bem calculadas e expressões gestuais e faciais que dizem muito mais que qualquer linha falada.

Com um exagero em seus curiosíssimos personagens coadjuvantes, vamos acompanhando a nostalgia da infância perdida, como o ventriloquista solitário, o palhaço alcoólatra e os acrobatas que, sem circo, adaptaram sua arte aos novos tempos e se tornaram exímios pintores de outdoor. Isso faz com que O Mágico não seja, propriamente, um filme para crianças e sim para aqueles que alcançaram a maturidade e guardam a sensação de uma inocência guardada em algum lugar do tempo.

Nesse exagero proposital, a crítica à cultura pop é implacável, avacalhando uma sociedade européia burra, mesquinha e rica em seu pós Segunda Guerra, onde o glamour dos cabarés parece ter vendado grande parte da sociedade para sua realidade. Na contramão desta epidemia social, temos a doce Alice, uma jovem inocente que vê a mágica não apenas como arte, mas como uma resolução de todos os problemas.

Diante de diversos maus entendidos, o ilusionista se vê em diversas situações que não vão a seu favor. Porém, nesta extração de beleza do que ainda resta de triste na vida, O Mágico encanta por si só. E com uma técnica feita com dedicação e qualidade, traz atmosfera, com a sensação de cheiro, textura, iluminação, quase como se aqueles lugares existissem no mundo real exatamente como são retratados.

Tati sabia do que estava falando ao escrever o roteiro. A época em que o cinema poderia sucumbir com a tecnologia (especialmente a televisão), ele viu que a verdadeira arte poderia entrar em decadência e, infelizmente, ele estava certo. Tratando de temas como caridade, amizade e solidão com profunda nostalgia e encanto, O Mágico – dedicado a Sophie Tatischeff, cineasta e filha de Tati, morta em 2011 – se firma como uma das mais belas animações já feitas. No ano em que Toy Story 3 ganhou todos os holofotes nas premiações, o filme mostra uma vida que segue, com epílogo capaz de dar um vazio àqueles mais emotivos. Enfim, uma obra que usa da poesia para falar da tristeza e vice-versa.

Ir ao cinema para assistir a um filme do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu nunca é uma experiência cômoda. Tocando nas feridas mais profundas, o cineasta foge das situações fáceis capazes de arrancar lágrimas e consegue interpretações excepcionais de seus atores. Depois da intensa trilogia Amores Brutos (2000), 21 Gramas(2003) e Babel (2006), Iñárritu traz o ator espanhol Javie Bardem em uma das mais elogiadas interpretações de 2010, que lhe rendeu o prêmio máximo do cinema em 2010: a Palma de Ouro em Cannes de Melhor Ator.


Em Biutiful, Bardem interpreta Uxbal, um homem que descobre estar com um câncer terminal. Pai de dois filhos, Ana (Hanaa Bouchaib) e Mateo (o ótimo Guillermo Estrella), ele precisa, ainda, lidar com a esposa Maramba (Maricel Álvarez, em atuação excepcional), uma mulher que sofre de transtorno bipolar, um complicado distúrbio psicológico. Para sobreviver e cuidar dos filhos, Uxbal se envolve com a vinda de imigrantes senegaleses e chineses para o México, que lhe trarão dinheiro e problemas de dimensões incalculáveis. Dotado de dons sobrenaturais, Uxbal tem, ainda, a capacidade de se comunicar com os mortos.

Mostrando o lado sujo de Barcelona, na Espanha, Biutiful traz personagens reais, despidos de toda sua vaidade para apresentar uma miséria pessoal e social que incomoda o espectador. Da corrupção envolvendo a polícia à exploração da mão-de-obra dos estrangeiros no país, o longa traz temas como vingança, morte, redenção e superação. E todas as situações envoltas na figura de um pai de família em seu limite, impotente diante da morte e que precisa zelar pelo futuro dos filhos, onde a guarda a ser dada para a perturbada esposa está completamente fora de cogitação.


