Partir de um pré conceito ao assistir ao primeiro filme realizado por um estilista seria acreditar que ele faria um filme belo. Mas é necessário partir do conceito de que Tom Ford conseguiu a proeza de realizar um belo filme.

Ford é o estilista cujo trabalho mais renomado foi revitalizar a marca Gucci. Grande nome no mundo da moda, o americano de 47 anos decidiu expandir seu talento e adaptou o romance Direito de Amar de Christopher Isherwood junto com David Scearce. Chamou Colin Firth, um ator de talento, antes relegado a papéis menores e a renomada Julianne Moore para um pequeno, porém brilhante participação. Nascia aí o filme homônimo dirigido, adaptado e produzido por Ford.

A história se passa em 1962 e mostra um dia na vida de George Falconer (Colin Firth), um homossexual que, há oito meses, perdeu o grande amor de sua vida, Jim (Matthew Goode) em um acidente de carro. Acompanhamos, então, a rotina desconcertante desse personagem para suportar um dia em sua vida. Como tem feito desde a morte de Jim após 16 anos de união velada.

Podemos concluir que Direito de Amar traz uma gama de experimentações extraordinárias, desde os planos de câmera, a trilha sonora intensa e melancólica, e a fotografia impecável. Indicado ao Oscar de Melhor Ator neste ano, Colin Firth não levou, mas desempenhou o papel mais importante de sua carreira até o momento.

O modo como criou o professor universitário George é único. Tímido, recatadamente inglês, reservado, educado e metódico até o último fio de cabelo. Por dentro, um turbilhão de emoções, depressivo e prestes a pôr fim à sua vida.

Angustiante do começo ao fim, o longa mostra um personagem em frangalhos, viciado em remédios e bebidas, que vive de pesadelos e recentemente sofreu um infarto. A única coisa que ele espera, ao se levantar, é conseguir sobreviver ao final do dia. Porém, Tom Ford e Colin Firth – criam um personagem que nunca cai na pieguice e no melodrama banal. Acredita-se, sente-se empatia, fica-se tenso durante todo o tempo.

Nos EUA dos anos 60, onde as aparências e a felicidade camufladas relevavam os problemas internos. Nessa alegria triste, George vive um teatro, oculta sofrimentos e sofre calado. Até mesmo para a melhor amiga, Charlotte (Julianne Moore, irretocável como sempre, e com um convincente sotaque britânico) George tenta esconder a dor que sente pela perda de Jim. É quando o jovem aluno Kenny (Nicholas Hoult) se aproxima do professor com sua personalidade inocente, ousada e sensual, dando-lhe margem para um renascimento interior e exterior.

Com flashes do passado, George vai relembrando os momentos passados com a pessoa que mais amava, em uma época em que a homossexualidade pré-Stonewall era velada, passível de prisão. Da fotografia opaca de sua casa, as cores quentes retornam nas lembranças com Jim, com planos que lembram quadros e fotografias, sempre favorecidos pelos reflexos e pelos enquadramentos cuidadosamente calculados. A câmera lenta retrata essa demora do dia, um tic-tac ensurdecedor do relógio e belos momentos de divagação e beleza. O roteiro inteligente, sexy e filosófico é ágil, mantendo a linha de pensamento de George Falconer, à qual o filme pertence.

Ford abusa dos closes, das cores, dos planos e das contemplações, porém, mais importante que tudo, não se perde em tais elementos. Tem o timing certo de tirar da beleza a poesia ou a tragédia necessária e não se esvaziar em uma admiração da própria obra.

E vale frisar, todo o talento de Tom Ford não seria suficiente sem o talento de Firth , que criou um personagem sexy, irônico, melancólico e inteligente. O que o define no título original de A Single Man, uma das traduções mais escatológicas que se viu em terras brasileiras. Afinal, “single” pode significar solteiro, avulso, singular, só, simples e singelo. E todos cabem no George Falconer de  Colin Firth.

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