Quando perguntado, em 1963, qual era o nome do nono filme que estava rodando, o diretor italiano Federico Fellini (1920-1993), ainda sem um título escolhido, respondeu ironicamente: “Chama-se 8 ½”. E assim ficou. O filme, que conta a história de um diretor em crise, interpretado por Marcello Mastroianni e as mulheres que o rodeiam, trazia a exuberante Claudia Cardinale e tornou-se um dos filmes mais cultuados do cineasta.

Quarenta e sete anos depois, o diretor Rob Marshall (do premiado Chicago), baseou-se em uma peça da Broadway dos anos 80 (que se baseia no longa de Fellini) lança Nine, que conta com roteiro de Michael Tolkin (Impacto Profundo) e do diretor Anthony Minghella (O Paciente Inglês), falecido em 2008.

Com elenco estelar, o musical conta a história de Guido Contini (Daniel Day Lewis, que definitivamente não nasceu para musicais) como um diretor italiano em crise. Sem ideia de como escrever o roteiro de seu próximo filme – chamado “Italia” – ele encena uma falsa confiança perante à imprensa enquanto revisita as mulheres de sua vida: a mãe (Sophia Loren), a esposa Luisa (Marion Cotillard), a amante Carla (Penélope Cruz), a atriz-musa Claudia (Nicole Kidman), a melhor amiga Lilli (Judi Dench), a fã Stephanie (Kate Hudson) e a prostituta Saraghina (a cantora Fergie).

Passado em 1965 (mesma época do filme de Fellini), Guido vai relembrando – e encontrando – as mulheres de sua vida (exceto pela mãe e pela prostituta, que mexia com os hormônios dele e dos amigos quando criança, já mortas). Aos poucos elas vão lhe inspirando e trazendo sua criatividade volta.

Com personagens pouco trabalhados – e que desfilam números de canto e dança – Nine pode não agradar pelos cortes incessantes que prejudicam as coreografias, porém mantém um ritmo frenético, com belo uso das cores e luzes, criando uma fotografia esplendorosa.

Além disso, a presença das beldades Cruz, Kidman, Hudson e Cotillard, esta última com a personagem mais interessante e que é esplendorosamente interpretada pela atriz francesa, que levou o Oscar de Melhor Atriz por “Piaf – Um Hino ao Amor” (2007). Como a dedicada esposa de Guido, Cotillard tem um desempenho emocionante e delicado, surpreendendo em canções de um inglês impecável.

Porém, resta às demais atrizes renderem-se aos clichês de suas personagens, como a mãe adorada (Loren, em bela, porém curta, homenagem em uma cena lúdica e nostálgica), a amante voluptuosa e espevitada (Cruz, esbanjando sensualidade) e a musa (Kidman, em papel minúsculo e claramente dedicado à Claudia Cardinale, musa do italiano Fellini). Todas cantam – inclusive Dench, em uma canção que mistura inglês e francês – e Hudson, cada vez mais parecida com a mãe Goldie Hawn e que não decepciona com empolgante a canção “Cinema Italiano”. Porém, a voz – como não poderia ser diferente – pertence a Fergie, que interpreta a prostituta, soltando seu vozeirão em um dos números mais empolgantes do filme, com a canção “Be Italian”.

Mas Nine, mesmo com seu prólogo interessante – com breve amostra das mulheres que veremos no longa – e seu ritmo frenético, não possui a mesma qualidade de “Chicago”. Músicas menos atraentes e, claro, a participação de Daniel Day Lewis, que força um sotaque italiano sofrível e não sabe cantar nem dançar. Mas quando a arte imita a própria arte, temos um epílogo em que a arte imita a vida, em um ciclo infinito. Afinal, como já aprendemos em Chicago, não importam os problemas, pois o show tem que continuar.

 

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