Todos já fomos adolescentes e sabemos o quão difícil é esta fase para qualquer pessoa. Para Mano (Francisco Miguez), um jovem de 15 anos, a vida parece desabar sobre sua cabeça ao descobrir que os pais Camila (Denise Fraga) e Horácio (José Carlos Machado) vão se separar. Além de lidar com a indiferença de Valéria (Sophia Gryschek), garota pela qual está apaixonado e com os conflitos no colégio, ele ainda tem de se preocupar com o irmão mais velho, Pedro (Fiuk), que começa a ter sinais fortes de depressão.

A história é simples e poderia resvalar em um filme adolescente sem sal ou em um episódio insípido da eterna telenovela Malhação, mas quando a diretora paulista Laís Bodanzky (dos ótimos Bicho de Sete Cabeças e Chega de Saudade) lançou As Melhores Coisas do Mundo (idem, Brasil, 2010), o público sabia que poderia contar com um história que jamais resvalaria no lugar comum.


Vencedor de sete prêmios do Festival de Cinema do Recife, As Melhores Coisas do Mundo tem um grande mérito: ele retrata adolescentes como eles são – ou, pelo menos, gostariam de ser tratados. Não são exemplos de beleza plástica (como grande parte do elenco da já citada telenovela global) e não se comportam como santos para não dar “mau exemplo” aos telespectadores. Eles falam de sexo, de masturbação, drogas, bebem cerveja, falam palavrão, se apaixonam, brigam e são instintivos em sua natureza de homem e mulher em fase de ebulição hormonal.

Assim, acompanhamos o drama de Mano, um protagonista empático e carismático que ganha o gosto do público logo nas primeiras cenas. Convivendo com os dois grandes amigos Carol (Gabriela Rocha) e Deco (Gabriel Illanes), Mano vai ter de lidar com a separação dos pais (sempre uma notícia tensa, especialmente para um adolescente) e o inferno que sua vida se torna no colégio, com rumores, fofocas, conflitos de todos os dramas vivenciados. Não que sejam situações insustentáveis – nem fáceis – mas, para a fase em que passam, muitos problemas ganham maiores proporções do que o são.


Com participações de atores jovens, porém mais velhos, como Paulo Vilhena (o professor de violão Marcelo) e Caio Blat (o professor mente aberta e galã do colégio, Artur), o filme é uma grande homenagem a esta fase, tão marcante na vida de todos nós. E os personagens, bem conduzidos e com ótimas interpretações, dão ritmo e vitalidade ao filme, recheado de humor, drama e delicadeza. Denise Fraga, por exemplo, sai de seu costumeiro papel de humorista e encarna uma personagem mais dramática (porém bem mais amena que a que interpretou na série Queridos Amigos).

As Melhores Coisas do Mundo tem, ainda, um roteiro sincero, uma ótima trilha sonora e personagens fortes (inclusive as mulheres, que não são apenas objetos de desejo dos garotos explodindo em feromônios). Porém, quando Mano começa a olhar a melhor amiga Carol de um jeito diferente, o novo sentimento dará margens para mais mudanças na vida do garoto.


E nesse caldeirão de pressões como sexo, drogas, atitudes, aceitação, conflitos, dúvidas, popularidade, suicídio, traições, homossexualidade, música, amor e dúvidas, o filme se firma como um sensato panorama da adolescência (a diretora Laís Bodanzky, inclusive, se embrenhou naquele universo para retratá-lo com fidelidade). E é um período realmente difícil, porém, como diz Mano em certa parte do final: “Não é impossível ser feliz depois que a gente cresce; só é mais complicado”. E quem é adulto, certamente, vai concordar.

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