novembro 2010


Em 1961, um grupo de diretores de classe média e universitários se reuniu para realizar o filme 5 x Favela. Com verbas do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (UNE), a iniciativa revelou nomes como Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirzman e Cacá Diegues. Mostrando as várias facetas das comunidades pobres, o filme teve, 49 anos depois, uma espécie de retomada do tema, com um detalhe extremamente relevante: todos os realizadores saíram da própria favela. O resultado é 5 x Favela – Agora por Nós Mesmos.

Com pré-estreia no Festival de Cannes deste ano, o longa traz cinco episódios independentes que mostram personagens em tramas que se desenrolam nas favelas do Rio de Janeiro, com roteiros que se destacaram e foram supervisionados por Rafael Dragaud. Com algumas escorregadas em sua trama, direção ou  roteiro, o que vale em todos episódios é a veracidade das histórias, retratadas com impressionante realismo.


Em Fonte de Renda, dirigido por Maíra Carneiro e Wagner Novais, acompanhamos a história de Maicon (Silvio Guindane), um estudante de Direito. Morando com a mãe e o irmão mais novo, ele trabalha em uma padaria para bancar os estudos. Porém, o emprego não é suficiente para arcar com despesas como transporte e livros. Primeiro aluno da sala, ele se torna amigo de Edu (Gregório Duvivier), um rapaz de classe média alta e usuário de drogas que lhe oferece dinheiro para que ele consiga na favela as substâncias que ele quer. Mesmo à contragosto, Maicon  se arrisca para, assim, conseguir realizar o grande sonho de se formar na universidade. Acompanhado de perto por Dos Santos (Hugo Carvana), um ex-policial amigo da família, o transporte de drogas acarreta um incidente que beira a tragédia.

No episódio Arroz e Feijão, o humor infantil é bem trabalhado pela dupla de diretores Rodrigo Felha e Cacau Amaral. Ao ouvir que Raimundo (Flavio Bauraqui) está cansado de comer arroz e feijão todos os dias, o menino Wesley (Juan Paiva) se une ao melhor amigo Orelha (Pablo Vinicius, ótimo) para conseguir dinheiro e, assim, comprar um frango para o jantar de aniversário do pai. Buscando soluções para conseguir o dinheiro, como limpar a rua e lavar carros, o episódio traz um ritmo dinâmico e diálogos bem construídos, com ótimo timing no humor, que envolve os dois personagens infantis.


Já em Concerto de Violino, o mais dramático dos episódios, os diretor Luciano Vidigal mostra a vida de três amigos de infância que, adultos tomaram rumos diferentes. Ademir (Samuel de Assis) se tornou um policial, Marcinha (Cintia Rosa) é uma musicista que toca violino e almeja uma bolsa de estudos na Europa, e Jota (Thiago Martins) acabou indo para o crime e se tornou um traficante. Quando um assalto coloca Jota e Ademir em confronto, a vida dos três será marcada pela tragédia e pela nostalgia de uma amizade que era considerada eterna. Permeado pela música clássica (a bela Canon in D, de Johann Pachelbel), o episódio mistura violência e poesia em uma drama que, por si só, é feito para emocionar.


Dirigido por Cadu Barcellos, Deixa Voar traz Flávio (Vitor Carvalho), um adolescente que se junta aos amigos para soltar pipa. Porém, quando o objeto cai no Alemão, uma comunidade rival, o rapaz é obrigado a ir até lá para buscá-lo. O mais curioso deste episódio é mostrar como mundos tão próximos podem ser tão diferentes, pois Flávio se sente um estrangeiro dentro de um mundo tão próximo e parecido com o dele. Porém, desbravar esse lugar pode ser sua chance de se aproximar ainda mais de Carol (Joyce Lohanne), uma amiga de colégio.


No último e mais espirituoso dos episódios, a diretora Luciana Bezerra ameniza o clima de violência e pobreza com Acende a Luz, que mostra uma comunidade que, na véspera do Natal, está sem luz. Porém, pela dificuldade de acesso e descaso dos funcionários da empresa de energia, os moradores intimam o prestativo Lopes (Márcio Vito), obrigando-o a dar um jeito de não deixar o Natal às escuras. Entre os personagens estão a espirituosa dona Maria (Fátima Domingues), o malandro Cimar (João Carlos Artigos) e a tempestuosa Lica (Dila Guerra) que, com muito humor, precisam se impor para serem respeitados.

