Muitos já estão cansados de Avatar e muitos não se cansam de rever. O filme é considerado o mais caro da história do Cinema (estimado em US$ 500 milhões), um marco na forma de se ver a Sétima Arte e um trabalho megalomaníaco do diretor James Cameron (Titanic, Alien – O Oitavo Passageiro e O Exterminado do Futuro 1 e 2), que demorou 15 anos para conceber o filme.

A história não é, necessariamente, original. Misturando um pouco da trama de Tarzan com grandes goles na fonte de Pocahontas, o filme, deve-se reconhecer, é um espetáculo visual como jamais se viu. Afinal, os efeitos visuais foram criados pela WETA Digital, empresa neozelandesa que serviu para criar o universo – e com isso me refiro ao Gollum – da trilogia O Senhor dos Anéis e a refilmagem de King Kong, ambos dirigidos pelo também megalomaníaco diretor Peter Jackson.

No futuro, o soldado paraplégico Jake Sully (Sam Worthington) é encarregado de entrar no mundo fantástico de Pandora, onde vivem as criaturas azuis Na´Vi, uma raça nativa dócil e extremamente ligada à natureza. Por meio de uma tecnologia desenvolvida pelos militares americanos, seres humanos podem se tornar avatares, ou seja, entrarem naquele universo com corpo dos gigantes seres azuis de olhos amarelos.

O objetivo de colocar Jake no mundo dos Na´Vi é – como haveria de ser da nossa natureza humana – explorar uma matéria-prima localizada no profundo solo de Pandora, chamada Unobtanium (em tradução o inglês, algo como “impossível de adquirir”). Mas, para os humanos, essa reserva inimaginável vale a pena. Afinal, o quilo do material custa exorbitantes bilhões de dólares. Mas o filme nunca explica o por quê do valor ou função exorbitante de tal material.

Jake, ao entrar nesse mundo, fica fascinado com diversas possibilidades, inclusive ter de volta sua capacidade de andar. Porém, ele não deve se esquecer de que sua missão é convencer os nativos a saírem de lá para que os humanos peguem o tal “impossível de adquirir”) e vivam felizes (ou não). Para isso, o jovem ganha a confiança de Neytiri (Zoe Saldana), uma Na´Vi que o ensinará a se tornar respeitado no grupo que, mesmo espirituoso, é arredio. E é aí que, mais do que óbvio, começa o primeiro martírio de Jake: ele se apaixona pela moça.

Ao mesmo tempo, Jake observa a conexão com a natureza do povo que vai de desencontro com a ganância sem limites dos humanos. Chega o martírio número dois e Jake precisa escolher de qual lado ficará nessa guerra de mundos, seres, personalidades, culturas, dogmas e tantos outros conflitos. Ecologicamente correto, Avatar remete muito à exploração de tantos outros povos que estopem nossos livros de História.

Com um elenco que traz, também, Sigourney Weaver (como a doutora Grace), Giovanni Ribisi (como o arrogante e ganancioso Parker) e o coronel Quaritch (“caricaterizado”, desculpem o trocadilho infame, por Stephen Lang), Avatar traz uma revolução jamais vista – especialmente em 3D – que, mais do que encher, chega a transbordar os olhos. Os atores personificados como Na´Vi tiveram seus movimentos captados por pontos eletrônicos colocados em seus corpos e, posteriormente modificados por computação gráfica. E foi preciso 15 anos para que Cameron conseguisse a tecnologia necessária para tal.

Ao assistir Avatar, acreditamos que os seres nativos de Pandora existem. O universo de cores e luzes criado para representar o mundo impressiona, assim como criaturas da floresta que, com certeza, viraram referência para muitos fãs de ficção científica. Mas falta recheio. Parece um bolo eximiamente decorado por fora, com cobertura, calda e uma cereja no topo, mas que, por dentro, deixa a desejar.

Talvez James Cameron tenha sido, apenas, humano: impressionou-se com o visual de Pandora e não se ateve tão a fundo à história dos Na´Vi. Quem sabe Jake Sully – seja seu Avatar ou seu lado humano – possa ensiná-lo, um dia.

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