Na cerimônia do Oscar de 2002, o silêncio pairava no evento, que dispensou seus números de dança, as piadas e trazia consigo um tabu: os atentados ao World Trade Center, ocorridos em 2001. Oito anos depois, diversos filmes que tratam da “guerra ao terror” fora lançados, especialmente o fenômeno Guerra ao Terror, indicado em nove categorias do Oscar deste ano, incluindo Filme e Diretor. Com O Mensageiro, estreia na direção do ator e roteirista Oren Moverman, um outro prisma do conflito é revelado.

A trama se inicia quando, durante os sangrentos conflitos na Guerra do Iraque, o jovem sargento Will Montgomery (Ben Foster) é designado a notificar as famílias dos militares mortos em combate. Junto a ele, parte o experiente capitão Tony Stone (Woody Harrelson), um homem que se mostra frio e rígido em sua postura militar. As regras impostas pelo Exército dos EUA não permitem qualquer envolvimento físico ou pessoal com o fato e/ou pessoas, fazendo com que ambos tenham de simplesmente dar a notícia, de forma imparcial e distante.

Montgomery, um jovem sozinho e traumatizado pela guerra em todos os aspectos, sofre de politraumatismo (sua perna e seus olhos foram prejudicados), mora sozinho, ouve rock pesado, assiste a filmes violentos e vive à base de remédios. Ele ainda tem de lidar com a distância da ex-namorada Kelly (Jena Malone, a outrora menininha de Lado a Lado), que o abandonou em conseqüência de sua vida militar para casar-se com outro homem. Sua nova rotina muda quando vão comunicar a morte do marido de Olivia (Samantha Morton, sempre ótima) e o jovem sargento Montgomery envolve-se com a viúva.

Nessa bolha de nervos à flor da pele permeada por guerra, traumas e contestação, ambos têm de manter sua postura sisuda diante dos familiares das vítimas, o que torna O Mensageiro um filme incômodo, especialmente quando nos deparamos com o momento de dor de cada família informada. De câmera na mão em tais cenas, o filme ganha ainda mais contornos dramáticos, contrastando a dor com a aparente imparcialidade dos militares.

Harrelson, que está indicado ao Oscar de Melhor Ator, conseguiu construir um personagem difícil que, inicialmente distante e durão, torna-se próximo do espectador com seu jeito irônico e sarcástico, dando certa leveza ao longa. Junto de Foster – também perfeito em seu papel – a dupla vai se tornando mais próxima, o que desencadeia uma mistura de conflitos e, claro, cumplicidade e amizade.

O bom roteiro – também indicado ao Oscar – foi escrito a quatro mãos pelo próprio diretor junto de Alessandro Camon e tira o costumeiro tom patriota dos filmes de guerra norte-americanos. Mostrando uma nação em frangalhos, com militares cada vez mais perturbados, vemos esse contraste de famílias que, orgulhosas de seu país, perdem seus entes, criando sentimentos que misturam revolta e incompreensão. Além disso, O Mensageiro trata das feridas – físicas e psicológicas – deixadas naqueles combatentes e como isso se reflete posteriormente.

Misturando drama e humor (a cena em que Stone e Montgomery ficam bêbados é hilária), o filme preza pelas belas interpretações de todo o elenco. E tem momentos de grande beleza e veracidade, como o diálogo na cozinha travado entre Montgomery e Olivia mostrando que, em uma guerra, definitivamente não há vencedores.

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