outubro 2010


O cinema argentino já nos deu grandes pérolas da tela grande, como A História Oficial, Lugares Comuns, Nove Rainhas e o vencedor do Oscar 2010, O Segredo dos Seus Olhos, só para citar alguns. Porém, certos filmes argentinos, aparentemente modestos, que aparecem de mansinho em algumas salas de cinema, podem nos surpreender.

O caso mais recente é o filme Dois Irmãos, do argentino Daniel Burman (O Abraço Partido, As Leis de Família, Ninho Vazio, Esperando o Messias), uma história dramática – mas bem humorada –  baseada no romance Villa Laura, de Diego Dubcovsky, com adaptação do diretor e do autor. E Burman constrói em seus dois personagens uma aura de ressentimento e melancolia que, quando encarados de frente, podem nos pegar de surpresa pelo humor.


Susana (Graciela Borges) e Marcos (Antonio Gasalla) são dois irmãos de meia-idade. Completamente diferentes, enquanto Susana se dedica á sua carreira no ramo imobiliário, Marcos cuida da mãe doente. Paciente, educado e dedicado, Marcos é o oposto da irmã, uma perua egoísta e insensível que não se preocupa com ninguém, além de si mesma.

Solitários, os dois decidem morar juntos após a morte da mãe e é aí que a coisa se complica. Com temperamentos completamente diferentes, Marcos e Susana terão, no dia a dia, uma rotina de brigas, desentendimentos e ressentimentos do passado. E assim, temos o lado melancólico de dois irmãos que não se dão bem – e só podem contar um com o outro – porém com um humor inteligente e mordaz, e muitas vezes sutil, do cinema argentino.


Marcos, que decide seguir com a vida após anos de dedicação á mãe senil, se matricula em aulas de teatro, anda de moto, faz amigos, sempre com seu jeito delicado, bem-humorado e espirituoso. Susana, por sua vez, se tranca em sua solidão, evitando a família (e causando fortes desentendimentos quando os encontra) e se tornou uma pessoa amarga que, sem perspectivas de futuro, decide se intrometer na vida alheia, roubando as correspondências dos vizinhos e ouvindo as conversas pelas paredes do apartamento.

Susana, desprendida de seu passado e infeliz com seu presente, usa o irmão para o que lhe convém, para lidar com as próprias frustrações. E nesse caldeirões de sentimentos, os dois tentarão, a todo o custo, fazer dar certo essa relação que é, por assim dizer, o que lhes resta de amor.

Com um timing e uma condução de atores precisa, Burman consegue, de sua dupla central, atuações fantásticas, que são o âmago do filme. É possível acreditar em Marcos e Susana, se envolver, talvez até se reconhecer (será que eu e minha irmã ou meu irmão seremos assim quando a velhice estiver chegando?). E é possível, tanto que o epílogo, verossímil e coerente, é não-conclusivo, justamente para dar ainda mais veracidade à relação de Susana e Marcos.

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No dia 18 de agosto de 1992, em um parque do Alaska, nos EUA, o corpo de Christopher McCandless, de 24 anos, foi encontrado sem vida. O jovem, oriundo de uma família de classe média alta, tinha decidido, dois anos antes, largar tudo o que tinha para uma viagem de encontro à natureza. Após se formar em História e Antropologia na universidade Emory, no estado da Virgínia, Chris doou seus US$ 24 mil a instituições de caridade e fugiu no mundo, sem avisar os pais ou a irmã. Começava uma jornada de dois anos, que ficou documentada no livro de Jon Krakauer, escrito em 1996.

O ator, roteirista e diretor Sean Penn (A Promessa, Acerto Final), decidiu transpor a história real de Chris para o cinema e, baseado no romance de Krakauer, digiriu o filme homônimo: Na Natureza Selvagem. O livro, que continha os diários de viagem de Chris – que após abandonar a civilização, se intitulou Alex Supertramp – trazia detalhes das aventuras vividas pelo jovem.


