agosto 2010


Se o Oriente tem seu Walt Disney, esse título é, denifitivamente, de Hayao Miyazaki. Responsável por pérolas da animação como Meu Vizinho Totoro (1988), A Princesa Mononoke (1997), A Viagem de Chihiro (2001) e O Castelo Animado (2004), o mestre do anime é, aos 69 anos, um dos mais respeitados e competentes artistas, trazendo histórias capazes de cativar crianças e adultos.

Vencedor do Oscar em 2003 por Chihiro, Miyazaki e o Estúdio Ghibl têm uma parceria com a Disney desde 1996. O diferencial é que o diretor e roteirista não se rende às novas tecnologias e mantém a animação 2D em seus filmes desde sempre. E é com seu mais recente trabalho, Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar, que ele mostra que sua aposentadoria – sempre anunciada e sempre adiada – pode estar bem longe de chegar.

 

Com Ponyo, Miyazaki conta a história de Brunhilde. Filha do feiticeiro Fujimoto com a deusa do mar Gran Mamare, ela foi transformada em peixe pelo pai, que perdeu a fé nos seres humanos. Com motivos de sobra para desacreditar nas pessoas de carne e osso, Fujimoto aprisiona a filha-peixe, que só tem um sonho: ser humana.

Indicado ao prêmio de Melhor Filme no Festival de Veneza em 2008, o filme traz duas grandes  influências: o clássico conto A Pequena Sereia, escrito por Hans Christian Andersen – e que se tornou um grande sucesso animado da Disney em 1989 – como a lenda do pescador japonês Urashima Taro, que devolve uma tartaruga ao mar e descobre, tempos depois, ser uma princesa, filha do imperador dos mares.

Referências à parte, a vida do peixinho-dourado Bunhilde muda quando conhece o pequeno Sosuke, um menino de 5 anos que mora com a mãe à beira-mar. Acostumado a brincar com seu barco enquanto aguarda o retorno do pai pescador, ele dá o nome de Ponyo à criatura com corpo de peixe e rosto de menina.

Após ser capturada pelo pai, Ponyo decide abdicar de sua condição de peixe e escolhe pela humanidade, provocando um caos na cidade de Sosuke, por conta da fúria que se assola no mar local. Nessa delicada relação entre Ponyo e o garoto, os espectadores observam uma história simples, porém bem contada. Sem necessidade de efeitos especiais, Miyazaki mostra que o pouco, muitas vezes, diz muito.

Repleto de personagens extremamente cativantes, Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar trata de assuntos como solidariedade, preservação da natureza, compreensão, fé nos seres humanos e amor às pessoas pelo que elas são, porém, sem apelar para a pipeguice ou a lição de moral fáceis. Bem cuidado, traz outra característica de Miyazaki: a mistura de elementos infantis com misticismo e lendas, que sempre funcionam.

Com ritmo e trilha sonora (de Joe Hisaishi) primorosos, a animação traz crianças que, mesmo com medo natural, enfrentam suas responsabilidades e encaram os riscos de uma aventura em prol de algo. E como essas atitudes têm consequências boas e ruins. Por exemplo, a vinda de Ponyo na condição meio-peixe-meio-humana causa uma devastação na cidade por conta dos feitiços de Fujimoto. E com muita ação, suspense, comédia e, claro, romance, Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar é mais um ótimo filme na filmografia de Miyazaki.

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Espiãs sexys sempre fizeram parte do imaginário masculino – e feminino – com sua pose, poder, aventura e influência no mundo das investigações. No cinema, quando Angeina Jolie anunciou o lançamento de Salt, os fãs da atriz e do gênero aguardavam ansiosamente a versão feminina do papel que consagrou, de vez, o ator Matt Damon na trilogia Bourne (só para citar um espião mais recente do cinema).
Dirigido por Phillip Noyce e escrito por Kurt Wimmer, Salt não decepciona. Pelo contrário. Traz uma Angelina Jolie sexy, segura e detonando no papel de Evelyn Salt, uma espiã com uma história pra lá de curiosa. Como todo filme de ação, a luta entre bonzinhos e malvados ganha uma nova roupagem, misturando realidade e ficção. Nos bad boys da vez, estão os russos, os coreanos como ameaças em relação às armas nucleares.
 

