dezembro 2010


Ao assistir ao filme Amores Imaginários (Les Amours Imaginaires, Canadá, 2010), uma frase do poeta francês Alfred de Musset nos orienta do que está por vir: “A única verdade é o amor além da razão”. E nada mais propício que traçar um paralelo entre o pensamento de Musset e a relação que os personagens Francis (Xavier Dolan) e Marie (Monia Chokri) desenvolvem com Nicolas (Niels Schneider), sonho de consumo de ambos.

Selecionado na mostra Um Certo Olhar, no Festival de Cannes 2010, Amores Imaginários é uma tentativa de documentar o amor jovem em sua essência mais irônica e mordaz. Entre decepções amorosas, superações, dores e medo de se envolver, acompanhamos o casal de amigos que entra em conflito – e pânico – ao conhecerem o apaixonante Nicolas: loiro, olhos cacheados, sorriso largo, jeito meigo e tudo o mais capaz de fazer brilhar até os olhos dos mais céticos.

Dirigido, produzido, escrito e interpretado por Xavier Dolan (Eu Matei a Minha Mãe), o longa é o segundo filme do multi-artista de apenas 21 anos, que se tornou uma das maiores promessas do cinema canadense (sempre filmado no idioma francês, segunda língua oficial do Canadá).

Porém, o que surpreende em Amores Imaginários é o clima criado por Dolan para contar a história dessa dupla que disputa (oras sutilmente, outras nem tanto) o amor de Nicolas. Há, porém, um certo distanciamento da realidade, com intenso uso da câmera lenta, visual vintage e cores, muitas cores. De planos que alternam entre captar detalhes, panoramas das situações e, até mesmo, uma câmera observadora, quase com medo de interromper o que acontece à sua frente, Dolan mostra-se dedicado quando o assunto é a estilização de suas cenas.

Sexy e infantil, o espectador observa as situações bem-humoradas e, ao mesmo tempo, sensuais do filme, em relação aos sinais que uma paixão fulminante é capaz de provocar no ser humano. Marie e Francis, porém, vão alimentando esse sentimento por Nicolas, enquanto se envolvem com outras pessoas, incapazes de oferecer o que eles acreditam ter encontrado em Nicolas, visto como um Davi de Michelângelo para Marie e uma alma gêmea para Francis.

Com uma falta de razão (olha Musset de novo aí), Francis e Marie começam a agir de forma incompreensível em certos momentos, em uma ansiedade e nervosismo diante de Nicolas que os modificam no decorrer do longa. Mordaz e com um cinismo quase permanente nos personagens, Amores Imaginários pode ser considerado uma paródia ao amor jovem moderno.

Com personagens abertos sobre sua sexualidade e comportamentos: Désirée, por exemplo, mãe de Nicolas, é uma dondoca liberal que fuma maconha (interpretada pela ótima Anne Dorval, que já havia trabalhado com Dolan em Eu Matei a Minha Mãe). E ao assistir Amores Imaginários não há como não se identificar com o comportamento dos apaixonados: ligar e desligar o telefone com medo de falar, o ciúmes, o jeito quase que hipnotizado quando encontra a pessoa, em que se sorri, gagueja e treme (todos juntos ou não necessariamente nesta ordem). E nesse tiro do Cupido em Francis e Marie (representado pela música Bang Bang, em italiano, cantada por Dalida a partir da famosa canção de Cher nos anos 60), a música surge incessantemente, evocando esta dupla de amantes e um amado que parece assistir de camarote o que sua presença provoca em ambos.

Porém, paixão e amor podem ser vistos como uma espécie de ferida, que parece nos destruir quando sentimos mas que, em algum momento, passa.  Depois, essa ferida pode se tornar uma cicatriz – que coça durante um bom tempo, ou não – mas que, seja aberta ou cicatrizada, não impede que a procura por um outro amor continue. E assim o ciclo se reinicia.

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Atores carismáticos e competentes, uma direção bem cuidada e um tema interessante: tudo isso fez com que Minhas Mães e Meu Pai (The Kids Are All Right, EUA, 2010) se tornasse uma grande surpresa do cinema considerado “não comercial” em Hollywood, mesmo tendo estrelas como Annette Bening, Juliane Moore e Mark Ruffallo em seu elenco.


Casadas há cerca de vinte anos, Nic (Bening) e Jules (Moore) são mães biológicas de Joni, uma jovem de 18 anos (Mia Wasikowska, a Alice de Tim Burton) e Laser, de 15 (Josh Hutcherson) , respectivamente. Porém, na prática, ambas são mães dos jovens. A coisa se complica quando Laser decide procurar o doador do esperma que gerou ele e e a irmã. Surge, então, Paul (Mark Ruffalo), um homem que leva uma vida sossegada, sem muitas ambições que, mais jovem, decidiu doar seu esperma porque “achava mais legal que doar sangue”.

