Spike Jonze pode ser considerado um camaleão no mundo da Sétima Arte. Diretor, roteirista, produtor e ator, o cineasta norte-americano criou uma sólida, diversificada e extensa carreira audiovisual: foi responsável por videoclipes de artistas como R.E.M., Daft Punk, Chemical Brothers, Beastie Boys, Fatboy Slim e Björk, dirigiu filmes ousados como Quero Ser John Malkovich (1999) e Adaptação (2002) e contou uma bela história de amor futurista com o curta-metragem Estou Aqui (2010).

Porém, sua primeira inserção no mundo das histórias infantis surgiu com Onde Vivem os Monstros (Where The Wild Things Are, 2009), adaptação homônima do best-seller de Maurice Sendak     que vem cativando crianças do mundo todo desde 1963. Adaptado por Jonze e Dave Eggers  (Distante Nós Vamos), o filme agradou crítica e público, sendo considerada uma adaptação fiel do universo criado por Sendak.

Onde Vivem os Monstros acompanhamos Max (Max Records), um garoto solitário que mora com a mãe Connie (Catherine Keener) e a irmã adolescente Claire (Pepita Emmerichs). Incompreendido e com uma alma livre, o menino inventa as mais originais histórias para se entreter em seu mundo. Como qualquer criança, Max tenta se divertir sozinho, se fantasia de monstro e não compreende o mundo dos adultos, embora o observe com atenção.

Então, após uma briga com a mãe, o garoto foge e vai parar em uma floresta, onde vivem sete monstros: o líder do bando Carol (voz de James Gandolfini), passando pela adorável K.W. (Lauren Ambrose), o calmo Ira (Forest Whitaker), o tímido Alex (Paul Dano), a tempestiva Judith (Catherine O’Hara), o apaziguador Douglas (Chris Cooper) e o misterioso Bernard (Michael Berry Jr.). Para conquistar os monstros, Max diz que é um rei e logo é coroado pelas criaturas para comandar o grupo. Porém, para o garoto, o fato de encontrar sua liberdade e fazer amigos são o que lhe importam, sem regras e passando por grandes momentos de aventura, amizade e aprendizado.


O curioso de Onde Vivem os Monstros é que acredita-se, de fato, nos monstros que são mostrados na tela. A manipulação dos bonecos aliada aos efeitos especiais de qualidade passam uma sensação de verdade, até pela pureza dos monstrengos, cada qual com sua personalidade bastante definida. E aos adultos que acreditam ser um filme para crianças, pode estar enganado, até porque nos identificamos com Max (afinal, quem não foi criança?).

Com ótima interpretação do ator mirim Max Records e a direção segura e precisa de Jonze, o filme traz um ritmo delicioso, tornando a “epopéia” do garoto em um programa recheado de emoção, lirismo e humor. Espirituosos, os monstros complementam a pureza de Max e permitem que sejam tratados temas universais e atemporais, como solidão, os problemas de quando se é criança e a sensação de não se encaixar no mundo. Jonze faz tudo isso com maestria, mostrando com delicadeza a visão de uma criança em um mundo tão diferente do seu e, ao mesmo tempo, tão igual.


E nesta competente transposição do universo do livro de Sendak, o diretor ganha na trilha sonora bem construída o casamento perfeito das situações – dramáticas, engraçadas e aventureiras – vividas por Max e os monstros. Com cenas de ação que empolgam, o filme traz a mensagem de que nenhuma família é perfeita e que cada uma tem seus defeitos e qualidades. E assim, o que fica quando se cresce é a lembrança das experiências que se teve, sejam elas reais ou imaginárias. Mas não importa, porque o doce gosto da saudade pode ser o mesmo.

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