A questão de se escrever sobre um filme como Salt é uma armadilha, afinal, com tantas reviravoltas e segredos revelados, o risco de spoilers persegue todos aqueles que se aventuram em analisar o filme. Mas tentarei com afinco.

Na Rússia, um homem criou um império para destruir os EUA em um plano conhecido como Dia X, em que pretende matar o presidente do país. Com internatos que treinavam crianças russas para aprender inglês e se tornarem “americanos legítimos”, o russo infiltra seus compatriotas americanizados em diversos setores dos EUA, que incluem organizações como CIA, Pentágono e FBI. A história pode parecer descabida a princípio, mas o plano funciona no filme. Até certo ponto, claro.
Com um prólogo bem interessante, somos apresentados a Evelyn Salt (Jolie) que depois de ser capturada e fortemente agredida, é recuperada pelo seu amigo e colega de trabalho Ted Winter (Liev Schreiber, cada vez melhor). Casada com Mike (August Diehl), Salt se sente ameaçada após a declaração de um capturado. E aí é que o filme começa.
Com cenas de ação que funcionam, Jolie dá uma de McGyver e consegue criar as mais descabidas armas e artimanhas. Nesse jogo de gato-e-rato, a CIA, representada por Ted e Peabody (Chiwetel Ejiofor), a tecnologia em função da segurança ganha ares que beiram a ficção científica, como detectores dos mais modernos e explosivos e armas de última geração.
O filme que, teoricamente, ganharia créditos somente entre o público masculino, pode atrair as garotas, por mostrar uma mulher que mistura força, beleza e vulnerabilidade. Na vulnerabilidade e beleza, podemos acreditar. Porém, quando se trata das cenas de ação, risos podem sair da boca de alguns espectadores. A cena da estrada, por exemplo, onde Salt pula de um caminhão para outro com a facilidade de dar inveja a Tarzan, é marcante.
Com uma mistura da trilogia Bourne com o thriller O Fugitivo, o filme traz uma direção de arte eficiente, um clima de tensão que não perde ritmo e funciona como ótimo passatempo aos fãs do gênero. O interessante de Salt – claro, tirando os absurdos que o gênero blockbuster oferece – é recriar a Guerra Fria da ameaça nuclear décadas depois, como se respondesse à pergunta: “E se a Guerra Fria se concretizasse com os ataques nucleares?”. Mas, como o assunto e as consequências são delicadas demais, o longa fica entre os conflitos pessoais e patrióticos. E como filme norte-americano, já sabemos onde vai dar.

Lasse Hallström é um mestre em levar o público às lágrimas. Depois de emocionar corações mais delicados em tramas como Gilbert Grape – Aprendiz de Sonhador (1993), Regras da Vida (1999) e Chocolate (2000), entre outros, o diretor sueco traz mais um longa que deve deixar espectadores com o coração apertado. Sempre ao seu Lado (Hachiko: A Dog´s Story, 2009) une, além de Hallström, outro fator que o público adora: cachorro.

