Queria pedir permissão ao leitor antes de escrever sobre esse filme. Quando assisti a Wall-E (2008), animação da Pixar, fiquei em choque. Eu, que já havia assistido aos mais diversos filmes desde os meus áureos 12 anos – e já cinéfilo – fui tocado de forma inimaginável. Wall-E havia unido todos os gêneros do cinema com ritmo e delicadeza impressionantes, abordando temas como solidão, meio ambiente e amor. Achei que uma animação – por mais que elas sempre tragam histórias geniais – jamais me impressionasse como aquela obra-prima. Até que assisti Mary e Max – uma amizade diferente. Dirigida e roteirizada por Adam Elliot (estreando na direção após ter feito alguns curtas-metragens, como o vencedor do Oscar de Melhor Animação em 2003, com Harvie Krumpet), Mary e Max é uma animação de encher olhos e coração.

Baseado em uma história real, o filme começa em 1976, no subúrbio de Melbourne, na Austrália, contando a história de Mary Dinkle (voz de Bethany Whitmore na infância e Toni Collette na fase adulta), uma menininha gorda e solitária, que sofre com a indiferença da mãe Vera, alcoólatra e depressiva, e do submisso e ausente pai Noel. Criando seu próprio mundo de fantasia, ela adora comer leite condensado e assistir ao seu programa de TV favorito: Os Noblets.

Certo dia, curiosa em saber como nascem os bebês na América – visto que o avô havia lhe dito que, na Austrália, eles nasciam em canecas de cerveja – Mary decide escolher ao acaso o endereço de um americano na lista telefônica e lhe mandar uma carta. Quem recebe no outro continente é o judeu Max Horovitz (voz de Philip Seymour Hoffman), um homem de 44 anos obeso, igualmente solitário e também fã dos Noblets, que mora em Nova Iorque e sofre de um grave problema psicológico, além de ser viciado em cachorro-quente de chocolate.

A partir daí, Mary e Max, duas pessoas com aparentemente nada em comum – mas de gostos e ideias muito peculiares -, começam uma delicada e complicada amizade que dura impressionantes 22 anos. Tocando em temas fortes como solidão, assassinato, abandono, suicídio, política, religião e depressão, Mary e Max – uma amizade diferente tem um ritmo excepcionalmente dinâmico, com uma estética que mistura técnica em stop-motion (aquela de uso de massinha com captação de movimentos dos bonecos) e cenários impressionantemente reais.

Com características físicas e psicológicas minuciosamente bem definidas, Mary e Max – uma amizade diferente é permeado pela melancolia, mas traz momentos hilários, especialmente pela visão que os dois personagens principais têm da vida. Apoiado em uma nostalgia intrínseca de um homem-quase-criança, que observa uma menina-quase-adulta, há uma espécie de retorno à sua infância, igualmente traumática e complexa, misturada com maturidade e inocência que desabrocham em ambas as fases.

Na estética da predominante cor marrom no mundo de Mary e no preto-e-branco da metrópole nova-iorquina de Max, o humor refinado e inteligente casa com o roteiro sensível que foge da pieguice, com um lirismo intocável. É possível perceber até mesmo as mudanças nas pessoas e nos lugares, com o passar dos anos.

Nessa ajuda mútua que chega ao extremo, Mary e Max vão envelhecendo juntos, acompanhando as mudanças, as tristezas, as dúvidas e as alegrias um do outro. Porém, mesmo sendo tão próximos e tão distantes, essa disparidade da amizade dos dois também gera conflitos por conta da doença ainda desconhecida de Max. E a amizade toma contornos incondicionais entre eles, podendo emocionar até os espectadores menos sensíveis.

Com belíssima trilha sonora de Dale Cornelius, o filme traz detalhes curiosos e imperceptíveis pelas crianças, como o mendigo que troca esmolas por abraços, os cachorros Sonny e Cher e o hippie fumando maconha. Entre cenas esplendorosas (a cena de Mary ao som da canção Que Será, Será é de arrepiar) ao final inesquecível, tomamos uma frase dita pelo judeu Max entre as cartas trocadas: “Deus nos dá a família. Mas graças a Ele, escolhemos nossos amigos”.

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