Com produção de Diegues e dedicado a Leon Hirzman, 5 x Favela – Agora por Nós Mesmos tem pontos fortemente positivos, como levar aqueles que não conhecem para o centro, o dia a dia daquelas pessoas, cuja realidade é tão próxima e tão distante ao mesmo tempo. Assim, vamos acompanhando histórias que mostram que nas comunidades também moram pessoas de bem, não apenas bandidos e traficantes (e muitos brasileiros ainda creem nisso, infelizmente). Assim, o filme apresenta esse universo com suas músicas (a trilha é repleta de funk), seu jeito de falar, seu comportamento e, acima de tudo, como vive e sobrevive essa grande parcela da população que não quer entrar nas estatísticas do crime.

 

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Considerado o segundo mais caro filme brasileiro da história, Lula – O Filho do Brasil custou cerca de R$ 16 milhões (perde, apenas, para os R$ 20 mi de Nosso Lar) e retrata a trajetória de Luis Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil entre 2003 e 2010. A obra é uma adaptação do romance homônimo escrito por Denise Paraná, que co-assina o roteiro junto a Fernando Bonassi e Daniel Tendler.
Em 1945, em Caetés, no sertão de Pernambuco, Eurídice, mais conhecida como dona Lindu (Glória Pires) é casada com Aristides (Milhem Cortaz), um homem violento e alcoólatra. Quando ele foge com a amante grávida para São Paulo, ela fica com os seis filhos pequenos, já esperando uma sétima criança. Esta, batizada Luis Inácio, seria o penúltimo dos filhos vivos de Lindu, que teria mais uma menina depois de Lula.


Na miséria e abandono do sertão, Eurídice cuida dos filhos, até ser chamada pelo ex-marido para ir a São Paulo com todos os filhos. Em 13 dias de viagem na boléia de um caminhão, ela desembarca em 1952 no porto de Santos, no litoral paulista. Lula (interpretado pelo carismático Felipe Falanga na infância e por Guilherme Tortólio na adolescência) conhece o pai somente aos sete anos e enfrenta este homem que se tornou cada vez mais violento e ignorante, impedindo até que os filhos frequentem a escola. Cansada do comportamento de Aristides, Lindu o abandona e se muda para a Vila Carioca, no bairro do Ipiranga.

A partir dali, Lula se especializa como torneiro mecânico e, em 1963, já começa a se envolver no sindicalismo, influenciado pelo irmão Ziza (Sóstenes Vidal). É instaurado o Regime Militar em 1964 e os confrontos entre militares e sindicalistas se intensificam por conta das exigências de reformas bancária, trabalhista, política e fiscal. Casado com Lurdinha (Cléo Pires), Lula (interpretado na fase adulta pelo ótimo Rui Ricardo Diaz) está prestes a ser pai, mas sofre com a perda do filho e da mulher durante o parto.


Assim, Lula se joga no sindicalismo para evitar seu sofrimento, com discursos cada vez mais calorosos e uma disposição sem medidas.  Já em 1974, casa-se com Marisa (Juliana Barone), com quem está até hoje. Porém, vai ganhando ainda mais força e começa a incomodar muito a Ditadura, especialmente pela greve dos 5 mil em 1977, que sitia o estádio na qual ocorria a assembléia.  Isso acarreta na tortura de Ziza e da prisão de Lula no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), que só tem permissão para sair por conta do enterro da mãe, permanecendo ali até 1980.

Lula – O Filho do Brasil não trilha toda a trajetória do atual presidente. Acompanhamos, na verdade, a vida de Lula antes de ele entrar para a política (ele foi eleito deputado federal em 1986), além de suas três tentativas de eleição à Presidência da República (1989, 1994 e 1998). Finalmente, em 2002, é eleito e assume o cargo no início de 2003, além de ser reeleito em 2006.