Depois do sucesso de Marley e Eu (2008), dirigido por David Frankel, o filme – já disponível em DVD –  traz, também, uma história real sobre um cachorro. Em 1923, Hidesaburo Ueno, um professor da Universidade de Tóquio, levou para a capital japonesa um cachorro da raça Akita nascido em Odate, cujo nome era Hachiko e que se tornou seu companheiro inseparável. Todos os dias, o cachorro acompanhava o dono de casa até a estação Shibuya esperando-o embarcar no trem. Quando o dono retornava do trabalho, lá estava o Hachiko esperando para voltar com ele para casa. O problema é que, pouco mais de um ano depois, Ueno morre durante uma reunião na Universidade e Hachiko acredita que seu dono irá voltar. O cachorro, então, retorna à praça, no mesmo horário, e espera todos os dias. E faz isso por longos nove anos.
A melancólica história de Hachiko foi transposta para as telas com elenco americano. O professor, interpretado por Richard Gere, ganhou o nome de Parker Wilson, que encontra o cachorro, que cai enquanto é transportado pelas ruas da cidade. Sua mulher, Cate (Joan Allen, sempre boa atriz) é, a princípio, totalmente contra a ideia de ter um cachorro. Para completar o elenco, temos Andy (Sarah Roemer) como a filha de Parker e Carl (Jason Alexander), amigo de Parker que trabalha na estação de trem da praça Bedridge, nome que o local ganhou na adaptação. Outros coadjuvantes completam o espaço da praça onde o cão espera o dono, até mesmo como forma de criar uma trama no local.

No Japão, Hachiko ganhou, em 1934, sua própria estátua de bronze na praça Shibuya, representando a lealdade e o amor do cão com o seu dono. Afinal, o cachorro foi ficando conhecido, ganhou espaço em jornais da época, revistas, tornou-se parte da cultura e da educação japonesas, sendo usado até como exemplo na educação infantil por pais e professores.

Em Sempre aos seu Lado, a história não se aprofunda demais. Observamos a relação entre Parker e Hachiko cada dia mais forte, com a famosa amizade do dono “com o melhor amigo do homem”. Ou seja, a atração é, de fato, o cachorro da raça Akita. carismático e, surpreendentemente, parece conseguir se expressar com olhares e ações no decorrer do filme. A cena em que Parker quer ensiná-lo a pegar a bola jogada pelo dono (como qualquer cachorro “normal” faria, mas ele se recusa) é marcante.

Açucarado sem apelar para o melodrama fácil, Sempre ao seu Lado tem uma trilha delicada, a famosa música que sobe para realçar momentos lacrimosos que, como havia de ser, funcionam. Indicado para todos os públicos, desde crianças e adultos até àqueles que tiveram, tem ou nunca tiveram um cachorro, o filme traz um Richard Gere carismático, porém ligado no automático, como se nada mais pudesse ser extraído de sua capacidade de interpretação.

Com a morte do dono, a família se muda e Hachiko permanece indo até o local, onde começa a chamar a atenção daqueles que o viam ir embora com Parker e vão criando um carinho especial pelo pobre cachorro. Chuva, sol, neve, não importa: o cachorro vai religiosamente esperar Parker quando ouve o barulho do trem chegando na estação.

Clichês à parte, Sempre ao seu Lado emociona por mostrar essa amizade incondicional entre humanos e seus cachorros. E mostra o início da popularidade de Hachiko, que recebe cartas, presentes e até mesmo dinheiro das pessoas. Na cena mais emocionante, Hachiko aparece velho, doente e quase sem forças, senta-se na praça como fez pelos últimos 10 anos e é visto por Cate, a viúva de Parker, fechando com chave de ouro um filme que, com certeza, vai lhe fazer dormir abraçado com seu cachorro após assisti-lo.

Nessa segunda-feira (19 de julho), o elenco de O Bem-Amado e o diretor Guel Arraes, estiveram em um hotel em São Paulo para divulgar o filme, primeira adaptação no cinema da famosa peça de Dias Gomes, que estreia nesta sexta-feira (23 de julho).