Com um irmão irresponsável (Tito, papel de Eduard Fernández), seu único porto seguro é a amiga Bea (Ana Wagener), uma mulher que, assim como ele, também tem uma relação próxima com os mortos e será seu porto seguro de desabafo e redenção diante de tudo aquilo que ele está vivendo e escondendo do mundo. E nesse caos físico e psicológico, Uxbal passa por um redemoinho de emoções em seu dia a dia, onde cada minuto parece recair sobre o trágico e o incontrolável.

Diante de seu senso de direção impecável, Iñárritu – que dedica o filme ao pai – traz o degradante , a tragédia e a melancolia caminhando lado a lado com os raros momentos de beleza e felicidade. Com situações repletas de personagens, onde o caos reina em sua maioria, sua direção flui. Não parece colocar o espectador dentro de um filme mas, sim, inseri-lo na situação, onde toda a ficção é palpável, dos espaços mortificantes aos dramas apresentados naquele universo. E diante desta angústia catatônica, observamos Bardem, centro de todos os personagens de Biutiful.


Com um roteiro que conta com participação do próprio diretor e com seu estilo inconfundível de filmar – com direito a câmera na mão, curtos e belos momentos de contemplação e até um bem aproveitado uso do plano sequência – acompanhamos um homem desesperançado diante da vida mas que, em momento algum, sucumbe diante dela. E do lado de cá da tela, sem o drama fácil, sente-se o sofrimento brotar na pele e olhar de suas figuras. E, diante de tão densa trama, o choro pode ficar preso na garganta.

Em um de seus mais aclamados romances, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, a escritora Clarice Lispector declara: “Falar no que realmente importa é considerado uma gafe”. De fato, quem se atreveu a expor os maiores segredos da alma humana, sempre teve sua figura associada à perversidade, obscenidade e sofreu perseguições. Na década de 50, umas dessas figuras foi o poeta beatnik Allen Ginsberg.

Com roteiro e direção da dupla Rob Epstein e Jeffrey Friedman (do ótimo documentário The Cellulloid Closet e que estão no projeto Lovelace, que vai contar a história da lenda do pornô Linda Lovelace), Howl traz o ator James Franco no papel principal, encarnando com carisma, sensualidade e veracidade o escritor, que sofreu com a publicação de sua obra Howl and Other Poems (Uivo e Outros Poemas, em tradução literal).


O filme mostra os três mais relevantes períodos de Ginsberg: o desenvolvimento do livro em 1955, a sua publicação em 1956 e o processo judicial que sofreu em 1957. Com fotografias que diferenciam os períodos – como o uso do preto e branco que retrata a criação do livro e sua vida pessoal – Howl mostra a efervescência da Geração Beat, que modificou para sempre a literatura nos EUA e no mundo desde então. Com nomes como Jack Kerouac (Todd Rotondi) que foi a fonte de inspiração de Ginsberg para escrever a obra; Neal Cassady (Jon Prescott) um dos amores frustrados do escritor; e Lawrence Ferllinghetti (Andrew Rogers), também editor do livro de Ginsberg, Howl se firma como uma biografia de respeito e sucinta.


Com uma belíssima trilha, repleta de jazz gritante e um ritmo capaz de prender a atenção do público, acompanhamos os amores de Ginsberg (um homossexual sempre em conflito com sua orientação), a influência de seu pai alcoólatra e mãe, que sofria de distúrbios psicológicos, em sua literatura é citada, porém sua maior influência foram os amores frustrados (Ginsberg frequentemente se apaixonava por homens heterossexuais) e a sua constante observação do mundo e dos dilemas da alma humana. Cita, ainda, a relação amorosa com o também poeta Peter Orlovsky (Aaron Tveit), que durou de mais de trinta anos e permaneceu amistosa até a morte de Ginsberg em 1987.

Com textos polêmicos, que falavam de racismo, filosofia, surrealismo, política, sexo, suicídio e tudo mais que sua mente fervilhante permitisse, Ginsberg falava em voz alta o que a ala conservadora relutava em assumir. Por conta disso, o risco de transparecer a hipocrisia da sociedade pós Segunda Guerra Mundial fez com que fosse considerado um não-literato, traçando um paralelo entre ele e Walt Whitman, grande poeta norte-americano e considerado o pai do verso livre, que fugia do academicismo e se tornou um dos precursores da poesia moderna com a obra Leave of Grass.


