Em 1961, um grupo de diretores de classe média e universitários se reuniu para realizar o filme 5 x Favela. Com verbas do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (UNE), a iniciativa revelou nomes como Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirzman e Cacá Diegues. Mostrando as várias facetas das comunidades pobres, o filme teve, 49 anos depois, uma espécie de retomada do tema, com um detalhe extremamente relevante: todos os realizadores saíram da própria favela. O resultado é 5 x Favela – Agora por Nós Mesmos.

Com pré-estreia no Festival de Cannes deste ano, o longa traz cinco episódios independentes que mostram personagens em tramas que se desenrolam nas favelas do Rio de Janeiro, com roteiros que se destacaram e foram supervisionados por Rafael Dragaud. Com algumas escorregadas em sua trama, direção ou  roteiro, o que vale em todos episódios é a veracidade das histórias, retratadas com impressionante realismo.


Em Fonte de Renda, dirigido por Maíra Carneiro e Wagner Novais, acompanhamos a história de Maicon (Silvio Guindane), um estudante de Direito. Morando com a mãe e o irmão mais novo, ele trabalha em uma padaria para bancar os estudos. Porém, o emprego não é suficiente para arcar com despesas como transporte e livros. Primeiro aluno da sala, ele se torna amigo de Edu (Gregório Duvivier), um rapaz de classe média alta e usuário de drogas que lhe oferece dinheiro para que ele consiga na favela as substâncias que ele quer. Mesmo à contragosto, Maicon  se arrisca para, assim, conseguir realizar o grande sonho de se formar na universidade. Acompanhado de perto por Dos Santos (Hugo Carvana), um ex-policial amigo da família, o transporte de drogas acarreta um incidente que beira a tragédia.

No episódio Arroz e Feijão, o humor infantil é bem trabalhado pela dupla de diretores Rodrigo Felha e Cacau Amaral. Ao ouvir que Raimundo (Flavio Bauraqui) está cansado de comer arroz e feijão todos os dias, o menino Wesley (Juan Paiva) se une ao melhor amigo Orelha (Pablo Vinicius, ótimo) para conseguir dinheiro e, assim, comprar um frango para o jantar de aniversário do pai. Buscando soluções para conseguir o dinheiro, como limpar a rua e lavar carros, o episódio traz um ritmo dinâmico e diálogos bem construídos, com ótimo timing no humor, que envolve os dois personagens infantis.


Já em Concerto de Violino, o mais dramático dos episódios, os diretor Luciano Vidigal mostra a vida de três amigos de infância que, adultos tomaram rumos diferentes. Ademir (Samuel de Assis) se tornou um policial, Marcinha (Cintia Rosa) é uma musicista que toca violino e almeja uma bolsa de estudos na Europa, e Jota (Thiago Martins) acabou indo para o crime e se tornou um traficante. Quando um assalto coloca Jota e Ademir em confronto, a vida dos três será marcada pela tragédia e pela nostalgia de uma amizade que era considerada eterna. Permeado pela música clássica (a bela Canon in D, de Johann Pachelbel), o episódio mistura violência e poesia em uma drama que, por si só, é feito para emocionar.


Dirigido por Cadu Barcellos, Deixa Voar traz Flávio (Vitor Carvalho), um adolescente que se junta aos amigos para soltar pipa. Porém, quando o objeto cai no Alemão, uma comunidade rival, o rapaz é obrigado a ir até lá para buscá-lo. O mais curioso deste episódio é mostrar como mundos tão próximos podem ser tão diferentes, pois Flávio se sente um estrangeiro dentro de um mundo tão próximo e parecido com o dele. Porém, desbravar esse lugar pode ser sua chance de se aproximar ainda mais de Carol (Joyce Lohanne), uma amiga de colégio.


No último e mais espirituoso dos episódios, a diretora Luciana Bezerra ameniza o clima de violência e pobreza com Acende a Luz, que mostra uma comunidade que, na véspera do Natal, está sem luz. Porém, pela dificuldade de acesso e descaso dos funcionários da empresa de energia, os moradores intimam o prestativo Lopes (Márcio Vito), obrigando-o a dar um jeito de não deixar o Natal às escuras. Entre os personagens estão a espirituosa dona Maria (Fátima Domingues), o malandro Cimar (João Carlos Artigos) e a tempestuosa Lica (Dila Guerra) que, com muito humor, precisam se impor para serem respeitados.

Com produção de Diegues e dedicado a Leon Hirzman, 5 x Favela – Agora por Nós Mesmos tem pontos fortemente positivos, como levar aqueles que não conhecem para o centro, o dia a dia daquelas pessoas, cuja realidade é tão próxima e tão distante ao mesmo tempo. Assim, vamos acompanhando histórias que mostram que nas comunidades também moram pessoas de bem, não apenas bandidos e traficantes (e muitos brasileiros ainda creem nisso, infelizmente). Assim, o filme apresenta esse universo com suas músicas (a trilha é repleta de funk), seu jeito de falar, seu comportamento e, acima de tudo, como vive e sobrevive essa grande parcela da população que não quer entrar nas estatísticas do crime.

 

Anúncios