Bem-humorados apesar de estarem há mais de seis horas seguidas dando entrevistas, os atores Marco Nanini, José Wilker, Andréa Beltrão, Zezé Polessa, Matheus Nachtergaele, Maria Flor e o diretor pernambucano bateram um papo descontraído com jornalistas. O Terra esteve lá e aqui você confere os melhores momentos da conversa:

Andréa Beltrão, Zezé Polessa e Maria Flor
Andréa Beltrão e Zezé Polessa interpretam Dulcinéia e Dorotéia, respectivamente. Duas das três irmãs Cajazeiras (a terceira é a atriz Drica Moraes, que se recupera de um transplante de medula), elas conversaram sobre seus papéis no longa, recheado de humor. Maria Flor completou o trio, falando de sua personagem Violeta, a filha do corrupto político Odorico Paraguaçu (Marco Nanini).

Quando perguntadas se foram inspiradas pelas atrizes que anteriormente interpretaram os seus papéis na série e na novela, as atrizes disseram que tiraram de si o modo de interpretação. “Nós bebemos do roteiro do Guel Arraes e do Miguel Paiva. Não queríamos uma repetição e sim uma ligação afetiva”, diz Andréa. Zezé, que também acompanhou a novela, disse que não reviu e sim manteve aquela sensação da imagem perdida do tempo para auxuliar na atuação. Para Andréa Beltrão, o mais importante foi, durante a construção da personagem, em que foram guiadas e alimentadas pela direção de Guel, um perfeccionista na direção.

Porém, nem tudo é humor em relação à Dulcinéia, personagem de Zezé. A mais velha das irmãs Cajazeiras tinha de trazer na bagagem uma aura de que algo de trágico viria a acontecer, ou seja, fez com que a atriz criasse um humor denso, sem ser debochado ao extremo.

Maria Flor, que estreou no humor sendo dirigida por Arraes, é mais categórica: “Guel tem o olho e devemos apenas seguir a coreografia”, disse, referindo-se às marcações infinitas do diretor pernambucano. “Ele sabe o que devemos passar para o personagem e só nos resta sermos guiados para ficar do melhor modo”.

Andréa, uma “especialista” em Guel Arraes, trabalha com o diretor desde os 20 anos quando fez Armação Ilimitada e já sabe quando algo está do jeito que ele quer. “Quando vejo que ele quer de um jeito, eu analiso a fundo e vejo que já sei do que ele está falando”, declarou.

E essa química transparece na tela. Zezé e Andréa lembram a cena que mais gostaram de fazer e que mais ficaram felizes de assistir no resultado final: a da fotonovela, em que o dramalhão mexicano dá o toque necessário para que se perca em drama e ganhe em humor.

“A importância de uma refilmagem deve se resumir a uma boa história”, explica Andréa, “afinal, se uma história é boa, com bons atores, uma boa direção, fazer cinema – que é algo tão difícil – se torna recompensador”.

Guel Arraes e Marco Nanini
“Os lugares que se levam a sério são os melhores para fazer comédia”. A frase foi uma das primeiras a sair da boca do diretor de O Bem-Amado. Afinal, nada melhor que usar a política para rir dela dentro do cinema, com riso nervoso, sarcástico ou irônico. Junto do protagonista Marco Nanini, o bem-amado Odorico Paraguaçu do longa, Arraes, filho do ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes, conhece de perto esse universo.

E, para ele, infelizmente, ainda há muitos “Odoricos soltos por aí, mas nenhum deles veste a carapuça; assistem, riem, se identificam, mas não assumem que é um retrato deles próprios”.

Com um modo próprio de direção, Guel Arraes disse que seu processo de roteiro passa primeiro por sua mente e depois ganha a prática, com personagens e marcações, ou seja, a mise-en-scène em si. E é aí que entrou Nanini, ator presente em todos os filmes do diretor.

“Guel sabe como dirigir. Ele envolve o ator no universo que ele quer criar, compreende o ator, entrega o roteiro decupado e eu, como já conheço o jeito dele de filmar, sei ate que tipo de emoção expressar pois sei como a câmera estará posicionada em cada momento”, diz Nanini, que criou em seu Odorico mais um personagem memorável de sua galeria cinematográfica.

