No dia 18 de agosto de 1992, em um parque do Alaska, nos EUA, o corpo de Christopher McCandless, de 24 anos, foi encontrado sem vida. O jovem, oriundo de uma família de classe média alta, tinha decidido, dois anos antes, largar tudo o que tinha para uma viagem de encontro à natureza. Após se formar em História e Antropologia na universidade Emory, no estado da Virgínia, Chris doou seus US$ 24 mil a instituições de caridade e fugiu no mundo, sem avisar os pais ou a irmã. Começava uma jornada de dois anos, que ficou documentada no livro de Jon Krakauer, escrito em 1996.

O ator, roteirista e diretor Sean Penn (A Promessa, Acerto Final), decidiu transpor a história real de Chris para o cinema e, baseado no romance de Krakauer, digiriu o filme homônimo: Na Natureza Selvagem. O livro, que continha os diários de viagem de Chris – que após abandonar a civilização, se intitulou Alex Supertramp – trazia detalhes das aventuras vividas pelo jovem.


Assim, o filme acompanha Chris (Emile Hirsch, de Milk, Speed Racer – O Filme) logo após se formar e abandonar os pais conservadores, Walt (William Hurt) e Billie (Marcia Gay Harden), além da irmã Carine (Jena Malone) em busca de seu sonho: chegar ao quase inóspito estado do Alaska. Narrado por Carine, vemos uma paixão desmedida pela natureza através dos olhos do, então, Alex Supertramp pelos confins dos EUA.

Assim, vemos o rapaz vivendo da forma mais rústica possível, se alimentando de sua própria caça, enfrentando frio e longe da civilização. Ele, que sentia estar passando por uma existência vazia, descobre na natureza a liberdade, beleza e transgressão que lhe faltava. E essa “alma selvagem” é trazida com verdade na tela, com capítulos divididos em: Nascimento, Adolescência, Maturidade, Família e Sabedoria.  Logo, vemos o nascer de um novo Chris McCandless. Ou melhor, o nascimento de Alex Supertramp e sua batalha física e psicológica de sobreviver sozinho em meio à natureza.

Nesses dois anos que passou atravessando os EUA em direção ao Alaska sem se comunicar com nenhum familiar ou amigo, Alex conhece diversas pessoas que marcarão sua vida: seja Wayne Westerberg (Vince Vaughn) que lhe dá um emprego, o simpático casal Jan (Catherine Keener) e Rainey (Brian Dierker) ou a bela cantora Tracy (Kristen Stewart, antes de despontar de vez ao estrelato com a saga Crepúsculo). Convivendo com cada um deles por um curto tempo – afinal, a viagem tem de continuar – Alex aprende e ensina, criando laços fortes com todos eles.


Na Natureza Selvagem é uma espécie de road-movie, com suas belas paisagens, seus personagens cativantes pelo caminho e a saga de um personagem em busca de algo, que talvez nem saiba exatamente o que é, mas persiste em descobrir. Passando pelos apuros e grandes riscos, como os animais selvagens, o frio, a solidão e o medo, Alex vai registrando, semana a semana, sua rotina, pensamentos e divagações deste idealismo desmedido.

Nesse vai e vem no tempo (sempre localizando o espectador temporal e geograficamente), um dos personagens mais interessantes do longa é Ron Franz (papel do lendário Hal Holbrook), um simpático velhinho que fará parte do capítulo final de Alex, intitulado, não por acaso, Sabedoria. E vemos o preço (muitas vezes recompensado) pago pelo jovem para atingir um grau de intimidade com a natureza que poucos viveram – e viverão – em suas vidas.


Porém, os maiores méritos de Na Natureza Selvagem vão além. Do carisma e entrega ao personagem do astro Emile Hirsch, passando pela exata interpretação dos ganhadores do Oscar, William Hurt e Marcia Gay Harden, que passam a angústia necessária dos pais de Alex e a direção segura e bem acabada de Sean Penn, que prende a atenção do espectador mesmo em duas horas e meia de projeção. Isso sem falar da primorosa trilha sonora, composta inteiramente por Eddie Vedder, o renomado vocalista da banda Pearl Jam, que recheou as músicas com arranjos marcantes de violão e sua voz inconfundível

Alternando entre as aventuras do jovem, as belezas naturais das locações e os cativantes personagens secundários, não é de se surpreender que o epílogo de Na Natureza Selvagem traga uma melancolia latente, mas que não resvala no melodrama. E aquele personagem, que acompanhamos por surpreendentes duas horas e meia, cria empatia, seja com aquele que entende seus motivos de se soltar no mundo, seja aquele que não entende. De qualquer forma, não importava para Chris McCandless / Alex Supertramp que alguém entendesse seus motivos . Pois, como ele mesmo diz, “admitir que a vida é guiada pela razão, é destruir a possibilidade de viver”.

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