Eis que, vinte anos depois de sua última inserção no cinema, com a direção do curta Carnaval (1990), Arnaldo Jabor volta para atrás das câmeras com A Suprema Felicidade, assinando também o roteiro a quatro mãos com  Ananda Rubinstein. O filme é, antes de mais nada, um retorno nostálgico do escritor e diretor à sua infância e adolescência, por mais que não seja explicitamente considerado autobiográfico.

Acompanhamos a história de Paulinho, um garoto nascido nos final dos anos 30 (Jabor nasceu em 1940) durante sua infância, adolescência e juventude. Aos oito anos (papel de Caio Manhente), o garoto acompanha o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945 junto do pai Marcos (Dan Stulbach), um militar frustrado da Aeronáutica, e da mãe Sofia (Mariana Lima), uma cantora não-profissional submissa ao marido.


Aluno de um rígido colégio de padres, o garoto vai crescer sendo instruído que sexo é um pecado que não deve ser praticado. Porém, os hormônios se afloram, especialmente na adolescência (papel do apático Michel Joelsas, de O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias). Enquanto vai crescendo, Paulinho vai acompanhando a crise no relacionamento dos pais (a mãe quer trabalhar, mas o machismo e fracasso do pai a impedem) e os personagens que o marcaram naquela região do Rio de Janeiro. Do desbocado pipoqueiro Benê (João Miguel) e seus trocadilhos sexuais, passando pelo jornaleiro Sr. Joaquim (Emiliano Queiroz), além de participações rápidas de atores renomados como Ary Fontoura, Maria Luísa Mendonça e Jorge Loredo (eternizado pelo seu personagem Zé Bonitinho que aqui faz o padre regente do coral).

Embora A Suprema Felicidade trate da vida de Paulinho durante mais de uma década, a alma do filme pertence a Marco Nanini, que rouba a cena como Noel, o avô. Sempre com terno branco e chapéu de palha, o ator é o puro retrato do boêmio espirituoso . Já como a mulher de Noel, está Elke Maravilha, quase irreconhecível sem seus espalhafatosos figurinos e maquiagem.


E nessa aura dos anos 40, Jabor explora a relação de Noel com o neto, de como “a vida gosta de quem gosta dela”, fazendo de A Suprema Felicidade uma espécie de feel-good movie. Das marchinhas dos carnavais de rua e bordéis ao glamour dos grandes bailes, o filme traz figurino, fotografia e direção de arte de encher os olhos.  Com esse vai e vem no tempo, a segunda parte do longa mostra as aventuras de Paulinho aos 19 anos junto ao melhor amigo Cabeção (César Cardadeiro), este em uma trama delicada e dramática.

Jabor explora a vida do jovem Paulinho através das mulheres que passam por sua vida, como a cantora Deise (Maria Flor) e a stripper Marilyn (a estonteante Tammy Di Calafiori), em homenagem ao símbolo sexual Marilyn Monroe. Inclusive, como não poderia deixar de ser, Jabor usa e abusa da sexualidade no longa, incluindo uma ousada cena de nudez com a global Tammy.


Embora a trama de certos personagens fique incompleta, o diretor faz disso uma alusão à própria vida. Afinal, muitas pessoas entram em nossas vidas, mas somente algumas permanecem, fazendo com que desconheçamos o destino que levaram. Nessa declaração de amor ao passado, Jabor conduz com competência, apesar de alguns diálogos interpretados como declamações e um teor melodramático desmedido e desnecessário façam com que certas situações se tornem risíveis ao invés de emocionar.

O resultado final, no entanto, acaba sendo positivo, captando esse sentimento de felicidade como momentos e não como estado permanente. E tal vontade de viver ultrapassa tudo: a idade, a tristeza, a lucidez, as desilusões, a saudade, o tempo, a perda de lembranças, da inocência, o medo do fim e outras delícias e dilemas da vida. Mas neste filme repleto de personagens que vivem o presente, não se preocupam com o futuro e têm uma constante nostalgia do passado, reafirma-se, mais uma vê, que o poeta Drummond estava certo ao dizer que “as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão…”.

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