setembro 2010


O escritor irlandês Oscar Wilde teve uma vida curta, porém intensa. Em seus 46 anos de vida, escreveu contos, peças importantes (O Leque de Lady Windermere, Uma mulher Sem Importância e Um Marido Ideal, só para citar algumas), porém é mais conhecido pelo seu único romance: O Retrato de Dorian Gray.

Em Wilde, dirigido por Brian Gilbert (Tom e Viv, Nunca sem Minha Filha, O Encontro) e lançado em 1997, o diretor traça um pequeno retrato da vida do famoso e polêmico escritor, morto em 1900.

Interpretado com maestria por Stephen Fry (O Guia do Mochileiro das Galáxias, V de Vingança e confirmado para a sequência de Sherlock Holmes), acompanhamos Wilde em Londres, já em vida adulta, casado com Constance (Jennifer Ehle). Após ser seduzido pelo amigo Robbie (Michael Sheen), começa a se envolver com diversos homens.

Obcecado pela juventude e pela liberdade de pensamento daquela geração, se relaciona com homens mais novos, como John Gray (Ioan Gruffudd, o Senhor Fantástico de O Quarteto Fantástico) que lhe inspirou a escrever O Retrato de Dorian Gray, sobre um jovem obcecado pela juventude eterna. Enquanto esconde da esposa suas paixões extra-conjugais, desenvolve peças teatrais que são sucesso absoluto nos palcos londrinos.

Porém, tudo muda de figura quando conhece o Lord Alfred Douglas (Jude Law), mais conhecido como Bosie, que lhe desperta uma paixão fulminante. Belo, jovem e extremamente mimado, Bosie se torna o grande amor da vida de Wilde, que se rende aos seus luxos e insultos que lhe custarão um alto preço.

Sempre na companhia de Bosie pelas rodas sociais londrinas, os boatos de homossexualidade começam a aflorar, associados à sua poesia, que falava de “um amor que não ousa dizer o nome”, uma clara alusão ao amor gay, terrivelmente recriminado àquela época. E é Lord Queensberry (Tom Wilkinson, fantástico), pai de Bosie, que fará com que Wilde vá a julgamento, acusando-o de “atos imorais com diversos rapazes”. Recusando a sair do país, o escritor é condenado a dois anos de prisão, pondo fim à sua carreira e à sua vida pessoal.

Com esplêndida reconstituição de época e mostrando um Wilde educado, inteligente, charmoso e com uma capacidade desmedida de entreter qualquer pessoa com sua inteligência, o filme traz um homoerotismo latente que permeia todo o filme. Fry, homossexual assumido, dá vida de forma brilhante a Wilde, com um olhar constantemente melancólico. Por outro lado, Jude Law, no papel de Bosie, exala beleza, sensualidade e parece bastante à vontade nas ousadas cenas gays.

O belo uso da fotografia é outro ponto forte em Wilde, especialmente nas cenas internas da família, remetendo a belos quadros do Romantismo, mostrando uma pureza e delicadeza quase táteis, especialmente na figura de Constance, a esposa que, mesmo sendo traída e rechaçada pela sociedade, jamais abandonou Wilde.

Com uma ponta de Orlando Bloom (como um rapaz que flerta com Wilde) e a presença curta, porém marcante de Vanessa Redgrave, como Lady Speranza Wilde, a mãe do escritor, o filme mostra o preço que Oscar Wilde teve de pagar no século 19 por se apaixonar por outro homem. E sua mais famosa frase ilustra isso, afinal “existem duas tragédias na vida: uma é não conseguir o que se quer e a outra é conseguir”.

Responsável por filmes como Pulse (1999), Sessão Espírita (2000), Doppelganger (2003) e Vítima de uma Alucinação (2006), o diretor japonês Kiyoshi Kurosawa (nenhum parentesco com o lendário Akira Kurosawa) está com sua filmografia exibida ao público na décima edição do Indie Festival, que acontece até quinta-feira (30), em São Paulo.

A história de Sonata de Tóquio (2008), seu último filme, é simples e empática ao mostrar os Sasaki, uma família japonesa de classe média que vive na capital japonesa. A mãe, Megumi (Kyôko Koizumi) é uma dona de casa exemplar, sempre preocupada com os filhos: o jovem temperamental Takashi (Yû Koyanagi) e Kenji (Inowaki Kai), o filho caçula.


Diretor de uma grande empresa, lá está o centro desta família, Sasaki (Teruyuki Kagawa). Porém, quando o patriarca é demitido, a história muda de figura. Com vergonha e desesperado com sua situação, ele cria diversas artimanhas para que a família não descubra que ele foi demitido. E os efeitos dessa mentira vão permeando todo o filme, que conta com uma direção segura em boa parte de sua trama.

Atual e real, o filme traz à tona a crise mundial (que se iniciou em 2008, mesmo ano do longa) e as consequências dela no Japão, onde perder a profissão leva pessoas à depressão e ao suicídio. Perambulando pelas ruas da cidade de terno e gravata com sua maleta a tiracolo, vamos acompanhando Sasaki e seu teatro, que faz com que ele passe o dia em busca de emprego e volte para casa como se tivesse cumprido sua jornada diária de trabalho.


E nesse ambiente de mentira e angústia, o espectador vai acompanhando essa jornada de um homem em pânico de perder sua honra e respeito diante da família, especialmente quando Kenji decide aprender a tocar piano contra a vontade do pai e Takashi anuncia que vai se alistar no exército norte-americano para combater no Oriente Médio.

Kurosawa faz bom uso das cores e planos de câmera: cores quentes e planos mais fechados na casa da família, e cores frias e planos abertos nas cenas de Sasaki. Isso, claro, só potencializa a saga de um homem perdido em si mesmo e em seu lugar no mundo, que deveria encontrar conforto no seu lar, mas não se permite. E isso dá um clima de constante melancolia a Sonata de Tóquio.


