março 2010


Partir de um pré conceito ao assistir ao primeiro filme realizado por um estilista seria acreditar que ele faria um filme belo. Mas é necessário partir do conceito de que Tom Ford conseguiu a proeza de realizar um belo filme.

Ford é o estilista cujo trabalho mais renomado foi revitalizar a marca Gucci. Grande nome no mundo da moda, o americano de 47 anos decidiu expandir seu talento e adaptou o romance Direito de Amar de Christopher Isherwood junto com David Scearce. Chamou Colin Firth, um ator de talento, antes relegado a papéis menores e a renomada Julianne Moore para um pequeno, porém brilhante participação. Nascia aí o filme homônimo dirigido, adaptado e produzido por Ford.

A história se passa em 1962 e mostra um dia na vida de George Falconer (Colin Firth), um homossexual que, há oito meses, perdeu o grande amor de sua vida, Jim (Matthew Goode) em um acidente de carro. Acompanhamos, então, a rotina desconcertante desse personagem para suportar um dia em sua vida. Como tem feito desde a morte de Jim após 16 anos de união velada.

Podemos concluir que Direito de Amar traz uma gama de experimentações extraordinárias, desde os planos de câmera, a trilha sonora intensa e melancólica, e a fotografia impecável. Indicado ao Oscar de Melhor Ator neste ano, Colin Firth não levou, mas desempenhou o papel mais importante de sua carreira até o momento.

O modo como criou o professor universitário George é único. Tímido, recatadamente inglês, reservado, educado e metódico até o último fio de cabelo. Por dentro, um turbilhão de emoções, depressivo e prestes a pôr fim à sua vida.

Angustiante do começo ao fim, o longa mostra um personagem em frangalhos, viciado em remédios e bebidas, que vive de pesadelos e recentemente sofreu um infarto. A única coisa que ele espera, ao se levantar, é conseguir sobreviver ao final do dia. Porém, Tom Ford e Colin Firth – criam um personagem que nunca cai na pieguice e no melodrama banal. Acredita-se, sente-se empatia, fica-se tenso durante todo o tempo.

Nos EUA dos anos 60, onde as aparências e a felicidade camufladas relevavam os problemas internos. Nessa alegria triste, George vive um teatro, oculta sofrimentos e sofre calado. Até mesmo para a melhor amiga, Charlotte (Julianne Moore, irretocável como sempre, e com um convincente sotaque britânico) George tenta esconder a dor que sente pela perda de Jim. É quando o jovem aluno Kenny (Nicholas Hoult) se aproxima do professor com sua personalidade inocente, ousada e sensual, dando-lhe margem para um renascimento interior e exterior.

Com flashes do passado, George vai relembrando os momentos passados com a pessoa que mais amava, em uma época em que a homossexualidade pré-Stonewall era velada, passível de prisão. Da fotografia opaca de sua casa, as cores quentes retornam nas lembranças com Jim, com planos que lembram quadros e fotografias, sempre favorecidos pelos reflexos e pelos enquadramentos cuidadosamente calculados. A câmera lenta retrata essa demora do dia, um tic-tac ensurdecedor do relógio e belos momentos de divagação e beleza. O roteiro inteligente, sexy e filosófico é ágil, mantendo a linha de pensamento de George Falconer, à qual o filme pertence.

Ford abusa dos closes, das cores, dos planos e das contemplações, porém, mais importante que tudo, não se perde em tais elementos. Tem o timing certo de tirar da beleza a poesia ou a tragédia necessária e não se esvaziar em uma admiração da própria obra.

E vale frisar, todo o talento de Tom Ford não seria suficiente sem o talento de Firth , que criou um personagem sexy, irônico, melancólico e inteligente. O que o define no título original de A Single Man, uma das traduções mais escatológicas que se viu em terras brasileiras. Afinal, “single” pode significar solteiro, avulso, singular, só, simples e singelo. E todos cabem no George Falconer de  Colin Firth.

O que faz de O Segredo dos Seus Olhos o filme vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (batendo o mais que favorito alemão, A Fita Branca), de 13 prêmios da Academia de Artes da Argentina, de 2 Goya, de 5 prêmios no Festival de Cinema de Havana e ser, ainda, o filme mais visto na Argentina?

Dirigido por Juan José Campanella (da obra-prima O Filho da Noiva), o novo longa do diretor argentino traz, novamente, o seu ator predileto Ricardo Darín em uma história que mistura – acreditem – diversos gêneros em uma obra certa, redonda e emocionante. Thriller, policial, ação, romance e comédia casam de forma esplendorosa em um filme dirigido com garra e sustentado por todas as arestas audiovisuais possíveis.

A trama, baseada no romance La Pregunta de Sus Ojos, de Eduardo Sacheri, foi adaptada para as telas pelo próprio autor, junto com Campanella e conta a história de Benjamin Espósito (Ricardo Darín), um investigador aposentado que, 25 anos depois de um crime brutal, decide escrever um livro sobre o ocorrido e que foi encarregado de desvendar junto com Irene (a bela Soledad Villamil) e o amigo Sandoval (Guillermo Francella).

Pode parecer uma história novelesca e simples, que não chamaria a atenção em sua elaboração, caindo em uma mistura de homem-em-crise-de-meia-idade-que-tenta-resolver-o-passado, mas a história jamais chega a cair no lugar comum ou na perda de ritmo. Pelo contrário, mostra que Campanella buscou uma boa história e arrancou empatia dos personagens envolvidos no crime.

