É fato consumado que a questão gay é temas de diversos documentários, filmes e livros, mas o diretor e roteirista Daniel G. Karslake construiu, em 2007, uma obra que considero indispensável. Como Diz a Bíblia é repleto de conteúdo, depoimentos e imagens de arquivo, necessário a todos os espectadores, não somente entre a esfera LGBT.

Tratando de como a bíblia é lida, equivocadamente, para condenar os homossexuais, Karslake destrincha o assunto de forma genial. Com uso de famílias americanas tradicionais e religiosas que, ao descobrirem ter um gay na família, têm de lidar com isso, o diretor vai alternando as histórias com depoimentos de religiosos e suas considerações em relação ao “livro sagrado” do Cristianismo, religião em vigor há mais de 2000 anos.

Um dos pontos curiosos é como as histórias são traçadas, de famílias que condenavam – ou ainda condenam – a homossexualidade, considerada um desvio moral, religioso e humano segundo algumas das ramificações cristãs mas, mesmo assim, têm de enfrentar (a duras penas ou não) o assunto na prática. Enquanto isso, provido de um arquivo audiovisual impressionante, Karslake vai ilustrando esse preconceito de muitos personagens diante da questão.

Apresentando certas passagens pontuais, os extremistas religiosos tratam de forma categórica certas declarações do livro que, para eles, indicam que a bíblia é contra a homossexualidade e, assim, Deus os classifica como “seres pecadores”. Porém, diversos comportamentos e atitudes, que já foram considerados naturais de acordo com a bíblia, são condenados nos dias atuais, como: escravidão, submissão em relação às mulheres, se alimentar de algo com sangue (animais), não plantar duas sementes diferentes juntas, não vestir dois tipos de tecido ao mesmo tempo, matar quem trabalha aos sábados, poligamia e usura, ou seja, qualquer tipo de forma de obtenção de dinheiro que não viesse com o suor do trabalho. Imaginem se todos os locatários, acionistas e profissionais das empresas de empréstimo de dinheiro fossem para o inferno? Afinal, ganham dinheiro através de investimentos e taxas de juros. Tudo isso é pontualmente tratado e interpretado pelos dois lados da história.

Como Diz a Bíblia traz, também, Jimmy Swaggart, uma das figuras mais emblemáticas contra os gays nos EUA e um dos mais influentes evangelistas do país que, em seus inúmeros  programas de TV, condena abertamente a homossexualidade, considerando-a uma anormalidade ou abominação (palavra repetida inúmeras vezes durante o filme). Outra grande batalha é travada com James Dobson, responsável pela organização Focus on the Family que, se antes tratava de como a importância da família era essencial para qualquer ser humano, hoje se ocupa de maldizer os homossexuais, com declarações como: “Pais, se seus filhos se assumirem gays ou lésbicas, vocês devem mudá-los”.  Dessa leva de “pessoas de Deus” estão, ainda, Anita Bryant (ferrenha perseguidora dos gays nos anos 70) e os ex-presidentes norte-americanos George W. Bush e Ronald Reagan que, dizendo-se tão religiosos, parecem esquecer do princípio: “Ama ao próximo como a ti mesmo”.


Porém, há outro lado da história: reverendos que não condenam a homossexualidade, defendendo e interpretando de outro modo as passagens da bíblia, discordando desta lavagem cerebral em “converter homossexuais”. Acompanhamos, por exemplo, um reverendo gay eleito em uma Igreja Anglicana Episcopal, de New Hampshire (mas que passa a sofrer constantes ameaças de morte após a conquista do cargo). Porém, não basta ser homossexual para não condená-la, ou seja, é possível que heterossexuais possam conviver e respeitar os homossexuais.

Outro forte nome que dá seu parecer em Como Diz a Bíblia é o arcebispo sul-africano Desmond Tutu, premiado com o Prêmio Nobel da Paz em 1984. Bispo da Igreja Anglicana, ele explica “que não significa que a bíblia diz aquilo mas, sim, está sendo lida daquele jeito”. E este conflito de interpretações existe até mesmo entre as ramificações do Cristianismo, como as igrejas batista, pentecostal, betânia, luterana, apostólica romana e por aí vai.

É emocionante acompanhar tais depoimentos e histórias reais do documentário, que aborda as consequências – boas e ruins – das famílias, sem apelar para o melodrama barato, mas sim com algumas pessoas superando esse preconceito e tornando-se parte do ativismo na causa LGBT. Temos o curioso caso, também, do político Dick Gephardt, que concorreu à presidência dos EUA em 1988 e 2004. Pai de uma filha lésbica, ao invés de omitir a homossexualidade de Chrissy, Gephardt deixou claro que ficaria ao lado dela, independente da decisão que ela tomasse. Chrissy, então, assume publicamente a homossexualidade durante a segunda candidatura e os norte-americanos adoram. Mas Gerphardt perde e George W. Bush é reeleito.

“O medo faz coisas terríveis a uma sociedade”. Esta frase, dita de forma tão emblemática em Como Diz a Bíblia, pode ser uma das causas da homofobia entre os religiosos (além dos dogmas do Cristianismo). Afinal, qualquer ser humano tem medo do que não compreende. E quando observa a fundo aquilo que lhe provoca medo – e constata que não há porque temer – o preconceito pode, finalmente, cair por terra.

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