Em Howl, acompanhamos por menos de uma hora e meia a vida de Ginsberg, condensada de forma competente e capaz de prender a atenção até em um contexto difícil de prender  a atenção de boa parte dos espectadores: cenas de tribunal. Porém, é ali, também, que se discute o conceito de Arte. E, diferente de algumas tantas biografias de escritores, Franco lê trechos da obra que são complementados com animações – ora psicodélicas, surreais, etéreas, violentas – localizando o público ainda não apresentado à sua obra.

Defendido pelo advogado Jake Ehrlich (Jon Hamm) e acusado por Ralph McIntosh (David Strathairn), acompanhamos o parecer dos que condenam Ginsberg, como Gail Potter (Mary-Louise Parker) e o professor David Kirk (Jeff Daniels) e aqueles que o defendem, como o professor Mark Schover (Treat Williams) e o crítico literário Luther Nichols (Alessandro Nivola). Mentes que conflitavam diante de Ginsberg, um homem que via a humanidade como ela era – e ainda é, talvez em menor grau – e não tinha medo de assumir essa nossa mistura de miséria aliada aos mais profundos desígnios da alma.

O diretor norte-americano Darren Aronofsky nunca fez um filme simples. Um daqueles diretores que incomodam com seus longas, nos ofereceu o complexo Pi (1998), chocou o público com o realista drama sobre drogas Réquiem para um Sonho (2000) e misturou reencarnação, carma, filosofia e amor no interessante A Fonte da Vida (2006), só para citar alguns. Entretanto, o diretor se supera com sua obra mais ousada, Cisne Negro (2010), com estreia prevista para 4 de fevereiro no Brasil.

Na trama, a doce Nina (Natalie Portman) é uma grande bailarina de uma companhia de dança que se prepara para uma nova produção do clássico O Lago dos Cisnes. Auxiliada pelo exigente professor Thomas Leroy (Vincent Cassel), ela se esforça para ser a estrela principal do espetáculo. Na clássica história, uma jovem presa no corpo de um cisne, precisa encontrar seu grande amor para se livrar da maldição. Porém, quando o seu príncipe está prestes a declarar seus sentimentos, o malvado cisne negro o seduz, provocando o ciúme, desolação e suicídio do cisne branco.


Nina, que anseia pelo papel principal (em que interpretaria tanto o cisne branco como o cisne negro), terá de disputar a atenção de Leroy com Lily (Mila Kunis), uma ousada e sexy bailarina da companhia. Porém, diversos acontecimentos farão com que Nina perceba que a busca pelo papel pode lhe custar muito, inclusive a sanidade e a própria identidade.

Considerado um dos melhores filmes de 2010, o filme foi indicado em quatro categorias no Globo de Ouro 2011 (apenas Natalie levou como Melhor Atriz de Filme Dramático) e está garantido com algumas indicações no Oscar. Kunis, que começou a carreira na série de comédia That 70´s Show e conseguiu fugir do estigma de sua personagem, levando pra casa o prêmio Marcello Mastroianni no Festival de Veneza. Não é para menos: Aronofsky conseguiu dar tensão e suspense em uma obra prima que trata dos bastidores do dança clássica com veracidade e respeito merecidos.


Com cenas de dança muito bem coreografadas, misturando beleza e terror na medida certa, Cisne Negro tem uma condução primorosa, com ótimo uso de luz e sombras, sempre acompanhada da música clássica como fundo incidental. Na personagem da doce Nina, os mistérios que a rondam passeiam pelos campos do surrealismo, dos sonhos e do mais profundo do seu inconsciente. Porém, o que poderia cair como situações piegas, ganham vigor e mistério nas mãos de Aronofsky.

Com participação de Winona Ryder, que interpreta Beth, uma bailarina veterana que tem de se afastar após anos de balé, o filme ganha força mesmo na dupla Natalie Portman e Mila Kunis. Enquanto Natalie entra com a pureza e sensibilidade, Kunis é o lado libertino e livre, como se cisne branco e negro duelassem em sua disputa pela perfeição diante de Leroy, que enxerga nas duas o grande papel da Rainha dos Cisnes. E para alcançar isso, a inveja, ambição e dedicação serão três elementos constantes, que prenderão a atenção do espectador durante todo o longa.