Desde os dois amigos (um centrado e outro alcoólatra), até a paixão que Benjamin sente em silêncio por Irene, passando pela história que envolve a doce Liliana (Carla Quevedo), friamente assassinada, e o viúvo desta, o apaixonante e apaixonado Ricardo (Pablo Rago), até retratar a cúpula jurídica que envolve corrupção, impunidade e abuso de poder, personificada com maestria pelo vilão Romano (Mariano Argento). Tudo se encaixa e se completa com perfeita veracidade.

Claro que existe a crise de conseguir escrever sobre um assunto tão complexo e pessoal, mas o filme não se apega a isso e vai mostrando como a vida de Benjamin foi alterada por conta desse crime, que o tocou e indignou tanto. E nesse vai e vem temporal de fatos passados e presentes, Campanella traz personagens carismáticos, em que torcemos, nos tocamos, sem jamais apelar para o choro forçado ou para a crueldade do assassinato.

O Segredo dos Seus Olhos mostra pessoas normais, em uma situação limite, que reagem, têm sentimentos tão humanos quanto os de seus espectadores. Ódio, indignação, vingança, amor, amizade e violência, inerentes a nós e aos personagens do longa, trazem detalhes minuciosamente bem cuidados. Seja no plano sequência de cinco minutos no estádio de futebol lotado capaz de tirar o fôlego de muitos. Seja no corajoso embate de Irene com o assassino da moça. Ou no final surpreendente, mostrando que os olhos são capazes de esconder até mesmo segredos guardados há 25 anos.

Muitos já estão cansados de Avatar e muitos não se cansam de rever. O filme é considerado o mais caro da história do Cinema (estimado em US$ 500 milhões), um marco na forma de se ver a Sétima Arte e um trabalho megalomaníaco do diretor James Cameron (Titanic, Alien – O Oitavo Passageiro e O Exterminado do Futuro 1 e 2), que demorou 15 anos para conceber o filme.

A história não é, necessariamente, original. Misturando um pouco da trama de Tarzan com grandes goles na fonte de Pocahontas, o filme, deve-se reconhecer, é um espetáculo visual como jamais se viu. Afinal, os efeitos visuais foram criados pela WETA Digital, empresa neozelandesa que serviu para criar o universo – e com isso me refiro ao Gollum – da trilogia O Senhor dos Anéis e a refilmagem de King Kong, ambos dirigidos pelo também megalomaníaco diretor Peter Jackson.

No futuro, o soldado paraplégico Jake Sully (Sam Worthington) é encarregado de entrar no mundo fantástico de Pandora, onde vivem as criaturas azuis Na´Vi, uma raça nativa dócil e extremamente ligada à natureza. Por meio de uma tecnologia desenvolvida pelos militares americanos, seres humanos podem se tornar avatares, ou seja, entrarem naquele universo com corpo dos gigantes seres azuis de olhos amarelos.

O objetivo de colocar Jake no mundo dos Na´Vi é – como haveria de ser da nossa natureza humana – explorar uma matéria-prima localizada no profundo solo de Pandora, chamada Unobtanium (em tradução o inglês, algo como “impossível de adquirir”). Mas, para os humanos, essa reserva inimaginável vale a pena. Afinal, o quilo do material custa exorbitantes bilhões de dólares. Mas o filme nunca explica o por quê do valor ou função exorbitante de tal material.

Jake, ao entrar nesse mundo, fica fascinado com diversas possibilidades, inclusive ter de volta sua capacidade de andar. Porém, ele não deve se esquecer de que sua missão é convencer os nativos a saírem de lá para que os humanos peguem o tal “impossível de adquirir”) e vivam felizes (ou não). Para isso, o jovem ganha a confiança de Neytiri (Zoe Saldana), uma Na´Vi que o ensinará a se tornar respeitado no grupo que, mesmo espirituoso, é arredio. E é aí que, mais do que óbvio, começa o primeiro martírio de Jake: ele se apaixona pela moça.

Ao mesmo tempo, Jake observa a conexão com a natureza do povo que vai de desencontro com a ganância sem limites dos humanos. Chega o martírio número dois e Jake precisa escolher de qual lado ficará nessa guerra de mundos, seres, personalidades, culturas, dogmas e tantos outros conflitos. Ecologicamente correto, Avatar remete muito à exploração de tantos outros povos que estopem nossos livros de História.

Com um elenco que traz, também, Sigourney Weaver (como a doutora Grace), Giovanni Ribisi (como o arrogante e ganancioso Parker) e o coronel Quaritch (“caricaterizado”, desculpem o trocadilho infame, por Stephen Lang), Avatar traz uma revolução jamais vista – especialmente em 3D – que, mais do que encher, chega a transbordar os olhos. Os atores personificados como Na´Vi tiveram seus movimentos captados por pontos eletrônicos colocados em seus corpos e, posteriormente modificados por computação gráfica. E foi preciso 15 anos para que Cameron conseguisse a tecnologia necessária para tal.

Ao assistir Avatar, acreditamos que os seres nativos de Pandora existem. O universo de cores e luzes criado para representar o mundo impressiona, assim como criaturas da floresta que, com certeza, viraram referência para muitos fãs de ficção científica. Mas falta recheio. Parece um bolo eximiamente decorado por fora, com cobertura, calda e uma cereja no topo, mas que, por dentro, deixa a desejar.

Talvez James Cameron tenha sido, apenas, humano: impressionou-se com o visual de Pandora e não se ateve tão a fundo à história dos Na´Vi. Quem sabe Jake Sully – seja seu Avatar ou seu lado humano – possa ensiná-lo, um dia.