A leva de documentários musicais brasileiros não para. Um dos mais recentes resultados dessa safra é Uma Noite em 67, dirigido por Ricardo Calil e Renato Terra. Com produção da Record Entretenimento, o filme aprofunda a noite do 3º Festival de Música Popular Brasileira, que se tornou um dos grandes marcos na história da TV e, claro, da música tupiniquim.

Com vasto material audiovisual, acompanhamos os bastidores e apresentações daquela noite de outubro de 1967 no antigo Teatro Paramount (atual Teatro Abril, localizado em São Paulo), que levou artistas, até então, não muito conhecidos pelo público, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, o grupo Os Mutantes, além de Chico Buarque, que já havia se consagrado no Festival no ano anterior com A Banda e Roberto Carlos, grande sucesso da Jovem Guarda há alguns anos.


É curioso observar tais músicos, hoje renomados e ícones da MPB, no auge dos seus vinte e poucos anos, declarando nas entrevistas de hoje quão apavorados estavam naquela noite, em um evento na qual a plateia era – se não mais – tão importante quanto os artistas. Vaiava, xingava, cantava, aplaudia, tudo com a intensidade capaz de intimidar qualquer artista.

Naquela noite, o intimidado foi o cantor Sérgio Ricardo, com Beto Bom de Bola que, irritado com as vaias constantes da plateia, quebrou o violão, jogou os restos sobre o público e foi desclassificado. E esse público como instituição do festival tinha uma importância massiva, também retratada no documentário.


Nos depoimentos, figuras lembradas até hoje por um dos mais bem-sucedidos programas da televisão brasileira, que era de exclusividade da Rede Record: Solano Ribeiro, o grande realizador do festival e Paulinho Machado de Carvalho, diretor da TV Record, bem como jurados e os próprios artistas, todos relembrando a grande importância do evento para suas carreiras.

Com imagens dos entrevistadores Randal Juliano e Cidinha Campos, que faziam perguntas – muitas vezes embaraçosas – aos artistas antes ou depois de suas apresentações, observa-se o conflito de gerações, de como os artistas são vistos hoje e como eram vistos no passado.  Roberto Carlos, por exemplo, tinha uma torcida preparada para vaiá-lo na apresentação, justamente por ser um membro da Jovem Guarda, movimento que ia de desencontro ao considerado “música brasileira”. O curioso é que o público gostou e mudou seu conceito com relação ao hoje Rei.


Assim, acompanhamos as apresentações da época junto de declarações atuais dos personagens deste evento brasileiro tão significativo. Edu Lobo ficou com o primeiro lugar daquele ano com Ponteio (escrita por ele e Capinam), interpretada pelo próprio, além de Marília Medalha e Quarteto Novo, seguido por Domingo no Parque (de Gilberto Gil), apresentada por Gil e Os Mutantes. Já Chico Buarque e sua Roda Viva levaram pra casa o terceiro lugar com a apresentação junto ao MPB-4.

Considerada seu estigma – segundo declarou o próprio Caetano Veloso – a clássica Alegria, Alegria deu ao músico o quarto lugar após interpretação em conjunto com os Beat Boys. O Rei Roberto Carlos ficou com o quinto lugar ao cantar Maria, Carnaval e Cinzas, de Luiz Carlos Paraná. Porém, outro fato curioso que chama a atenção em Uma Noite em 67 é a passeata que alguns artistas fizeram contra a guitarra elétrica. Parece inacreditável, mas o medo vinha da invasão dos EUA no Brasil, que causava um nacionalismo misturado à rebeldia jovem. Nada incomum pra um grupo que, a partir dali, mudaria para sempre a música popular brasileira.

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