Assim, o filme acompanha Chris (Emile Hirsch, de Milk, Speed Racer – O Filme) logo após se formar e abandonar os pais conservadores, Walt (William Hurt) e Billie (Marcia Gay Harden), além da irmã Carine (Jena Malone) em busca de seu sonho: chegar ao quase inóspito estado do Alaska. Narrado por Carine, vemos uma paixão desmedida pela natureza através dos olhos do, então, Alex Supertramp pelos confins dos EUA.

Assim, vemos o rapaz vivendo da forma mais rústica possível, se alimentando de sua própria caça, enfrentando frio e longe da civilização. Ele, que sentia estar passando por uma existência vazia, descobre na natureza a liberdade, beleza e transgressão que lhe faltava. E essa “alma selvagem” é trazida com verdade na tela, com capítulos divididos em: Nascimento, Adolescência, Maturidade, Família e Sabedoria.  Logo, vemos o nascer de um novo Chris McCandless. Ou melhor, o nascimento de Alex Supertramp e sua batalha física e psicológica de sobreviver sozinho em meio à natureza.

Nesses dois anos que passou atravessando os EUA em direção ao Alaska sem se comunicar com nenhum familiar ou amigo, Alex conhece diversas pessoas que marcarão sua vida: seja Wayne Westerberg (Vince Vaughn) que lhe dá um emprego, o simpático casal Jan (Catherine Keener) e Rainey (Brian Dierker) ou a bela cantora Tracy (Kristen Stewart, antes de despontar de vez ao estrelato com a saga Crepúsculo). Convivendo com cada um deles por um curto tempo – afinal, a viagem tem de continuar – Alex aprende e ensina, criando laços fortes com todos eles.


Na Natureza Selvagem é uma espécie de road-movie, com suas belas paisagens, seus personagens cativantes pelo caminho e a saga de um personagem em busca de algo, que talvez nem saiba exatamente o que é, mas persiste em descobrir. Passando pelos apuros e grandes riscos, como os animais selvagens, o frio, a solidão e o medo, Alex vai registrando, semana a semana, sua rotina, pensamentos e divagações deste idealismo desmedido.

Nesse vai e vem no tempo (sempre localizando o espectador temporal e geograficamente), um dos personagens mais interessantes do longa é Ron Franz (papel do lendário Hal Holbrook), um simpático velhinho que fará parte do capítulo final de Alex, intitulado, não por acaso, Sabedoria. E vemos o preço (muitas vezes recompensado) pago pelo jovem para atingir um grau de intimidade com a natureza que poucos viveram – e viverão – em suas vidas.


Porém, os maiores méritos de Na Natureza Selvagem vão além. Do carisma e entrega ao personagem do astro Emile Hirsch, passando pela exata interpretação dos ganhadores do Oscar, William Hurt e Marcia Gay Harden, que passam a angústia necessária dos pais de Alex e a direção segura e bem acabada de Sean Penn, que prende a atenção do espectador mesmo em duas horas e meia de projeção. Isso sem falar da primorosa trilha sonora, composta inteiramente por Eddie Vedder, o renomado vocalista da banda Pearl Jam, que recheou as músicas com arranjos marcantes de violão e sua voz inconfundível

Alternando entre as aventuras do jovem, as belezas naturais das locações e os cativantes personagens secundários, não é de se surpreender que o epílogo de Na Natureza Selvagem traga uma melancolia latente, mas que não resvala no melodrama. E aquele personagem, que acompanhamos por surpreendentes duas horas e meia, cria empatia, seja com aquele que entende seus motivos de se soltar no mundo, seja aquele que não entende. De qualquer forma, não importava para Chris McCandless / Alex Supertramp que alguém entendesse seus motivos . Pois, como ele mesmo diz, “admitir que a vida é guiada pela razão, é destruir a possibilidade de viver”.

Antes de dirigir A Vida Íntima de Pippa Lee, seu último longa-metragem, a diretora, roteirista e atriz Rebecca Miller já havia mostrado em seu terceiro filme que era uma das diretoras mais talentosas de sua geração. Com O Mundo de Jack e Rose (The Ballad of Jack and Rose, 2005), ela traz a história de Jack (Daniel Day Lewis, seu marido na vida real), um idealista protetor do meio-ambiente que mora em uma ilha isolada na costa dos EUA com sua filha Rose (Camilla Belle), uma jovem enigmática e estonteante.

