junho 2010


Acho que minha vida pode ser dividida em algumas fases cinematográficas. Um dos primeiros filmes que lembro de ter visto foi a trilogia “Indiana Jones”, aos 7 anos. Meus olhos brilhavam ao acompanhar a saga do arqueólogo-professor-aventureiro charmoso interpretado por Harrison Ford em filmes deliciosamente dirigidos por Steven Spielberg.

Depois, aos 10, vi pela primeira vez “Mary Poppins”, clássico da Disney dos anos 60, que mostrava a babá mágica que toda criança sonharia em ter. Olhava para Julie Andrews e conseguia imaginar aquela mulher linda, divertida e que levava as crianças a um mundo lindo e fantástico.

Eis que, aos 12, vi “Toy Story”. Eu – e, acredito que muita gente também – ainda não sabia a dimensão que a Pixar tomaria nos anos seguintes. Era o primeiro filme totalmente feito com computação gráfica e, observar aquela magia de que os brinquedos ganhavam vida quando os seres humanos não estavam vendo, eram coisas maravilhosas de se ver, sentir e se divertir. Misturava humor, aventura, personagens cativantes e com personalidades bem delineadas, além de temas sérios, como inveja, solidão e ciúmes.

“Toy Story 2” chegou às telas quando eu tinha 17 anos e eu vi que a Pixar estava acompanhando o crescimento de seus espectadores. Os personagens ganharam passado e a escolha de viver para sempre sendo amado por outras crianças ou correr o risco de viver no ostracismo quando o seu dono crescesse. Não estávamos mais brincando, literalmente. Mas, mesmo assim, nos divertíamos. E nos emocionávamos.

Então, em 2010, chega “Toy Story 3”. O definitivo. Mesmo que haja uma continuação, seria “desnecessário”, a meu ver. O ciclo da trupe composta pelo caubói Woody, o astronauta Buzz Lightyear e companhia se fecha de um modo impressionantemente bem acabado. Andy, o dono dos brinquedos, está com 17 anos e pronto para ir para a faculdade. Para a família de bonecos, o momentos que eles esperavam com pesar havia chegado: a vida adulta de seu dono.

Com uma cena inicial fantástica, repleta de efeitos especiais, “Toy Story 3” jamais perde o ritmo. Com uma tecnologia infinitamente superior ao seu primeiro longa, o filme tem ação, humor e um roteiro de extrema inteligência. Emocionante, o filme é uma ode à infância que se “perde” com a chegada da vida adulta e as consequências disso. Literalmente, um filme para adultos e crianças, tocando em temas como a saudade, a separação, a nostalgia de um tempo que não volta mais.

Esses brinquedos que tanto fizeram parte da vida de Andy estão sem rumo. Não sabem se serão guardados no sótão, se irão para a faculdade, destinados à doação ou,  simplesmente, jogados na lata de lixo. Porém, após uma confusão, os brinquedos – com exceção de Woody – vão parar em um orfanato, repleto de outros brinquedos e algumas surpresas nada agradáveis. É aí que a aventura finalmente começa.

Coadjuvantes bem desenvolvidos – cujas características e personalidades se apropriam se suas estruturas como brinquedos -, muita aventura e, claro, um filme bem amarrado e emocionante do começo ao fim. Com referências cinematográficas que os pequenos só entenderão quando estiverem mais velhos, “Toy Story 3” é mais sombrio que os dois primeiros, mas não deixa de lado o humor inteligente e , ao mesmo tempo, pastelão que consagrou a série. Com vilões que enganam pela carinha inocente, o filme é uma mostra de que o sofrimento pode transformar as pessoas, seja pelo lado bom como pelo lado ruim.

Outra parte interessante do filme é como os brinquedos saem do quarto e ganham outros espaços, interagem mais com o mundo exterior, tomando sempre cuidado para não serem vistos pelos humanos. Tudo funciona em termos de ação, aventura, suspense, drama, romance, mas sempre com a aura do filme e a seiva da Pixar. Com direção de Lee Unkrich e roteiro escrito a oito mãos (Unkrich, Michael Arndt, John Lasseter e Andrew Stanton), “Toy Story 3” prende a atenção até o fim.