Perguntado sobre seu modo ágil e dinâmico de filmar, Arraes diz que, quando entrou para a TV, achou tudo muito parado. “Sou atento a detalhes, a objetos, e levei isso para a televisão”, complementa o diretor. E volta a falar de política ao dizer que Nanini, no papel de um político, é um ator interpretando um ator pois, segundo Arraes, “todos os políticos são atores”.

Em relação às filmagens, Arraes diz que O Bem-Amado cumpriu seu prazo de 7 semanas. Isso, porém, levou os atores à exaustão. “Em certo momento, tive de pedir um dia de folga”, relembra Nanini rindo, “mas o resultado foi realmente satisfatório”.

Matheus Nachtergaele e José Wilker
Matheus Nachtergaele, ao entrar na sala para a entrevista, não lembrava em nada o tímido Dirceu Borboleta que interpreta em O Bem-Amado. Falante e bem-humorado, estava acompanhado de José Wilker, o ator que dá vida a Zeca Diabo, o temeroso matador do longa. Do personagem, o único elemento ainda presente era a inconfundível voz de Wilker.

Nachtergaele começou e engatou uma conversa mais politizada. “Dirceu Borboleta retrata como ser honesto pode ser cafona no Brasil, a voz sensata que ninguém ouve, o homem educado, delicado e assexuado”, declarou o ator, que já havia trabalhado com Arraes no grande sucesso O Auto da Compadecida.

Nachtergaele conta que todo ator é um tipo de esquizofrênico, citando sua própria experiência como parâmetro: “algo de cada personagem sempre fica e sempre sai de mim”.

Wilker completou a análise de Nachtergaele falando de como cresceu ouvindo as histórias sobre os cangaceiros, os matadores nordestinos e como isso o ajudou a criar seu Zeca Diabo. “Onde a miséria impera, esse tipo de figura é necessária. É um personagem que guarda a ingenuidade do homem do povo, a pureza despreparada que também se rende a Odorico”. E finaliza: “O Brasil ainda é uma Sucupira cheia de Odoricos. Ou seja, ainda somos e vivemos como os nossos pais”.

PS: publicado, originalmente, no Portal Terra: http://cinema.terra.com.br/interna/0,,OI4577998-EI1176,00.html

Em 1962, Dias Gomes escreveu a peça Odorico, o Bem-Amado ou Os Mistérios do Amor e da Morte, que contava a história do emblemático Odorico Paraguaçu, um político corrupto, conquistador e hipócrita, porém repleto de carisma e com um discurso capaz de deixar pessoas de queixo caído pela eloqüência e confiança com que falava. Quarenta anos depois e a história remete aos dias de hoje? Sim, como se tivesse sido escrita em 2010.

Após duas famosas transposições para a televisão (uma novela em 1973 e uma minissérie com mesmo elenco exibida entre 1980 e 1984), O Bem-Amado – título reduzido em ambas as versões – se tornou uma das mais populares histórias de sátira e denúncia à corrupção política já feitas no Brasil.

Eis que, 26 anos depois da despedida na televisão, a história chega às telonas pelas mãos do competente diretor pernambucano Guel Arraes. Expert em histórias de humor e denúncia social, o diretor brasileiro já havia levado O Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro ao cinema com roteiro afiado e ritmo vertiginoso.

Com O Bem Amado, Arraes reconta, de forma atualizada, a história de Odorico (Marco Nanini, hilário), o político eleito da pacata cidade fictícia de Sucupira, na Bahia. As locações, entretanto, foram em Alagoas, no município de Marechal Deodoro.

Tendo como fiéis escudeiros o secretário Dirceu Borboleta (Matheus Nachtergaele) e as irmãs Dulcinéia (Andréa Beltrão), Dorotéia (Zezé Polessa) e Judicéia (Drica Moraes), Odorico precisa inaugurar sua primeira obra como novo prefeito: um cemitério. O problema é que não morre ninguém na cidade. Para solucionar o problema, ele conta com diversas artimanhas como, até mesmo, contratar o perigoso matador Zeca Diabo (José Wilker), assassino do seu predecessor.