Um grande destaque do filme é dona Lindu (o nome do filme, inclusive, faz uma analogia com relação a essa relação de Lula com a mãe). Mais importante pessoa na trajetória do personagem, o filme traz uma interpretação primorosa de Glória Pires, que se destaca e emociona ao atuar com Diaz, que interpreta o personagem com impressionante semelhança, desde a aparência física passando pelo modo rouco de falar e a língua presa (ambas características que, segundo o filme, aparecem no decorrer da vida de Lula).

Feito para emocionar, Lula – O Filho do Brasil foi o filme indicado pelo Brasil para concorrer a uma das vagas de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2011 (lembrando que, após a retomada do cinema brasileiro na década de 90, O Quatrilho, também dirigido por Barreto, foi indicado ao Oscar). Com direção correta, a bem trabalhada trilha sonora com predomínio de violinos e um personagem que se tornou um dos mais influentes líderes políticos do século 21, Lula – O Filho do Brasil retratou um homem que saiu da miséria e se tornou presidente de uma nação. Na dedicatória durante sua posse no dia 1º de janeiro de 2003, Lula dedicou sua maior conquista à sua mãe. E para um homem filho do Brasil, nada mais justo que ter uma mãe como dona Lindu. E vice versa.

Enquanto o escritor José Saramago (1922 – 2010) escrevia o livro A Memória do Elefante, que começou em 2006 e teve seu lançamento em 2008, o diretor e roteirista português Miguel Gonçalves Mendes (D. Nieves, Floripes, A Batalha dos Três Reis) pôs em prática um de seus mais ambiciosos projetos: o documentário José e Pilar (José & Pilar, Portugal, Espanha, Brasil, 2010).

Retratando o relacionamento do escritor com sua esposa, a jornalista espanhola Maria Del Pilar Del Rio Sánchez, o projeto é, antes de mais nada, uma história de amor. Não tem a pretensão – nem o objetivo – de traçar um perfil da carreira e vida do vencedor do prêmio Nobel José Saramago ou coletar entrevistas de pessoas próximas ao escritor, mas sim esmiuçar de forma profunda e intimista o mundo que dividia com Pilar.


Acompanhando a rotina do casal em sua casa na ilha de Lanzarote, na Espanha, José e Pilar aproxima- se tanto do casal que nós espectadores temos a sensação palpável de fazer parte daquele universo. Do café da manhã, do almoço, da organização de Pilar acerca dos compromissos do marido e uma intimidade nunca vista em toda a vida de Saramago, conhecido por seu comportamento reservado.

Amado por muitos e odiado por tantos outros, Saramago nunca teve o reconhecimento merecido em sua própria terra. Seu ateísmo convicto o levou a criticar fortemente a religião em suas obras, fazendo com que grande parte de Portugal, país mais religioso da Europa, o visse com maus olhos. E nesta espécie de diário, José e Pilar mostra como aquele homem, aos 64 anos, conheceu o grande amor de sua vida, 28 anos mais jovem que ele e que lhe acompanhou até o final de sua vida.


Com discussões sobre política, as artes, o amor, a morte, a natureza, o mundo do etéreo, entre outros, Saramago e Pilar se expõem em uma afinidade que impressiona, mesmo quando as opiniões são completamente divergentes. E nesse caldeirão de pensamentos e ensinamentos, o supra-sumo do que é Saramago e Pilar parece estar ali, reiterando o ditado que “por trás de todo grande homem, há uma grande mulher”.

Entre as homenagens, prêmios e outra enxurrada de compromissos – como a ida ao México em 2006 para participar da adaptação teatral de seu livro As Intermitências da Morte – o público segue e (re)descobre o comportamento adoravelmente ranzinza de Saramago, com humor mordaz, que mistura infância e inteligência de forma cativante. Pilar, a mulher forte e prudente, tem em sua sensatez as opiniões que formam uma extensão do próprio Saramago, um homem sem papas na língua.

Inseparáveis em todos os incontáveis e exaustivos compromissos, Saramago se via como um homem predestinado a escrever, mesmo com a saúde debilitada. Já tinha outro livro em mente, que ia de desencontro com a rotina incessante que lhe fazia viajar para diversos países, comparecendo a sessões de autógrafos e homenagens intermináveis.


