Nessa segunda-feira (19 de julho), o elenco de O Bem-Amado e o diretor Guel Arraes, estiveram em um hotel em São Paulo para divulgar o filme, primeira adaptação no cinema da famosa peça de Dias Gomes, que estreia nesta sexta-feira (23 de julho).

Bem-humorados apesar de estarem há mais de seis horas seguidas dando entrevistas, os atores Marco Nanini, José Wilker, Andréa Beltrão, Zezé Polessa, Matheus Nachtergaele, Maria Flor e o diretor pernambucano bateram um papo descontraído com jornalistas. O Terra esteve lá e aqui você confere os melhores momentos da conversa:

Andréa Beltrão, Zezé Polessa e Maria Flor
Andréa Beltrão e Zezé Polessa interpretam Dulcinéia e Dorotéia, respectivamente. Duas das três irmãs Cajazeiras (a terceira é a atriz Drica Moraes, que se recupera de um transplante de medula), elas conversaram sobre seus papéis no longa, recheado de humor. Maria Flor completou o trio, falando de sua personagem Violeta, a filha do corrupto político Odorico Paraguaçu (Marco Nanini).

Quando perguntadas se foram inspiradas pelas atrizes que anteriormente interpretaram os seus papéis na série e na novela, as atrizes disseram que tiraram de si o modo de interpretação. “Nós bebemos do roteiro do Guel Arraes e do Miguel Paiva. Não queríamos uma repetição e sim uma ligação afetiva”, diz Andréa. Zezé, que também acompanhou a novela, disse que não reviu e sim manteve aquela sensação da imagem perdida do tempo para auxuliar na atuação. Para Andréa Beltrão, o mais importante foi, durante a construção da personagem, em que foram guiadas e alimentadas pela direção de Guel, um perfeccionista na direção.

Porém, nem tudo é humor em relação à Dulcinéia, personagem de Zezé. A mais velha das irmãs Cajazeiras tinha de trazer na bagagem uma aura de que algo de trágico viria a acontecer, ou seja, fez com que a atriz criasse um humor denso, sem ser debochado ao extremo.

Maria Flor, que estreou no humor sendo dirigida por Arraes, é mais categórica: “Guel tem o olho e devemos apenas seguir a coreografia”, disse, referindo-se às marcações infinitas do diretor pernambucano. “Ele sabe o que devemos passar para o personagem e só nos resta sermos guiados para ficar do melhor modo”.

Andréa, uma “especialista” em Guel Arraes, trabalha com o diretor desde os 20 anos quando fez Armação Ilimitada e já sabe quando algo está do jeito que ele quer. “Quando vejo que ele quer de um jeito, eu analiso a fundo e vejo que já sei do que ele está falando”, declarou.

E essa química transparece na tela. Zezé e Andréa lembram a cena que mais gostaram de fazer e que mais ficaram felizes de assistir no resultado final: a da fotonovela, em que o dramalhão mexicano dá o toque necessário para que se perca em drama e ganhe em humor.

“A importância de uma refilmagem deve se resumir a uma boa história”, explica Andréa, “afinal, se uma história é boa, com bons atores, uma boa direção, fazer cinema – que é algo tão difícil – se torna recompensador”.

Guel Arraes e Marco Nanini
“Os lugares que se levam a sério são os melhores para fazer comédia”. A frase foi uma das primeiras a sair da boca do diretor de O Bem-Amado. Afinal, nada melhor que usar a política para rir dela dentro do cinema, com riso nervoso, sarcástico ou irônico. Junto do protagonista Marco Nanini, o bem-amado Odorico Paraguaçu do longa, Arraes, filho do ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes, conhece de perto esse universo.

E, para ele, infelizmente, ainda há muitos “Odoricos soltos por aí, mas nenhum deles veste a carapuça; assistem, riem, se identificam, mas não assumem que é um retrato deles próprios”.

Com um modo próprio de direção, Guel Arraes disse que seu processo de roteiro passa primeiro por sua mente e depois ganha a prática, com personagens e marcações, ou seja, a mise-en-scène em si. E é aí que entrou Nanini, ator presente em todos os filmes do diretor.

“Guel sabe como dirigir. Ele envolve o ator no universo que ele quer criar, compreende o ator, entrega o roteiro decupado e eu, como já conheço o jeito dele de filmar, sei ate que tipo de emoção expressar pois sei como a câmera estará posicionada em cada momento”, diz Nanini, que criou em seu Odorico mais um personagem memorável de sua galeria cinematográfica.

Perguntado sobre seu modo ágil e dinâmico de filmar, Arraes diz que, quando entrou para a TV, achou tudo muito parado. “Sou atento a detalhes, a objetos, e levei isso para a televisão”, complementa o diretor. E volta a falar de política ao dizer que Nanini, no papel de um político, é um ator interpretando um ator pois, segundo Arraes, “todos os políticos são atores”.

Em relação às filmagens, Arraes diz que O Bem-Amado cumpriu seu prazo de 7 semanas. Isso, porém, levou os atores à exaustão. “Em certo momento, tive de pedir um dia de folga”, relembra Nanini rindo, “mas o resultado foi realmente satisfatório”.

Matheus Nachtergaele e José Wilker
Matheus Nachtergaele, ao entrar na sala para a entrevista, não lembrava em nada o tímido Dirceu Borboleta que interpreta em O Bem-Amado. Falante e bem-humorado, estava acompanhado de José Wilker, o ator que dá vida a Zeca Diabo, o temeroso matador do longa. Do personagem, o único elemento ainda presente era a inconfundível voz de Wilker.

Nachtergaele começou e engatou uma conversa mais politizada. “Dirceu Borboleta retrata como ser honesto pode ser cafona no Brasil, a voz sensata que ninguém ouve, o homem educado, delicado e assexuado”, declarou o ator, que já havia trabalhado com Arraes no grande sucesso O Auto da Compadecida.

Nachtergaele conta que todo ator é um tipo de esquizofrênico, citando sua própria experiência como parâmetro: “algo de cada personagem sempre fica e sempre sai de mim”.

Wilker completou a análise de Nachtergaele falando de como cresceu ouvindo as histórias sobre os cangaceiros, os matadores nordestinos e como isso o ajudou a criar seu Zeca Diabo. “Onde a miséria impera, esse tipo de figura é necessária. É um personagem que guarda a ingenuidade do homem do povo, a pureza despreparada que também se rende a Odorico”. E finaliza: “O Brasil ainda é uma Sucupira cheia de Odoricos. Ou seja, ainda somos e vivemos como os nossos pais”.

PS: publicado, originalmente, no Portal Terra: http://cinema.terra.com.br/interna/0,,OI4577998-EI1176,00.html

Anúncios