Nesse ínterim, tem de lidar com o jornalista Vladimir de Castro (Tonico Pereira), que sabe da corrupção de seu governo e almeja tirá-lo do poder e assumir o posto de governante.

Com roteiro de Cláudio Paiva e Arraes, responsáveis por sucessos do humor como TV Pirata e A Grande Família, o filme mantém a época (os anos 60) e traça um panorama sarcástico da corrupção política entre a fictícia Sucupira e o Brasil prestes a cair na época do Regime Militar.

As estratégias de Odorico para conseguir que um morto na cidade solidifique sua glória como prefeito trazem a marca inconfundível de Arraes, cujos filmes contém o diálogo dinâmico, o ritmo rápido entremeado de cortes e a ótima edição, que fazem com que o filme não perca o ritmo da narrativa. E o político tem nas engraçadas irmãs Cajazeiras três mulheres que sonham em ser a primeira dama da cidade, seja na romântica Dulcinéia, na resguardada Dorotéia ou na espevitada Judicéia, a libidinosa, alcoólatra e mais nova do trio.

Com os neologismos do seu inigualável vocabulário, Odorico não fala, discursa. É o típico político que faz uso das palavras para conquistar a todos, sem exceção. E cria expressões enfeitadas para impressionar, como “mal-caratistas”, “emboramente”, “construimento” e “sigilento”. Quem não entende, claro, fica boquiaberto com a “inteligência” do prefeito. E ele ganha fama e inimigos no caminhar da carruagem.

Além disso, o filme traz outros personagens curiosos, como o bêbado Chico Moleza (Edmilson Barros) e o cético jornalista Neco (Caio Blat) que se apaixona pela doce e ousada Violeta (Maria Flor), filha de Odorico que estuda na capital. Neco e Violeta representam, inclusive, a juventude que, mesmo com a revolução sexual e cultural da época, não deixam o cunho político de lado.

A ideia não chega a ser aprofundada e mostra o povo de Sucupira por meio do bêbado Molenga, único que não é próximo de Odorico, ou seja, uma referência ao povo submisso, volátil e enganado, já que se torna o coveiro do cemitério e nunca recebe seu salário.

José Wilker, que tem curta participação como o temido Zeca Diabo, mostra um personagem sombrio, de voz imponente, olhar fixo mas, ao mesmo tempo, o herói que o povo precisa para fazer a justiça necessária que povo, forças armadas e políticos despreparados são incapazes de prover.

O final pode surpreender aos que não conhecem o desfecho dado por Dias Gomes à história. O Bem-Amado fala de um personagem brasileiro emblemático que, como político, foi destruído pelo povo; e, como ser humano, foi destruído pelas pessoas próximas a ele. Pena que Odorico Paraguaçu represente muitos políticos, mas seu destino seja diferente daqueles que governam na vida real.

PS: texto publicado, originalmente, no Portal Terra: http://cinema.terra.com.br/interna/0,,OI4578062-EI1176,00-Com+humor+e+critica+a+politica+O+BemAmado+chega+aos+cinemas.html

Renomado diretor de videoclipes musicais, Spike Jonze já havia dado ao cinema algumas obras renomadas como Adaptação (1999), Quero Ser John Malkovich (2002) e Onde Vivem os Monstros (2009) onde, neste último, acumulou as funções de direção e roteirista, adaptando o cultuado livro de Maurice Sendak.

Em 2010, Jonze criou uma parceria com a marca de vodca Absolut para o projeto Estou Aqui. Com histórias filosóficas em suas tramas, seu mais novo projeto atinge um patamar que mistura fantasia e romance, em uma história que, certamente, vai emocionar e impressionar os fãs do diretor.