Com cenas de extrema delicadeza e poesia, o final melancólico e lacrimoso nos traz o ciclo incessante da vida infantil substituída pela maturidade. Porém, na vida adulta esconde-se, sorrateiramente, a alma que um dia já foi criança. E mesmo tristonhos e saudosistas, percebemos que sempre há tempo e idade para uma última brincadeira.

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Queria pedir permissão ao leitor antes de escrever sobre esse filme. Quando assisti a Wall-E (2008), animação da Pixar, fiquei em choque. Eu, que já havia assistido aos mais diversos filmes desde os meus áureos 12 anos – e já cinéfilo – fui tocado de forma inimaginável. Wall-E havia unido todos os gêneros do cinema com ritmo e delicadeza impressionantes, abordando temas como solidão, meio ambiente e amor. Achei que uma animação – por mais que elas sempre tragam histórias geniais – jamais me impressionasse como aquela obra-prima. Até que assisti Mary e Max – uma amizade diferente. Dirigida e roteirizada por Adam Elliot (estreando na direção após ter feito alguns curtas-metragens, como o vencedor do Oscar de Melhor Animação em 2003, com Harvie Krumpet), Mary e Max é uma animação de encher olhos e coração.

Baseado em uma história real, o filme começa em 1976, no subúrbio de Melbourne, na Austrália, contando a história de Mary Dinkle (voz de Bethany Whitmore na infância e Toni Collette na fase adulta), uma menininha gorda e solitária, que sofre com a indiferença da mãe Vera, alcoólatra e depressiva, e do submisso e ausente pai Noel. Criando seu próprio mundo de fantasia, ela adora comer leite condensado e assistir ao seu programa de TV favorito: Os Noblets.

Certo dia, curiosa em saber como nascem os bebês na América – visto que o avô havia lhe dito que, na Austrália, eles nasciam em canecas de cerveja – Mary decide escolher ao acaso o endereço de um americano na lista telefônica e lhe mandar uma carta. Quem recebe no outro continente é o judeu Max Horovitz (voz de Philip Seymour Hoffman), um homem de 44 anos obeso, igualmente solitário e também fã dos Noblets, que mora em Nova Iorque e sofre de um grave problema psicológico, além de ser viciado em cachorro-quente de chocolate.

A partir daí, Mary e Max, duas pessoas com aparentemente nada em comum – mas de gostos e ideias muito peculiares -, começam uma delicada e complicada amizade que dura impressionantes 22 anos. Tocando em temas fortes como solidão, assassinato, abandono, suicídio, política, religião e depressão, Mary e Max – uma amizade diferente tem um ritmo excepcionalmente dinâmico, com uma estética que mistura técnica em stop-motion (aquela de uso de massinha com captação de movimentos dos bonecos) e cenários impressionantemente reais.

Com características físicas e psicológicas minuciosamente bem definidas, Mary e Max – uma amizade diferente é permeado pela melancolia, mas traz momentos hilários, especialmente pela visão que os dois personagens principais têm da vida. Apoiado em uma nostalgia intrínseca de um homem-quase-criança, que observa uma menina-quase-adulta, há uma espécie de retorno à sua infância, igualmente traumática e complexa, misturada com maturidade e inocência que desabrocham em ambas as fases.

Na estética da predominante cor marrom no mundo de Mary e no preto-e-branco da metrópole nova-iorquina de Max, o humor refinado e inteligente casa com o roteiro sensível que foge da pieguice, com um lirismo intocável. É possível perceber até mesmo as mudanças nas pessoas e nos lugares, com o passar dos anos.

Nessa ajuda mútua que chega ao extremo, Mary e Max vão envelhecendo juntos, acompanhando as mudanças, as tristezas, as dúvidas e as alegrias um do outro. Porém, mesmo sendo tão próximos e tão distantes, essa disparidade da amizade dos dois também gera conflitos por conta da doença ainda desconhecida de Max. E a amizade toma contornos incondicionais entre eles, podendo emocionar até os espectadores menos sensíveis.

Com belíssima trilha sonora de Dale Cornelius, o filme traz detalhes curiosos e imperceptíveis pelas crianças, como o mendigo que troca esmolas por abraços, os cachorros Sonny e Cher e o hippie fumando maconha. Entre cenas esplendorosas (a cena de Mary ao som da canção Que Será, Será é de arrepiar) ao final inesquecível, tomamos uma frase dita pelo judeu Max entre as cartas trocadas: “Deus nos dá a família. Mas graças a Ele, escolhemos nossos amigos”.