Vencedor do Teddy Award (prêmio dedicado à temática gay) do Festival de Cinema de Berlin deste ano, Minhas Mães e Meu Pai é dirigido pela americana Lisa Cholodenko (Cavedweller e Laurel Canyon – A Rua das Tentações), que fez um trabalho competente ao misturar comédia e drama na dose certa.


Com essa relação, que envolve os cinco personagens principais, os conflitos não demoram a surgir. Tudo começa quando Paul se envolve com Laser e Joni, causando um estranhamento nas mães, que sentem-se invadidas com a presença de Paul, que é e não é um pai dos dois, causando uma confusão desmedida nos personagens. O desconforto se agrava, principalmente, quando ele e Jules começam a ter um caso, gerando uma revolução na, até então, pacata família.


Apesar de algumas situações previsíveis, Minhas Mães e Meu Pai traz um elenco de primeira (até a apática Mia Wasikowska não decepciona) em uma história de uma família incomum, mas que tenta se ajustar às mudanças que acontecem de forma tão repentina. Moore, com seu costumeiro talento e beleza é sempre uma boa escolha, mas o filme é, definitivamente de Bening. Encarnando com veracidade e delicadeza uma lésbica, a esposa de Warren Beatty já é cotada como uma das mais prováveis indicadas ao Oscar 2011, em um filme que trata a homossexualidade sem estranhamento, preconceito ou uma tragédia final que separa os dois amantes. Parece que, pelo menos o cinema, parece estar evoluindo em relação à temática gay.

O cinema mundial tem criado histórias com temática LGBT cada vez mais ousadas e complexas. Em 2002 foi lançado o israelense Delicada Relação, que mostrava o amor entre dois soldados. Em 2009, Pecado da Carne (parceria entre Israel, França e Alemanha) mostrou dois judeus ortodoxos – um deles casado e com filhos – que se apaixonavam. No mesmo ano, o diretor dinamarquês Nicolo Donato lançou Brotherhood (Broderskab, Dinamarca, 2009), cuja temática toca no delicado campo do nazismo, mostrando dois homens de um grupo neo-nazista que se apaixonam.

Lars (Thure Lindhardt) é um ex-militar que, após desistir do Exército, acaba conhecendo Michael (Nicolas Bro), líder de um grupo que segue os pensamentos do líder do terceiro Reich, Adolf Hitler. Com uma filosofia de extremo nacionalismo, o grupo é contra negros, homossexuais e estrangeiros em geral, especialmente se forem muçulmanos. Ao conhecer Lars, Michael vê no jovem um promissor membro do grupo: carismático, inteligente e eloquente.


Quem não gosta muito disto é Patrick (Morten Holst), irmão mais novo de Jimmy (David Dencik), que pretende entrar para o grupo, embora seu vício com as drogas atrapalhe seus planos. Seduzido pela chance de pertencer a um grupo – visto que havia saído do Exército – Lars se embrenha no universo de preconceito e violência dos neo-nazistas, com uma rotina “comum” de espancamento àqueles que eles consideram seres inferiores.

Porém, quando Lars é expulso da casa dos pais e precisa de um lugar para ficar, Michael o coloca na casa em que Jimmy está morando. Assim, o veterano do grupo – e braço direito do chefe do grupo – Jimmy fica encarregado de ser o tutor de Lars. Assim, a convivência constante dos dois, que antes era incômoda, vai se tornando uma grande amizade.


Com uma direção segura e atores que assumem seus papéis com veracidade, Brotherhood tem um clima de angústia constante, tanto quando o grupo pode explodir em situações de agressão como durante o caso de Lars e Jimmy. Inclusive, o desenrolar do romance dos dois é muito bem explorado no filme: observa-se um certo homoerotismo em Lars desde o início do filme (tanto que sua não promoção no Exército deve-se a boatos de que ele havia flertado com subordinados). E com o passar do tempo, os olhares que ambos trocam passam a ser mais demorados, até a descoberta crucial de uma atração física incontrolável.

De desencontro à delicadeza de Lars, está o modo rude e sério de Jimmy. Inclusive, a relação dos membros do grupo é o que mais revela a natureza de Jimmy: violenta, regada a muito rock pesado, além de estar carregada constantemente de uma masculinidade exacerbada. Porém, Brotherhood tem seus momentos mais ternos, como os silêncios que permeiam o convívio de Jimmy e Lars, onde nada é dito, mas muito é compreendido através dos olhares.