Com momentos de extrema delicadeza – como a cerimônia de casamento para renovar os votos e o lançamento de Ensaio Sobre a Cegueira no cinema -, o documentário traz momentos mais dramáticos do escritor, como a saúde debilitada que o fez permanecer internado por um mês entre dezembro de 2007 e janeiro de 2008.

A direção segura e a trilha intimista dão a José e Pilar o respeito que os dois personagens merecem, de uma vida cúmplice que, mesmo tardia, gerou uma grande história de amor e sucesso. E, em relação à Pilar, “aquela que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar” (conforme diz em sua dedicatória na autobiografia Pequenas Memórias), Saramago só queria duas coisas: tempo e vida. E o filme lhe presta essa homenagem, mostrando que verdadeiras histórias de amor podem, sim, sair dos livros e acontecer na vida real.

Eis que, vinte anos depois de sua última inserção no cinema, com a direção do curta Carnaval (1990), Arnaldo Jabor volta para atrás das câmeras com A Suprema Felicidade, assinando também o roteiro a quatro mãos com  Ananda Rubinstein. O filme é, antes de mais nada, um retorno nostálgico do escritor e diretor à sua infância e adolescência, por mais que não seja explicitamente considerado autobiográfico.

Acompanhamos a história de Paulinho, um garoto nascido nos final dos anos 30 (Jabor nasceu em 1940) durante sua infância, adolescência e juventude. Aos oito anos (papel de Caio Manhente), o garoto acompanha o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945 junto do pai Marcos (Dan Stulbach), um militar frustrado da Aeronáutica, e da mãe Sofia (Mariana Lima), uma cantora não-profissional submissa ao marido.


Aluno de um rígido colégio de padres, o garoto vai crescer sendo instruído que sexo é um pecado que não deve ser praticado. Porém, os hormônios se afloram, especialmente na adolescência (papel do apático Michel Joelsas, de O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias). Enquanto vai crescendo, Paulinho vai acompanhando a crise no relacionamento dos pais (a mãe quer trabalhar, mas o machismo e fracasso do pai a impedem) e os personagens que o marcaram naquela região do Rio de Janeiro. Do desbocado pipoqueiro Benê (João Miguel) e seus trocadilhos sexuais, passando pelo jornaleiro Sr. Joaquim (Emiliano Queiroz), além de participações rápidas de atores renomados como Ary Fontoura, Maria Luísa Mendonça e Jorge Loredo (eternizado pelo seu personagem Zé Bonitinho que aqui faz o padre regente do coral).

Embora A Suprema Felicidade trate da vida de Paulinho durante mais de uma década, a alma do filme pertence a Marco Nanini, que rouba a cena como Noel, o avô. Sempre com terno branco e chapéu de palha, o ator é o puro retrato do boêmio espirituoso . Já como a mulher de Noel, está Elke Maravilha, quase irreconhecível sem seus espalhafatosos figurinos e maquiagem.


E nessa aura dos anos 40, Jabor explora a relação de Noel com o neto, de como “a vida gosta de quem gosta dela”, fazendo de A Suprema Felicidade uma espécie de feel-good movie. Das marchinhas dos carnavais de rua e bordéis ao glamour dos grandes bailes, o filme traz figurino, fotografia e direção de arte de encher os olhos.  Com esse vai e vem no tempo, a segunda parte do longa mostra as aventuras de Paulinho aos 19 anos junto ao melhor amigo Cabeção (César Cardadeiro), este em uma trama delicada e dramática.

Jabor explora a vida do jovem Paulinho através das mulheres que passam por sua vida, como a cantora Deise (Maria Flor) e a stripper Marilyn (a estonteante Tammy Di Calafiori), em homenagem ao símbolo sexual Marilyn Monroe. Inclusive, como não poderia deixar de ser, Jabor usa e abusa da sexualidade no longa, incluindo uma ousada cena de nudez com a global Tammy.