Porém, quando a farsa é descoberta, Kurosawa parece perder a mão leve no assunto e o tom dramático e violento ganha contornos excessivos. Talvez por seu berço étnico e cultural, seja compreensível a atitude deste homem de 46 anos que, “velho para o mercado”, tenha de se submeter a empregos considerados vergonhosos e seja obrigado a receber ordens de superiores mais novos que ele.

O resultado final de Sonata de Tóquio não decepciona, embora os minutos finais deslanchem em um dramalhão que, algumas vezes, parecem tentar – inutilmente – emocionar o espectador. E drama demais, se não bem conduzido, pode arrancar risos ao invés de lágrimas.

Muitos cineastas fizeram filmes sobre o próprio cinema, mas talvez nenhum tenha conseguido retratar o ostracismo do cinema mudo como Billy Wilder em Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950). Um dos diretores mais versáteis que a Sétima Arte já conheceu, Wilder uniu três estrelas para contar a história de Norma Desmond (Gloria Swanson), uma atriz do cinema esquecida pelo tempo. Morando com o mordomo Max Von Mayerling (Eric Von Stroheim), o diretor esquecido que já teve a estrela Desmond por trás de sua câmera, a rotina da dupla muda com a chegada de Joe Gillis (William Holden), um escritor fracassado que se torna o roteirista pessoal e amante da estrela.


Quando de sua estreia, Crepúsculo dos Deuses provocou a fúria dos estúdios em Hollywood, ao mostrar o lado nostálgico, realista e decadente do cinema. No casarão da estrela já sabemos, nos primeiros segundos de filme, que Gillis será encontrado morto na piscina (outra crítica ferranha sobre o filme, afinal, quem assistiria a um filme na qual já se sabe o final?). Porém, o mais impressionante de Crepúsculo dos Deuses é assistir boquiaberto à revelação de seus personagens, em um misto de loucura, ódio e adoração, especialmente de Swanson e Stroheim, que foram realmente astros do cinema e esquecidos após o cinema falado.

Nesse ambiente angustiante, temos uma estrela egocêntrica à beira da loucura, em uma magistral interpretação de Gloria Swanson, com diálogos inesquecíveis (roteiro vencedor do Oscar), trilha sonora intimista (mais um Oscar) e o famoso final, onde Norma Desmond anseia pelo seu close-up. Talvez ela estivesse, de certa forma, certa, quando declama a mais famosa frase do filme, no momento em que Gillis diz que “ela foi uma grande atriz”. “Eu sou grande. Os filmes é que ficaram menores”, responde. Porém, somos obrigados a reconhecer Crepúsculo dos Deuses como um grande filme dedicado a uma grande atriz. Obrigatório.

As primeiras cenas de O Refúgio podem chocar os espectadores mais desavisados. Em um quarto, o casal Louis (Melvil Poupaud) e Mousse (Isabelle Carré) se drogam, injetando heroína em diversas partes do corpo – de forma bastante realista – e vivendo em uma constante letargia por conta da substância. Após uma superdose da droga – vendida por um jovem e que continha uma mistura de Valium – os dois vão parar em um hospital. Louis não sobrevive e Mousse descobre estar grávida.

A mãe de Louis diz, então, que prefere que a moça faça um aborto, pois não acha sensato que a criança nasça após a morte do filho, além de alegar que o bebê poderia vir a ter problemas por conta do uso de drogas. Mousse, indecisa, decide se refugiar em uma casa de campo no interior da França e recebe a visita de Paul (Louis-Ronan Choisy), irmão de Louis, que se hospeda por uns dias no local. A partir daí, o filme mostra o convívio dos dois na bela paisagem verde e litorânea.

Dirigido por François Ozon (Oito Mulheres, Swimming Pool – À Beira da Piscina, Amor em 5 Tempos, O Tempo que Resta), que co-assina o roteiro com Mathieu Hippeau, O Refúgio discute diversos assuntos delicados, como o aborto, o uso de drogas, a maternidade fora do casamento e a homossexualidade.

Paul, que é homossexual, vai se envolvendo cada vez mais com Mousse, que vê no rapaz uma extensão de Louis. Solitária e confusa, a personagem vai sendo desvendada aos poucos com o desenrolar do filme, em uma interpretação correta de Isabelle Carré. Já Louis-Ronan Choisy, que interpreta Paul, traz uma sensualidade carregada de sensibilidade, que cativa a moça, especialmente após o envolvimento amoroso dele com um dos homens da região.


Para os amantes da cinematografia francesa, é fácil reconhecer os elementos oriundos do berço do Cinema: sensibilidade, detalhes, planos de câmera, trilha sonora, o aproveitamento de atos corriqueiros para trazer situações à tona e, claro, personagens bem desenvolvidos e sempre densos, com uma certa melancolia latente, que transborda na tela grande.

Isabelle Carré, que filmou o longa quando estava realmente grávida, traz verdade para o filme, mostrando uma mulher completamente apaixonada, envolta no drama ficcional de ter, dentro de si, o fruto desse sentimento interrompido pela morte. E, ao projetar no irmão gay de Louis a carência, insegurança e medo, observamos que ela não se sente pronta para ter essa criança.


Sua insensibilidade é, ao mesmo tempo, tocante, especialmente pelo fato de ela não conseguir deixar que qualquer um toque em sua barriga, como se protegesse não apenas o filho, mas sim a memória de Louis, pela qual ela vive alimentada – e alimentando – com lembranças. E em O Refúgio, no seu epílogo – que pode ser desvendado por boa parte dos espectadores – a redenção de Mousse chega. E, a meu ver, embora previsível, é justificável.