Os dois convivem pregando os idealismos de Jack, sendo contra a invasão da ilha por empreiteiras e não têm televisão em casa. Neste estilo de vida rústico, Jack e Rose convivem com o medo do estado de saúde dele, que tem se agravado cada vez mais. Pensando no futuro da filha, que ficaria sozinha com sua morte, ele convida Kathleen (Catherine Keener) e os dois filhos adolescentes dela, Thaddius (Paul Dano) e Rodney (Ryan McDonald) para morar com ele e Rose. Conta-se, ainda, com a chegada da arrojada Red Berry (Jena Malone, irreconhecível).

A relação entre a temperamental Rose, o doce Rodney e o rebelde Thaddius vão provocar conflitos envolvendo todos os cinco, atrapalhando todo o convívio dentro da até então pacata casa. Neste misto de hormônios, sexualidade, temperamentos fortes, ciúmes, medo e inveja, os cinco vão tentar conviver como uma família, mas perceberão que isso pode ser mais difícil do que eles imaginavam.


Com pulso firme na direção – embora exagere em algumas cenas finais – Miller traz desempenhos corretos do marido Lewis, de Kenner e Belle que, aos 19 anos, exibiu toda sua beleza como a complexa Rose, em um misto de malícia (tanto sexual como comportamental) e inocência impressionantes. E nas belas paisagens litorâneas, a câmera vasculha suas belezas naturais ou não, criando um clima único, especialmente pela trilha de bom gosto e totalmente adequada à atmosfera do filme.


Com certo lirismo, especialmente em se tratando de seu epílogo em tom que se aproxima da tragédia, mas deixa seu tom melancólico em stand-by, onde se pode considerar que certos fatos do passado devem ser deixados para trás para, assim, poder ter uma nova perspectiva de futuro.

Assistir ao filme finalndês A Garota da Fábrica de Caixa de Fósforos (Tulitikkutehtaan tyttö,  1990) é uma experiência, digamos, nada agradável. Dirigido e escrito por Aki Kaurismäki, acompanhamos a história de Iris (Kati Outinen), uma moça que trabalha como supervisora em uma fábrica de caixas de fósforos. Em um emprego alienante (onde ela confere na esteira se as etiquetas estão coladas corretamente), ela vai para casa, onde é humilhada pela mãe e pelo padrasto. Cozinha, lava a louça, sem receber nenhuma palavra de carinho ou agradecimento.

Como se fosse uma pessoa invisível, Iris é tratada com desprezo por todos, sofrendo em silêncio. Eis que, após conhecer Aarne (Vesa Vierikko) em um bar, é levada para a casa dele, que pensa que ela é uma prostituta ao transar com ela. Porém, por conta desta noite, Iris descobre estar grávida. A notícia viria com alegria se Aarne, por quem ela está apaixonada, não a rejeitasse. Mas nada sai como planejado e Iris se encontra perdida, só podendo recorrer ao irmão (Silu Seppälä). Porém, a partir daí, a moça vai agir e as consequências não serão boas.

Que os filmes escandinavos mostram diálogos contidos, pouco afeto e um ar de melancolia, já não é novidade. Porém, com A Garota da Fábrica de Caixa de Fósforos chegamos a um ponto extremo do silêncio, onde as emoções são demonstradas de modo cruel, quase desumano. Curto (com apenas 68 minutos), o filme traz silêncios, tomadas longas e o constante olhar de tristeza e cansaço de Iris que, de tanto não receber amor, sente-se incapaz de amar e isso trará consequências trágicas a todos.

(Não há trailer disponível deste filme)

 

Em um de seus mais famosos romances, A Paixão Segundo GH, a escritora Clarice Lispector conta a história de uma mulher que, após matar uma barata, sente-se perdida em seus pensamentos e devaneios sobre a vida e a morte. Na segunda página desta espécie de “diário”, a personagem diz: “É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo”.