Contando a história de amor de dois robôs que dividem espaço com os humanos em Los Angeles, o curta metragem de 30 minutos estreou no Festival de Sundance 2010 com murmurinhos e emoção, sendo ovacionado pelo público. Com total liberdade de trabalho, Jonze fez o que melhor sabe fazer: tratou com delicadeza um tema que se tornaria uma comédia de mau gosto pelas mãos de outro artista despreparado.

Sheldon (Andrew Garfield, escolhido como o novo Homem-Aranha do cinema) é um robô tímido, solitário e carismático que conhece Francesca (Sienna Guillory), uma robô animada, que adora curtir a vida, ir a festas, dançar, ouvir música e dirigir seu carro com os amigos. Os dois se conhecem e essa diferença de temperamentos e comportamentos vai fazer nascer um amor puro, delicado e incondicional.

A ideia de divulgação de Jonze, um diretor do circuito mais alternativo até como consequência da temática de seus longas, foi de um marketeiro nato. Estratégia da Absolut, certamente, que criou um hotsite (www.imhere.com) em que internautas poderiam – e ainda podem – assistir a Estou Aqui online. Na sessões virtuais, “as salas lotavam”, ou seja, havia um número limitado de acessos para assistir ao curta. Esse boca a boca entre os internautas foi criando uma expectativa – suprida na maioria, felizmente – pelo público.

Porém, no mundo real, Estou Aqui teve pré-estreia nessa quarta-feira (28) no auditório do MIS (Museu da Imagem e do Som) de São Paulo, pegando carona na mostra multidimensional ROJO®NOVA, que ocupará o local durante sete semanas.

Com curadoria do artista plástico espanhol David Quiles Guilló, foi criada para a exibição na telona um cenário de luzes interativo e alinhado com o filme, para que espectadores possam vivenciar a experiência reproduzida por Jonze durante as sessões.

Até mesmo uma tela do lado de fora do auditório foi inspirada no filme, com concepção dos artistas Mulheres Barbadas, que mostravam os robôs nas paredes.

Com seres humanos em estrutura de robôs, a concepção de Estou Aqui foi criada pela empresa TBWAChiatDay, produção da MJZ e efeitos visuais da Method Studios, mostrando Sheldon com uma estrutura mais quadrada, em que sua cabeça é uma CPU de computador, enquanto Francesca é mais delicada, tem traços mais femininos. Uma coisa, entretanto, é comum aos dois: a forte expressão dos olhos.

A Pixar e a Disney já haviam conseguido esse trunfo com a fabulosa animação Wall-e (2008) ao dar vida aos olhos do solitário e adorável robô vencedor do Oscar e Globo de Ouro de Melhor Animação em 2009. Até mesmo o diretor água-com-açúcar Chris Columbus e seu O Homem Bicentenário (1999), cuja estrutura robótica se baseou no ator Robin Williams utilizou a técnica.

A trilha sonora de Estou Aqui é um espetáculo à parte, intimista e apoiada na bela canção da japonesa Aska Matsumiya, There Are Many of Us, neste curta que trata do amor passível a todos.

Até mesmo a cena em que os robôs “fazem amor” é carregada de poesia em uma momento que poderia ser reduzido a uma estranheza sem tamanho. Mas Jonze passa por cima disso e insere um diálogo em que Sheldon e Francesca falam sobre a capacidade dos robôs de sonharem.

Com detalhes que poderiam passar despercebidos (como quando Sheldon, dentro da biblioteca, observa um avião passar, desejando a liberdade), Jonze se atenta a tudo isso e vai além. E nos identificamos: passamos a olhá-los como se fossem humanos, pois o amor faz parte de cada um de nós.

 

Publicado, originalmente, no Portal Terra: http://cinema.terra.com.br/interna/0,,OI4596329-EI1176,00-Curta+sobre+historia+de+amor+entre+robos+estreia+em+SP.html