Outro grande trunfo do filme é o uso da luz e dos ângulos de câmera: nas cenas do grupo neo-nazista, a fotografia é sempre pesada e escura, bem diferente de quando nos deparamos com os personagens fora dele; além disso, Donato faz bom uso da câmera na mão e de longos planos, fazendo com que, em uma mesma tomada, possamos observar as atitudes de Lars e de Jimmy, simultaneamente.

Conforme o romance de ambos acontece, as situações constrangedoras e a tensas aumentam. E Brotherhood não se perde na sua trama, mantendo ritmo, além de fugir do lugar comum e resultar em um filme enxuto, sem uma extensão desnecessária, que vai ao ponto necessário da ferida a ser cutucada. E o confronto final chega, deixando a ferida exposta, sangrando e que pode, ou não, cicatrizar. Pesado, porém necessário.

Todos já fomos adolescentes e sabemos o quão difícil é esta fase para qualquer pessoa. Para Mano (Francisco Miguez), um jovem de 15 anos, a vida parece desabar sobre sua cabeça ao descobrir que os pais Camila (Denise Fraga) e Horácio (José Carlos Machado) vão se separar. Além de lidar com a indiferença de Valéria (Sophia Gryschek), garota pela qual está apaixonado e com os conflitos no colégio, ele ainda tem de se preocupar com o irmão mais velho, Pedro (Fiuk), que começa a ter sinais fortes de depressão.

A história é simples e poderia resvalar em um filme adolescente sem sal ou em um episódio insípido da eterna telenovela Malhação, mas quando a diretora paulista Laís Bodanzky (dos ótimos Bicho de Sete Cabeças e Chega de Saudade) lançou As Melhores Coisas do Mundo (idem, Brasil, 2010), o público sabia que poderia contar com um história que jamais resvalaria no lugar comum.


Vencedor de sete prêmios do Festival de Cinema do Recife, As Melhores Coisas do Mundo tem um grande mérito: ele retrata adolescentes como eles são – ou, pelo menos, gostariam de ser tratados. Não são exemplos de beleza plástica (como grande parte do elenco da já citada telenovela global) e não se comportam como santos para não dar “mau exemplo” aos telespectadores. Eles falam de sexo, de masturbação, drogas, bebem cerveja, falam palavrão, se apaixonam, brigam e são instintivos em sua natureza de homem e mulher em fase de ebulição hormonal.

Assim, acompanhamos o drama de Mano, um protagonista empático e carismático que ganha o gosto do público logo nas primeiras cenas. Convivendo com os dois grandes amigos Carol (Gabriela Rocha) e Deco (Gabriel Illanes), Mano vai ter de lidar com a separação dos pais (sempre uma notícia tensa, especialmente para um adolescente) e o inferno que sua vida se torna no colégio, com rumores, fofocas, conflitos de todos os dramas vivenciados. Não que sejam situações insustentáveis – nem fáceis – mas, para a fase em que passam, muitos problemas ganham maiores proporções do que o são.


Com participações de atores jovens, porém mais velhos, como Paulo Vilhena (o professor de violão Marcelo) e Caio Blat (o professor mente aberta e galã do colégio, Artur), o filme é uma grande homenagem a esta fase, tão marcante na vida de todos nós. E os personagens, bem conduzidos e com ótimas interpretações, dão ritmo e vitalidade ao filme, recheado de humor, drama e delicadeza. Denise Fraga, por exemplo, sai de seu costumeiro papel de humorista e encarna uma personagem mais dramática (porém bem mais amena que a que interpretou na série Queridos Amigos).

As Melhores Coisas do Mundo tem, ainda, um roteiro sincero, uma ótima trilha sonora e personagens fortes (inclusive as mulheres, que não são apenas objetos de desejo dos garotos explodindo em feromônios). Porém, quando Mano começa a olhar a melhor amiga Carol de um jeito diferente, o novo sentimento dará margens para mais mudanças na vida do garoto.


E nesse caldeirão de pressões como sexo, drogas, atitudes, aceitação, conflitos, dúvidas, popularidade, suicídio, traições, homossexualidade, música, amor e dúvidas, o filme se firma como um sensato panorama da adolescência (a diretora Laís Bodanzky, inclusive, se embrenhou naquele universo para retratá-lo com fidelidade). E é um período realmente difícil, porém, como diz Mano em certa parte do final: “Não é impossível ser feliz depois que a gente cresce; só é mais complicado”. E quem é adulto, certamente, vai concordar.