É perigoso falar de Cisne Negro, pois eu poderia estragar o grande trunfo, que é seu mistério constante. Assim, me atenho a citar a interpretação impecável de Natalie (bailarina clássica e que dança em todo o longa). No auge da beleza e talento, o filme é seu, não há dúvida. Aronofsky, ciente disso, faz com que a câmera – em grande parte colocando o público no meio dos bailarinos – seja hipnotizada por Natalie e com que nos apaixonemos por ela em sua constante busca, transformação e/ou encontro de si mesma.

Impossível não falar da sensualidade do filme, que inclui masturbação e uma ousada cena de sexo entre as protagonistas, além das delicadas cenas de dança que são um colírio para os olhos masculinos e femininos. A própria Natalie, entretanto, em entrevista ao programa norte-americano Entertainment Weekly, confessou que a inserção da cena foi feita com intuito de atrair o público. Afinal, “que homem iria ao cinema ver um filme de balé e que mulher iria ao cinema ver um filme de terror?”, declarou a atriz. Para ela, somente uma cena de sexo lésbico resolveria o “problema”.

Polêmicas – seja pela declaração ou cena – à parte, Cisne Negro se sagra, de fato, como um dos grandes filmes a serem lançados em 2011. Da direção segura de Aronofsky, passando pelas duas atrizes no auge da beleza e talento e uma história clássica contada para atrair a atenção do público, que deve lotar os cinemas para repetir a experiência em uma segunda sessão.

Porém, vale lembrar que, antes mesmo da criação de O Lago dos Cisnes (1876), o escritor dinamarquês  Hans Christian Andersen criou, trinta anos antes, a fábula O Patinho Feio. Ali, um patinho rejeitado por todos os outros, cresce e descobre ser, na verdade, o mais belo dos cisnes. Entretanto, nesta busca incessante pela perfeição, uma pequena rachadura pode destruir toda a estrutura que nos sustenta.

 

Sucesso de crítica nos EUA, O Último Exorcismo ganhou fama por unir o popular tema exorcismo ao estilo mockumentary (ficção que utiliza técnicas de documentário). Porém, o filme, que conta com direção de Daniel Stamm, não passa de um grande embuste, que deu certo no grande sucesso independente A Bruxa de Blair (1999).


Em uma pequena cidade da Louisiana, o pastor Cotton Marcus (Patrick Fabian), astro religioso que leva fiéis ao delírio em seus cultos, é chamado para resolver um misterioso caso de possessão demoníaca. Junto de dois documentaristas, ele vai até a fazenda da família Sweetzer, onde Nell (Ashley Bell), uma tímida e doce jovem de 16 anos, mora com o pai alcóolatra Louis (Louis Herthum) e o temperamental irmão Caleb (Caleb Landry Jones).

A garota tem passado por sonambulismo e é a principal suspeita de assassinar os animais da fazenda com requintes de crueldade, mas nada lembra de seus atos. Assim, o reverendo vai “arrancar” o demônio – que, segundo ele, se chama Abbalam – de dentro de Nell. O curioso é que Marcus não passa de uma fraude, usando efeitos especiais como choque elétrico, sons demoníacos e fumaça artificial para os rituais.


Porém, após seu show para extorquir dinheiro da família, o reverendo percebe que há algo realmente estranho com Nell e precisa encarar um exorcismo real. É neste momento em que o suspense cresce e as cenas aterrorizantes deveriam tomar a tela, mas fica devendo ao espectador. O grande pecado é o roteiro, que começa muito bem mas, ao querer surpreender o público, se enrola em reviravoltas e mistérios que acabam não chegando praticamente a lugar nenhum.

