Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2009, A Fita Branca, que é uma co-produção Alemanha/Áustria/França/Itália, sagrou-se como um dos grandes filmes do ano. Indicado ao Oscar 2010 nas categorias de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Fotografia, o longa tem roteiro e direção de Michael Haneke (dos aclamados A Professora de Piano e Caché).

A história se passa em uma pequena cidade rural alemã, em 1913. Lá, um professor (Christian Friedel) comanda um coral de crianças e adolescentes que têm sua rotina alterada quando acontecimentos violentos passam a perturbar a vida dos moradores.

Narrado em primeira pessoa pelo professor, A Fita Branca vai mostrando a rotina desses personagens nos meses que antecedem a Primeira Guerra Mundial, com um incômodo palpável e emocionante. Podemos, a partir dos incidentes – a tentativa de assassinar o doutor local, a morte de uma lavradora, a agressão a duas crianças, um incêndio no celeiro -, acompanhar a desconfiança e revelação de segredos escondidos nessa aldeia, aparentemente, calma.

Os personagens adultos, geralmente chamados por suas funções, não possuem nomes. É como se essa perda de identidade previsse a iminente guerra que mudou todo o conceito de conflitos no planeta. Temos A Parteira, O Professor, O Doutor, O Pastor que, em contrapartida, convivem com as inúmeras crianças e jovens do filme. Klara (Maria-Victoria Dragus) e Martin (Leonard Proxauf), filhos do extremamente rígido pastor (Burghart Klaubner) e a doce Eva (Leonie Benesch), que envolve-se com o professor, são os principais personagens jovens envolvidos nos misteriosos acontecimentos.

Com uma violência física e psicológica angustiantes, A Fita Branca mostra os traumas causados pela opressão e abuso de poder que permeiam o filme nas esferas religiosa e familiar, além do poderio governamental, representado pelo Barão (Christian Friedel). Nesse ambiente de melancolia e despotismo, os personagens lidam, ainda, com a desconfiança generalizada. Afinal, qualquer um pode estar por trás dos atos violentos.

Com uma magnífica fotografia em preto e branco, o filme traz um incômodo latente, quase palpável, de como o ódio e a repressão podem levar a conflitos passíveis a todos, tanto no sentido de sofrê-los como de cometê-los. E esse subentendimento constante permeia A Fita Branca durante todo o tempo, levando a crer que os atos violentos possam ter sido cometidos até pelas próprias crianças.

Com cenas memoráveis que parecem extraídas de fotografias, o filme também preza pelo oculto que, muitas vezes, emociona mais do que se fosse exposto. Mostrando a pureza e inocência (ou não) da infância, acompanhamos longos momentos de contemplação e silêncio alternados por cortes secos, sempre com um magnífico uso da luz. E em seu título, A Fita Branca remete ao adorno que o tirano pastor colocava em seus filhos para lembrá-los da pureza e da inocência, ilustrando um filme que agrada pela beleza, incomoda pela temática e nos faz pensar: afinal, o que realmente caracteriza e diferencia culpados e inocentes?

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