Enquanto o escritor José Saramago (1922 – 2010) escrevia o livro A Memória do Elefante, que começou em 2006 e teve seu lançamento em 2008, o diretor e roteirista português Miguel Gonçalves Mendes (D. Nieves, Floripes, A Batalha dos Três Reis) pôs em prática um de seus mais ambiciosos projetos: o documentário José e Pilar (José & Pilar, Portugal, Espanha, Brasil, 2010).

Retratando o relacionamento do escritor com sua esposa, a jornalista espanhola Maria Del Pilar Del Rio Sánchez, o projeto é, antes de mais nada, uma história de amor. Não tem a pretensão – nem o objetivo – de traçar um perfil da carreira e vida do vencedor do prêmio Nobel José Saramago ou coletar entrevistas de pessoas próximas ao escritor, mas sim esmiuçar de forma profunda e intimista o mundo que dividia com Pilar.


Acompanhando a rotina do casal em sua casa na ilha de Lanzarote, na Espanha, José e Pilar aproxima- se tanto do casal que nós espectadores temos a sensação palpável de fazer parte daquele universo. Do café da manhã, do almoço, da organização de Pilar acerca dos compromissos do marido e uma intimidade nunca vista em toda a vida de Saramago, conhecido por seu comportamento reservado.

Amado por muitos e odiado por tantos outros, Saramago nunca teve o reconhecimento merecido em sua própria terra. Seu ateísmo convicto o levou a criticar fortemente a religião em suas obras, fazendo com que grande parte de Portugal, país mais religioso da Europa, o visse com maus olhos. E nesta espécie de diário, José e Pilar mostra como aquele homem, aos 64 anos, conheceu o grande amor de sua vida, 28 anos mais jovem que ele e que lhe acompanhou até o final de sua vida.


Com discussões sobre política, as artes, o amor, a morte, a natureza, o mundo do etéreo, entre outros, Saramago e Pilar se expõem em uma afinidade que impressiona, mesmo quando as opiniões são completamente divergentes. E nesse caldeirão de pensamentos e ensinamentos, o supra-sumo do que é Saramago e Pilar parece estar ali, reiterando o ditado que “por trás de todo grande homem, há uma grande mulher”.

Entre as homenagens, prêmios e outra enxurrada de compromissos – como a ida ao México em 2006 para participar da adaptação teatral de seu livro As Intermitências da Morte – o público segue e (re)descobre o comportamento adoravelmente ranzinza de Saramago, com humor mordaz, que mistura infância e inteligência de forma cativante. Pilar, a mulher forte e prudente, tem em sua sensatez as opiniões que formam uma extensão do próprio Saramago, um homem sem papas na língua.

Inseparáveis em todos os incontáveis e exaustivos compromissos, Saramago se via como um homem predestinado a escrever, mesmo com a saúde debilitada. Já tinha outro livro em mente, que ia de desencontro com a rotina incessante que lhe fazia viajar para diversos países, comparecendo a sessões de autógrafos e homenagens intermináveis.


Com momentos de extrema delicadeza – como a cerimônia de casamento para renovar os votos e o lançamento de Ensaio Sobre a Cegueira no cinema -, o documentário traz momentos mais dramáticos do escritor, como a saúde debilitada que o fez permanecer internado por um mês entre dezembro de 2007 e janeiro de 2008.

A direção segura e a trilha intimista dão a José e Pilar o respeito que os dois personagens merecem, de uma vida cúmplice que, mesmo tardia, gerou uma grande história de amor e sucesso. E, em relação à Pilar, “aquela que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar” (conforme diz em sua dedicatória na autobiografia Pequenas Memórias), Saramago só queria duas coisas: tempo e vida. E o filme lhe presta essa homenagem, mostrando que verdadeiras histórias de amor podem, sim, sair dos livros e acontecer na vida real.

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