Com baixo orçamento, O Último Exorcismo abusa dos recursos que lhe cabem com competência, como sombras, câmera tremida, objetos balançando e sangue artificial, além de um elenco desconhecido que traz impressionante veracidade às cenas. Porém, nem o ritmo e suspense crescentes das cenas conseguem salvar o filme, que mistura assuntos como a perda de um ente querido, suspeita de esquizofrenia, estupro, gravidez, incesto, aversão a Deus misturada à fé e conflitos familiares. Pecado de não saber que, muitas vezes, o menos é mais.

Apesar da dedicação interessante em seu desenvolvimento, O Último Exorcismo infelizmente resvala em um epílogo inconsistente e confuso. E a pior notícia é que, àqueles que esperavam que fosse realmente o último exorcismo do cinema, lamentem-se: o final dá explícita margem a uma sequência. Mas até o título – O Último Exorcismo 2? – soaria risível.

Aconteceu nessa terça-feira (11), em São Paulo, a pré-estreia do filme Desenrola (Brasil, 2010). Adolescentes eufóricas e uma péssima organização da distribuidora que, de olho no boom do cinema brasileiro ano passado (25,6 milhões de espectadores), fizeram a noite, que contou com presença da diretora Rosane Svartman e parte do elenco, incluindo o galã global Kayky Brito.

Na trama, a tímida e doce Priscila (Olívia Torres) é uma jovem de 16 anos que, após uma viagem de 20 dias da mãe Clara (Claudia Ohana), é deixada sozinha em casa. Encantada pelo galã do colégio Rafa (Kayky Brito, abusando dos músculos e caras e bocas, como sempre), ela fará de tudo para conquistar o rapaz. Para isso, contará com a ajuda do melhor amigo Caco (Daniel Passi), enquanto se torna amiga de Tize (Juliana Paiva), irmã do garanhão e que terá de passar por uma prova com seu namorado (papel do ator Jorge de Sá).


Para completar o grupo, ainda temos a dupla Boca (Lucas Salles) e Amaral (Vitor Thiré), dois amigos inseparáveis que darão maior humor à história. Enquanto Amaral é o chamado “amigo mala”, no mais estilo adolescente que esqueceu de crescer, Boca assume o papel do jovem acima do peso que, fugindo dos padrões de beleza supervalorizados naquele fase da vida, usa de seus métodos (não muito eficientes) para chamar a atenção e se destacar no grupo.

Pode-se dizer que Desenrola parece ter sido filmado em sequência. A princípio o filme traz diálogos risíveis e atuações que deixam a desejar, porém, a partir da segunda metade, parece se encontrar mais, com personagens – e atores – amadurecendo e atuações que quase atingem a média esperada. Ou seja, acompanhamos o desenvolvimento de Priscila que, antes sonhadora e em busca de aceitação, verá que suas prioridades podem ser outras.

Tema necessário para as novas gerações, a adolescência sempre foi retratada e continuará assim, seja com bom o mau gosto. Desenrola, anos-luz inferior à As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky, não chega a ser de todo ruim. Produção da Globo Filmes, é impossível não lembrar das figuras das últimas versões de Malhação, mas retrata jovens com maior veracidade que a noveleta global. Até mesmo a edição do longa lembra muito o programa, além de sua trilha, repleta de pop rock, além de nomes conhecidos pelo grande público, como Paralamas do Sucesso, Mallu Magalhães, Maria Gadú e uma curiosa homenagem ao hit dos anos 80 Don´t You (Forget About Me) do Simple Minds.

O roteiro até se esforça – e traz alguns raríssimos bons momentos – mas deixa a desejar, especialmente pela dificuldade do jovem elenco de não passar verdade e, na maioria das vezes, não saberem o que significa o termo “timing”. Com certas atitudes capazes de causar vergonha alheia nos espectadores (ou na maioria que já passou daquela fase), os personagens se envolvem nas mais diversas situações, como gravidez, boatos, a perda da virgindade, a disputa pelo garanhão do colégio, as decepções amorosas, a importância da reputação, o amor, a supervalorização da estética (ser gordinho ou fugir dos padrões de beleza tornam-se martírios), as viagens regadas a flertes e sexo até desencadear em uma superficial homossexualidade (não aprofundada, claro).