Embora a trama de certos personagens fique incompleta, o diretor faz disso uma alusão à própria vida. Afinal, muitas pessoas entram em nossas vidas, mas somente algumas permanecem, fazendo com que desconheçamos o destino que levaram. Nessa declaração de amor ao passado, Jabor conduz com competência, apesar de alguns diálogos interpretados como declamações e um teor melodramático desmedido e desnecessário façam com que certas situações se tornem risíveis ao invés de emocionar.

O resultado final, no entanto, acaba sendo positivo, captando esse sentimento de felicidade como momentos e não como estado permanente. E tal vontade de viver ultrapassa tudo: a idade, a tristeza, a lucidez, as desilusões, a saudade, o tempo, a perda de lembranças, da inocência, o medo do fim e outras delícias e dilemas da vida. Mas neste filme repleto de personagens que vivem o presente, não se preocupam com o futuro e têm uma constante nostalgia do passado, reafirma-se, mais uma vê, que o poeta Drummond estava certo ao dizer que “as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão…”.

A leva de documentários musicais brasileiros não para. Um dos mais recentes resultados dessa safra é Uma Noite em 67, dirigido por Ricardo Calil e Renato Terra. Com produção da Record Entretenimento, o filme aprofunda a noite do 3º Festival de Música Popular Brasileira, que se tornou um dos grandes marcos na história da TV e, claro, da música tupiniquim.

Com vasto material audiovisual, acompanhamos os bastidores e apresentações daquela noite de outubro de 1967 no antigo Teatro Paramount (atual Teatro Abril, localizado em São Paulo), que levou artistas, até então, não muito conhecidos pelo público, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, o grupo Os Mutantes, além de Chico Buarque, que já havia se consagrado no Festival no ano anterior com A Banda e Roberto Carlos, grande sucesso da Jovem Guarda há alguns anos.


É curioso observar tais músicos, hoje renomados e ícones da MPB, no auge dos seus vinte e poucos anos, declarando nas entrevistas de hoje quão apavorados estavam naquela noite, em um evento na qual a plateia era – se não mais – tão importante quanto os artistas. Vaiava, xingava, cantava, aplaudia, tudo com a intensidade capaz de intimidar qualquer artista.

Naquela noite, o intimidado foi o cantor Sérgio Ricardo, com Beto Bom de Bola que, irritado com as vaias constantes da plateia, quebrou o violão, jogou os restos sobre o público e foi desclassificado. E esse público como instituição do festival tinha uma importância massiva, também retratada no documentário.


Nos depoimentos, figuras lembradas até hoje por um dos mais bem-sucedidos programas da televisão brasileira, que era de exclusividade da Rede Record: Solano Ribeiro, o grande realizador do festival e Paulinho Machado de Carvalho, diretor da TV Record, bem como jurados e os próprios artistas, todos relembrando a grande importância do evento para suas carreiras.

Com imagens dos entrevistadores Randal Juliano e Cidinha Campos, que faziam perguntas – muitas vezes embaraçosas – aos artistas antes ou depois de suas apresentações, observa-se o conflito de gerações, de como os artistas são vistos hoje e como eram vistos no passado.  Roberto Carlos, por exemplo, tinha uma torcida preparada para vaiá-lo na apresentação, justamente por ser um membro da Jovem Guarda, movimento que ia de desencontro ao considerado “música brasileira”. O curioso é que o público gostou e mudou seu conceito com relação ao hoje Rei.


Assim, acompanhamos as apresentações da época junto de declarações atuais dos personagens deste evento brasileiro tão significativo. Edu Lobo ficou com o primeiro lugar daquele ano com Ponteio (escrita por ele e Capinam), interpretada pelo próprio, além de Marília Medalha e Quarteto Novo, seguido por Domingo no Parque (de Gilberto Gil), apresentada por Gil e Os Mutantes. Já Chico Buarque e sua Roda Viva levaram pra casa o terceiro lugar com a apresentação junto ao MPB-4.