O trecho de Clarice através da alma de GH – e vice e versa – caberia perfeitamente no momento em que Júlia, a professora universitária de literatura inglesa interpretada por Ana Paula Arósio, passa desde o começo de Como Esquecer, mais recente longa de Malu de Martino (Mulheres do Brasil, Ismael e Adalgisa). Após o término de um relacionamento amoroso de dez anos com Antônia, ela entra em um tufão de sentimentos acarretados pelo término desta intensa e complicada relação.

Baseado no livro Como Esquecer – Anotações Quase Inglesas, de Myriam Campello, o livro foi adaptado a 12 mãos (Sabina Anzuategui, José de Carvalho, Douglas Dwight, Daniel Guimarães, Luiza Leite e Silvia Lourenço) para contar, de forma quase onisciente, essa travessia de superação de um amor perdido. Isso, porque, acompanhamos Júlia tanto na tela, como na narração do longa, revelando as suas mais secretas intimidades.

Acompanhada pelo melhor amigo, o homossexual Hugo (Murilo Rosa), ela vai levando esse dia a dia de forma pesada, melancólica, com altos pontos de depressão. E nesta angústia de seguir adiante, mesmo não estando pronta para tal, Júlia é invadida, a todo o momento, pelas lembranças de Antônia, sempre ausente em corpo e presente como lembrança. E assim, Hugo que ainda sofre com a morte de seu grande amor e Lisa (Natália Lage), uma moça abandonada pelo namorado após a descoberta da gravidez, decidem dividir com Julia uma casa nova, em uma região afastada no Rio de Janeiro.

Júia, que quer sofrer a dor do único modo que sabe, cria um escudo que impede que qualquer pessoa se aproxime dela, inclusive a aluna Carmen Lygia (Bianca Comparato), uma jovem persistente que tenta um contato maior com a professora. E nesta casa, onde três pessoas lidam com o fim de uma relação (seja a morte, o abandono ou o término), mudanças podem acontecer com a chegada de Helena (Arieta Correia) e  Nani (Pierre Baitelli).

Com boas interpretações do trio central – especialmente Arósio, que se entrega ao personagem e se despe de qualquer vaidade – uma fotografia opaca e uma trilha intimista, Como Esquecer traz um clima melancólico essencial e, embora algumas atitudes dos personagens possam soar estranhas ao espectador, fica a pergunta: quem pode julgar o modo na qual cada um lida com a própria dor?


E o dia após dia de uma pessoa com um coração partido tem suas consequências: seja um novo amor, uma segunda chance ou, até mesmo, o modo de ser (ou agir) como é descrito em outro trecho do livro de Clarice Lispector: “Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo”. E segue-se assim, até sentir-se pronto para amar novamente.

É fato consumado que a questão gay é temas de diversos documentários, filmes e livros, mas o diretor e roteirista Daniel G. Karslake construiu, em 2007, uma obra que considero indispensável. Como Diz a Bíblia é repleto de conteúdo, depoimentos e imagens de arquivo, necessário a todos os espectadores, não somente entre a esfera LGBT.

Tratando de como a bíblia é lida, equivocadamente, para condenar os homossexuais, Karslake destrincha o assunto de forma genial. Com uso de famílias americanas tradicionais e religiosas que, ao descobrirem ter um gay na família, têm de lidar com isso, o diretor vai alternando as histórias com depoimentos de religiosos e suas considerações em relação ao “livro sagrado” do Cristianismo, religião em vigor há mais de 2000 anos.

Um dos pontos curiosos é como as histórias são traçadas, de famílias que condenavam – ou ainda condenam – a homossexualidade, considerada um desvio moral, religioso e humano segundo algumas das ramificações cristãs mas, mesmo assim, têm de enfrentar (a duras penas ou não) o assunto na prática. Enquanto isso, provido de um arquivo audiovisual impressionante, Karslake vai ilustrando esse preconceito de muitos personagens diante da questão.

