Responsável por filmes como Pulse (1999), Sessão Espírita (2000), Doppelganger (2003) e Vítima de uma Alucinação (2006), o diretor japonês Kiyoshi Kurosawa (nenhum parentesco com o lendário Akira Kurosawa) está com sua filmografia exibida ao público na décima edição do Indie Festival, que acontece até quinta-feira (30), em São Paulo.

A história de Sonata de Tóquio (2008), seu último filme, é simples e empática ao mostrar os Sasaki, uma família japonesa de classe média que vive na capital japonesa. A mãe, Megumi (Kyôko Koizumi) é uma dona de casa exemplar, sempre preocupada com os filhos: o jovem temperamental Takashi (Yû Koyanagi) e Kenji (Inowaki Kai), o filho caçula.


Diretor de uma grande empresa, lá está o centro desta família, Sasaki (Teruyuki Kagawa). Porém, quando o patriarca é demitido, a história muda de figura. Com vergonha e desesperado com sua situação, ele cria diversas artimanhas para que a família não descubra que ele foi demitido. E os efeitos dessa mentira vão permeando todo o filme, que conta com uma direção segura em boa parte de sua trama.

Atual e real, o filme traz à tona a crise mundial (que se iniciou em 2008, mesmo ano do longa) e as consequências dela no Japão, onde perder a profissão leva pessoas à depressão e ao suicídio. Perambulando pelas ruas da cidade de terno e gravata com sua maleta a tiracolo, vamos acompanhando Sasaki e seu teatro, que faz com que ele passe o dia em busca de emprego e volte para casa como se tivesse cumprido sua jornada diária de trabalho.


E nesse ambiente de mentira e angústia, o espectador vai acompanhando essa jornada de um homem em pânico de perder sua honra e respeito diante da família, especialmente quando Kenji decide aprender a tocar piano contra a vontade do pai e Takashi anuncia que vai se alistar no exército norte-americano para combater no Oriente Médio.

Kurosawa faz bom uso das cores e planos de câmera: cores quentes e planos mais fechados na casa da família, e cores frias e planos abertos nas cenas de Sasaki. Isso, claro, só potencializa a saga de um homem perdido em si mesmo e em seu lugar no mundo, que deveria encontrar conforto no seu lar, mas não se permite. E isso dá um clima de constante melancolia a Sonata de Tóquio.


Porém, quando a farsa é descoberta, Kurosawa parece perder a mão leve no assunto e o tom dramático e violento ganha contornos excessivos. Talvez por seu berço étnico e cultural, seja compreensível a atitude deste homem de 46 anos que, “velho para o mercado”, tenha de se submeter a empregos considerados vergonhosos e seja obrigado a receber ordens de superiores mais novos que ele.

O resultado final de Sonata de Tóquio não decepciona, embora os minutos finais deslanchem em um dramalhão que, algumas vezes, parecem tentar – inutilmente – emocionar o espectador. E drama demais, se não bem conduzido, pode arrancar risos ao invés de lágrimas.

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