O cinema mundial tem criado histórias com temática LGBT cada vez mais ousadas e complexas. Em 2002 foi lançado o israelense Delicada Relação, que mostrava o amor entre dois soldados. Em 2009, Pecado da Carne (parceria entre Israel, França e Alemanha) mostrou dois judeus ortodoxos – um deles casado e com filhos – que se apaixonavam. No mesmo ano, o diretor dinamarquês Nicolo Donato lançou Brotherhood (Broderskab, Dinamarca, 2009), cuja temática toca no delicado campo do nazismo, mostrando dois homens de um grupo neo-nazista que se apaixonam.

Lars (Thure Lindhardt) é um ex-militar que, após desistir do Exército, acaba conhecendo Michael (Nicolas Bro), líder de um grupo que segue os pensamentos do líder do terceiro Reich, Adolf Hitler. Com uma filosofia de extremo nacionalismo, o grupo é contra negros, homossexuais e estrangeiros em geral, especialmente se forem muçulmanos. Ao conhecer Lars, Michael vê no jovem um promissor membro do grupo: carismático, inteligente e eloquente.


Quem não gosta muito disto é Patrick (Morten Holst), irmão mais novo de Jimmy (David Dencik), que pretende entrar para o grupo, embora seu vício com as drogas atrapalhe seus planos. Seduzido pela chance de pertencer a um grupo – visto que havia saído do Exército – Lars se embrenha no universo de preconceito e violência dos neo-nazistas, com uma rotina “comum” de espancamento àqueles que eles consideram seres inferiores.

Porém, quando Lars é expulso da casa dos pais e precisa de um lugar para ficar, Michael o coloca na casa em que Jimmy está morando. Assim, o veterano do grupo – e braço direito do chefe do grupo – Jimmy fica encarregado de ser o tutor de Lars. Assim, a convivência constante dos dois, que antes era incômoda, vai se tornando uma grande amizade.


Com uma direção segura e atores que assumem seus papéis com veracidade, Brotherhood tem um clima de angústia constante, tanto quando o grupo pode explodir em situações de agressão como durante o caso de Lars e Jimmy. Inclusive, o desenrolar do romance dos dois é muito bem explorado no filme: observa-se um certo homoerotismo em Lars desde o início do filme (tanto que sua não promoção no Exército deve-se a boatos de que ele havia flertado com subordinados). E com o passar do tempo, os olhares que ambos trocam passam a ser mais demorados, até a descoberta crucial de uma atração física incontrolável.

De desencontro à delicadeza de Lars, está o modo rude e sério de Jimmy. Inclusive, a relação dos membros do grupo é o que mais revela a natureza de Jimmy: violenta, regada a muito rock pesado, além de estar carregada constantemente de uma masculinidade exacerbada. Porém, Brotherhood tem seus momentos mais ternos, como os silêncios que permeiam o convívio de Jimmy e Lars, onde nada é dito, mas muito é compreendido através dos olhares.


Outro grande trunfo do filme é o uso da luz e dos ângulos de câmera: nas cenas do grupo neo-nazista, a fotografia é sempre pesada e escura, bem diferente de quando nos deparamos com os personagens fora dele; além disso, Donato faz bom uso da câmera na mão e de longos planos, fazendo com que, em uma mesma tomada, possamos observar as atitudes de Lars e de Jimmy, simultaneamente.

Conforme o romance de ambos acontece, as situações constrangedoras e a tensas aumentam. E Brotherhood não se perde na sua trama, mantendo ritmo, além de fugir do lugar comum e resultar em um filme enxuto, sem uma extensão desnecessária, que vai ao ponto necessário da ferida a ser cutucada. E o confronto final chega, deixando a ferida exposta, sangrando e que pode, ou não, cicatrizar. Pesado, porém necessário.

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