Apresentando certas passagens pontuais, os extremistas religiosos tratam de forma categórica certas declarações do livro que, para eles, indicam que a bíblia é contra a homossexualidade e, assim, Deus os classifica como “seres pecadores”. Porém, diversos comportamentos e atitudes, que já foram considerados naturais de acordo com a bíblia, são condenados nos dias atuais, como: escravidão, submissão em relação às mulheres, se alimentar de algo com sangue (animais), não plantar duas sementes diferentes juntas, não vestir dois tipos de tecido ao mesmo tempo, matar quem trabalha aos sábados, poligamia e usura, ou seja, qualquer tipo de forma de obtenção de dinheiro que não viesse com o suor do trabalho. Imaginem se todos os locatários, acionistas e profissionais das empresas de empréstimo de dinheiro fossem para o inferno? Afinal, ganham dinheiro através de investimentos e taxas de juros. Tudo isso é pontualmente tratado e interpretado pelos dois lados da história.

Como Diz a Bíblia traz, também, Jimmy Swaggart, uma das figuras mais emblemáticas contra os gays nos EUA e um dos mais influentes evangelistas do país que, em seus inúmeros  programas de TV, condena abertamente a homossexualidade, considerando-a uma anormalidade ou abominação (palavra repetida inúmeras vezes durante o filme). Outra grande batalha é travada com James Dobson, responsável pela organização Focus on the Family que, se antes tratava de como a importância da família era essencial para qualquer ser humano, hoje se ocupa de maldizer os homossexuais, com declarações como: “Pais, se seus filhos se assumirem gays ou lésbicas, vocês devem mudá-los”.  Dessa leva de “pessoas de Deus” estão, ainda, Anita Bryant (ferrenha perseguidora dos gays nos anos 70) e os ex-presidentes norte-americanos George W. Bush e Ronald Reagan que, dizendo-se tão religiosos, parecem esquecer do princípio: “Ama ao próximo como a ti mesmo”.


Porém, há outro lado da história: reverendos que não condenam a homossexualidade, defendendo e interpretando de outro modo as passagens da bíblia, discordando desta lavagem cerebral em “converter homossexuais”. Acompanhamos, por exemplo, um reverendo gay eleito em uma Igreja Anglicana Episcopal, de New Hampshire (mas que passa a sofrer constantes ameaças de morte após a conquista do cargo). Porém, não basta ser homossexual para não condená-la, ou seja, é possível que heterossexuais possam conviver e respeitar os homossexuais.

Outro forte nome que dá seu parecer em Como Diz a Bíblia é o arcebispo sul-africano Desmond Tutu, premiado com o Prêmio Nobel da Paz em 1984. Bispo da Igreja Anglicana, ele explica “que não significa que a bíblia diz aquilo mas, sim, está sendo lida daquele jeito”. E este conflito de interpretações existe até mesmo entre as ramificações do Cristianismo, como as igrejas batista, pentecostal, betânia, luterana, apostólica romana e por aí vai.

É emocionante acompanhar tais depoimentos e histórias reais do documentário, que aborda as consequências – boas e ruins – das famílias, sem apelar para o melodrama barato, mas sim com algumas pessoas superando esse preconceito e tornando-se parte do ativismo na causa LGBT. Temos o curioso caso, também, do político Dick Gephardt, que concorreu à presidência dos EUA em 1988 e 2004. Pai de uma filha lésbica, ao invés de omitir a homossexualidade de Chrissy, Gephardt deixou claro que ficaria ao lado dela, independente da decisão que ela tomasse. Chrissy, então, assume publicamente a homossexualidade durante a segunda candidatura e os norte-americanos adoram. Mas Gerphardt perde e George W. Bush é reeleito.

“O medo faz coisas terríveis a uma sociedade”. Esta frase, dita de forma tão emblemática em Como Diz a Bíblia, pode ser uma das causas da homofobia entre os religiosos (além dos dogmas do Cristianismo). Afinal, qualquer ser humano tem medo do que não compreende. E quando observa a fundo aquilo que lhe provoca medo – e constata que não há porque temer – o preconceito pode, finalmente, cair por terra.