Com atores carismáticos e um ritmo correto, Desenrola começa pior do que termina, o que dá um certo alívio pelo ingresso comprado. A ideia, entretanto, vai agradar ao seu público-alvo teen, que terá seus dilemas expostos na tela.  Em uma época como a adolescência, onde imagem é tudo (pelo menos à primeira vista), a fila anda e tudo de bom e ruim acontece, é intrínseco não conseguir passar por tudo isso de forma indiferente. Tal fator se deve, claro, ao modo extremista com que os garotos e garotas reagem nesta fase, sempre cheia de dúvidas, dilemas e medos.

Desenrola traz, ainda, ponta de atores como Marcelo Novais e Letícia Spiller, além de Pedro Bial (em folga de Big Brother Brasil) e rápida aparição de Juliana Paes. Vai agradar aos jovens e pode dar certo saudosismo aos mais velhos (pro bem ou por levarem as mãos aos céus de terem atingido a maturidade). Porém, como ouvi certa vez em um filme – perdoem-me o lapso de memória em lembrar do título – um personagem teen abriu o jogo: “Se conseguirmos passar pela adolescência, conseguiremos qualquer coisa”. E faz sentido. 

Mais um filme com temática gay que assisti no Festival Mix Brasil de 2010. Curiosamente, deixei para os últimos dias e acabei conseguindo assistir ótimos filmes. Com o alemão Sasha, o diretor Dennis Todorovic já mostra um ótimo prólogo, que prende a atenção do espectador: o jovem do título (interpretado por Sascha Kekez), em uma loja, observa revistas gays e, com medo de ser pego ou visto, no auge do seu nervosismo derruba todas no chão, deixando-o desesperado. O humor já estava garantido em uma comédia despretensiosa e que cativa o público.


Acompanhamos Sasha e sua família (oriunda de Montenegro, dependente da Sérvia até 2006) e que mora na Alemanha há um certo tempo. Exímio aluno de piano, Sasha é pressionado pela super-protetora mãe Stanka (Zeljka Preksavec, ótima) para se tornar um dos maiores pianistas da Alemanha. Além dela, sasha convive com o restante da excêntrica família Petrovic: o rígido e ignorante pai Vlado (Predrag Bjelac), o hilário tio Pero (Ljubisa Gruicic) e o egocêntrico e burro irmão Boki (Jasin Mjumjunov).

Tendo como única amiga a descendente de chineses Jiao (Yvonne Yung Hee), Sasha se descobre apaixonado pelo belo professor de piano Gebhard (Tim Bergmann). Assim, o rapaz vai passando pelas mais tensas situações para conquistar a atenção – e o coração – do mestre, que irá se mudar em breve para Viena após conquistar a chance de ser um pianista de sucesso.


Ansioso, inexperiente e correndo contra o tempo, Sasha terá de enfrentar seu medo e tentar provar seu amor por Gebhard, um homem mais velho, maduro e com uma personalidade nada romântica. Nesta iminência de um concurso de piano prestes a acontecer, a partida de sua paixão, a descoberta da homossexualidade e a pressão da família – que ganha destaque além do personagem-título – Sasha vai entrar em um redemoinho de sentimentos e emoções á flor da pele que lhe deixarão, literalmente, perdido.


Com personagens cativantes e empáticos, Sasha traz um roteiro bem amarrado e com timing perfeito para humor e drama (difíceis de conciliar sem insultar o público, vamos concordar).  Assim, acompanhamos cenas que arrancam riso logo após deixar a plateia apreensiva ou comovida (embora sejam um pouco comprometidas pela dificuldade do protagonista em demonstrar tristeza em sua interpretação). Até porque em uma família extremamente conservadora, a homossexualidade cai como uma bomba e nunca é compreendida nem por aqueles que se consideram mais liberais.

Porém, em Sasha temos todos os elementos pra cativar o público alvo: atores carismáticos, uma boa fotografia, um bom roteiro, uma trilha recheada de violino e piano e sensualidade na quantidade certa. Afinal, descobrir-se gay, geralmente, vem acompanhado de um grande amor. E a combinação sempre deixa o adolescente completamente perdido.

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