Considerada seu estigma – segundo declarou o próprio Caetano Veloso – a clássica Alegria, Alegria deu ao músico o quarto lugar após interpretação em conjunto com os Beat Boys. O Rei Roberto Carlos ficou com o quinto lugar ao cantar Maria, Carnaval e Cinzas, de Luiz Carlos Paraná. Porém, outro fato curioso que chama a atenção em Uma Noite em 67 é a passeata que alguns artistas fizeram contra a guitarra elétrica. Parece inacreditável, mas o medo vinha da invasão dos EUA no Brasil, que causava um nacionalismo misturado à rebeldia jovem. Nada incomum pra um grupo que, a partir dali, mudaria para sempre a música popular brasileira.

Spike Jonze pode ser considerado um camaleão no mundo da Sétima Arte. Diretor, roteirista, produtor e ator, o cineasta norte-americano criou uma sólida, diversificada e extensa carreira audiovisual: foi responsável por videoclipes de artistas como R.E.M., Daft Punk, Chemical Brothers, Beastie Boys, Fatboy Slim e Björk, dirigiu filmes ousados como Quero Ser John Malkovich (1999) e Adaptação (2002) e contou uma bela história de amor futurista com o curta-metragem Estou Aqui (2010).

Porém, sua primeira inserção no mundo das histórias infantis surgiu com Onde Vivem os Monstros (Where The Wild Things Are, 2009), adaptação homônima do best-seller de Maurice Sendak     que vem cativando crianças do mundo todo desde 1963. Adaptado por Jonze e Dave Eggers  (Distante Nós Vamos), o filme agradou crítica e público, sendo considerada uma adaptação fiel do universo criado por Sendak.

Onde Vivem os Monstros acompanhamos Max (Max Records), um garoto solitário que mora com a mãe Connie (Catherine Keener) e a irmã adolescente Claire (Pepita Emmerichs). Incompreendido e com uma alma livre, o menino inventa as mais originais histórias para se entreter em seu mundo. Como qualquer criança, Max tenta se divertir sozinho, se fantasia de monstro e não compreende o mundo dos adultos, embora o observe com atenção.

Então, após uma briga com a mãe, o garoto foge e vai parar em uma floresta, onde vivem sete monstros: o líder do bando Carol (voz de James Gandolfini), passando pela adorável K.W. (Lauren Ambrose), o calmo Ira (Forest Whitaker), o tímido Alex (Paul Dano), a tempestiva Judith (Catherine O’Hara), o apaziguador Douglas (Chris Cooper) e o misterioso Bernard (Michael Berry Jr.). Para conquistar os monstros, Max diz que é um rei e logo é coroado pelas criaturas para comandar o grupo. Porém, para o garoto, o fato de encontrar sua liberdade e fazer amigos são o que lhe importam, sem regras e passando por grandes momentos de aventura, amizade e aprendizado.


O curioso de Onde Vivem os Monstros é que acredita-se, de fato, nos monstros que são mostrados na tela. A manipulação dos bonecos aliada aos efeitos especiais de qualidade passam uma sensação de verdade, até pela pureza dos monstrengos, cada qual com sua personalidade bastante definida. E aos adultos que acreditam ser um filme para crianças, pode estar enganado, até porque nos identificamos com Max (afinal, quem não foi criança?).

Com ótima interpretação do ator mirim Max Records e a direção segura e precisa de Jonze, o filme traz um ritmo delicioso, tornando a “epopéia” do garoto em um programa recheado de emoção, lirismo e humor. Espirituosos, os monstros complementam a pureza de Max e permitem que sejam tratados temas universais e atemporais, como solidão, os problemas de quando se é criança e a sensação de não se encaixar no mundo. Jonze faz tudo isso com maestria, mostrando com delicadeza a visão de uma criança em um mundo tão diferente do seu e, ao mesmo tempo, tão igual.


E nesta competente transposição do universo do livro de Sendak, o diretor ganha na trilha sonora bem construída o casamento perfeito das situações – dramáticas, engraçadas e aventureiras – vividas por Max e os monstros. Com cenas de ação que empolgam, o filme traz a mensagem de que nenhuma família é perfeita e que cada uma tem seus defeitos e qualidades. E assim, o que fica quando se cresce é a lembrança das experiências que se teve, sejam elas reais ou imaginárias. Mas não importa, porque o doce gosto da saudade pode ser o mesmo.