Xavier Dolan pode ser considerado um fenômeno cinematográfico. Ator mirim a partir dos cinco anos de idade, o garoto cresceu com papéis em filmes e séries canadenses até decidir, com apenas 17 anos, escrever sobre sua conturbada relação com a mãe. Aos 19, então, dirigiu, roteirizou, produziu e atuou no longa Eu Matei a Minha Mãe (J’ai tué ma mère, 2009), que estréia, vergonhosamente, em apenas uma sala de cinema.

Vergonha porque, mesmo tão jovem, Dolan consegue prender a atenção do espectador com seus 96 minutos de filme. E não só do espectador. Em 1999, conseguiu sair do renomado Festival de Cannes com três prêmios conquistados, oito minutos de aplausos após a exibição e representou o Canadá como candidato ao Oscar daquele ano.


Em Eu Matei a Minha Mãe, Dolan interpreta Hubert, um jovem homossexual de 17 anos, completamente revoltado com  mãe, Chantale (Anne Dorval). Neste cotidiano com ela, o convívio torna-se insuportável e sufocante. Seja a música que é escolhida para tocar durante um passeio de carro, do café da manhã em que a mãe come com a boca suja e um barulho que incomoda o filho ou, até mesmo, imposições maternas mais sérias, como a recusa diante do pedido de Hubert em morar sozinho.

Extremamente temperamental, Hubert culpa a mãe por tudo que dá errado na sua vida e pelo jeito que ela é, do comportamento às roupas que ela veste. Do outro lado, incapacitada de lidar com as tempestivas explosões de fúria do rapaz, ela ouve os mais ferozes insultos contra a mãe que, segundo ele, “tenta, mas não consegue amar”. Assim, nesse ambiente, Hubert tem de lidar com a ausência do pai (Pierre Chagnon), divorciado de Chantale e busca apoio na casa do namorado, Antonin (François Arnaud), que tem com a mãe uma relação completamente diferente.

Com apoio da compreensiva professora Julie (Suzanne Clément), Hubert vai caindo em um redemoinho de emoções prestes a explodir a cada minuto. Sem, necessariamente, culpados e inocentes, o rapaz e a mãe são pessoas infelizes que, incapazes de administrar esse vazio juntos, culpam um ao outro, com doses fortes de ironia, raiva e tentativas frustradas.

Reflexo totalmente propício e atual da difícil comunicação entre pais e filhos, Eu Matei a Minha Mãe tem um adolescente responsável por um filme que fala sobre os conflitos internos e externos de um adolescente. Méritos são captados desta experiência, assim como falhas, mas o resultado final sai melhor do que se imagina.


Do pop das canções em francês à sua intimista trilha instrumental de piano e violino, o longa traça um período conturbado dessa semibiografia de Dolan com diálogos fortes, ótimo proveito no uso de cores, uso pertinente da câmera lenta, inscrições na tela para explicar certas situações e algumas doses de surrealismo nas divagações de Hubert. E em seu epílogo, é reforçada a ideia de nostalgia, ou seja, um tempo-espaço onde foram felizes e que deve ser resgatada para seguir em frente.

Dolan estreou bem na direção com Eu Matei a Minha Mãe e já teve seu segundo filme, Amores Imaginários, com estreia na mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes deste ano, além de ter sido lançado no Festival de Cinema do Rio e estar na programação da 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme trata de um triângulo amoroso entre três jovens, sendo um deles interpretado por Dolan, que também dirigiu, roteirizou e produziu.

Na próxima empreitada, prevista para estrear em 2012, o canadense de 21 anos sai da frente das câmeras e traz o astro francês Louis Garrel (Os Sonhadores, Canções de Amor, Em Paris) como protagonista de Laurence Anyways, que tem estreia prevista para 2012. Pelo jeito, diferente de seu alter-ego Hubert, Dolan não precisa voltar ao passado para ser feliz, mas sim seguir em frente, rumo a um futuro promissor.

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