fevereiro 2010


Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2009, A Fita Branca, que é uma co-produção Alemanha/Áustria/França/Itália, sagrou-se como um dos grandes filmes do ano. Indicado ao Oscar 2010 nas categorias de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Fotografia, o longa tem roteiro e direção de Michael Haneke (dos aclamados A Professora de Piano e Caché).

A história se passa em uma pequena cidade rural alemã, em 1913. Lá, um professor (Christian Friedel) comanda um coral de crianças e adolescentes que têm sua rotina alterada quando acontecimentos violentos passam a perturbar a vida dos moradores.

Narrado em primeira pessoa pelo professor, A Fita Branca vai mostrando a rotina desses personagens nos meses que antecedem a Primeira Guerra Mundial, com um incômodo palpável e emocionante. Podemos, a partir dos incidentes – a tentativa de assassinar o doutor local, a morte de uma lavradora, a agressão a duas crianças, um incêndio no celeiro -, acompanhar a desconfiança e revelação de segredos escondidos nessa aldeia, aparentemente, calma.

Os personagens adultos, geralmente chamados por suas funções, não possuem nomes. É como se essa perda de identidade previsse a iminente guerra que mudou todo o conceito de conflitos no planeta. Temos A Parteira, O Professor, O Doutor, O Pastor que, em contrapartida, convivem com as inúmeras crianças e jovens do filme. Klara (Maria-Victoria Dragus) e Martin (Leonard Proxauf), filhos do extremamente rígido pastor (Burghart Klaubner) e a doce Eva (Leonie Benesch), que envolve-se com o professor, são os principais personagens jovens envolvidos nos misteriosos acontecimentos.

Com uma violência física e psicológica angustiantes, A Fita Branca mostra os traumas causados pela opressão e abuso de poder que permeiam o filme nas esferas religiosa e familiar, além do poderio governamental, representado pelo Barão (Christian Friedel). Nesse ambiente de melancolia e despotismo, os personagens lidam, ainda, com a desconfiança generalizada. Afinal, qualquer um pode estar por trás dos atos violentos.

Com uma magnífica fotografia em preto e branco, o filme traz um incômodo latente, quase palpável, de como o ódio e a repressão podem levar a conflitos passíveis a todos, tanto no sentido de sofrê-los como de cometê-los. E esse subentendimento constante permeia A Fita Branca durante todo o tempo, levando a crer que os atos violentos possam ter sido cometidos até pelas próprias crianças.

Com cenas memoráveis que parecem extraídas de fotografias, o filme também preza pelo oculto que, muitas vezes, emociona mais do que se fosse exposto. Mostrando a pureza e inocência (ou não) da infância, acompanhamos longos momentos de contemplação e silêncio alternados por cortes secos, sempre com um magnífico uso da luz. E em seu título, A Fita Branca remete ao adorno que o tirano pastor colocava em seus filhos para lembrá-los da pureza e da inocência, ilustrando um filme que agrada pela beleza, incomoda pela temática e nos faz pensar: afinal, o que realmente caracteriza e diferencia culpados e inocentes?

Na cerimônia do Oscar de 2002, o silêncio pairava no evento, que dispensou seus números de dança, as piadas e trazia consigo um tabu: os atentados ao World Trade Center, ocorridos em 2001. Oito anos depois, diversos filmes que tratam da “guerra ao terror” fora lançados, especialmente o fenômeno Guerra ao Terror, indicado em nove categorias do Oscar deste ano, incluindo Filme e Diretor. Com O Mensageiro, estreia na direção do ator e roteirista Oren Moverman, um outro prisma do conflito é revelado.

A trama se inicia quando, durante os sangrentos conflitos na Guerra do Iraque, o jovem sargento Will Montgomery (Ben Foster) é designado a notificar as famílias dos militares mortos em combate. Junto a ele, parte o experiente capitão Tony Stone (Woody Harrelson), um homem que se mostra frio e rígido em sua postura militar. As regras impostas pelo Exército dos EUA não permitem qualquer envolvimento físico ou pessoal com o fato e/ou pessoas, fazendo com que ambos tenham de simplesmente dar a notícia, de forma imparcial e distante.

Montgomery, um jovem sozinho e traumatizado pela guerra em todos os aspectos, sofre de politraumatismo (sua perna e seus olhos foram prejudicados), mora sozinho, ouve rock pesado, assiste a filmes violentos e vive à base de remédios. Ele ainda tem de lidar com a distância da ex-namorada Kelly (Jena Malone, a outrora menininha de Lado a Lado), que o abandonou em conseqüência de sua vida militar para casar-se com outro homem. Sua nova rotina muda quando vão comunicar a morte do marido de Olivia (Samantha Morton, sempre ótima) e o jovem sargento Montgomery envolve-se com a viúva.

Nessa bolha de nervos à flor da pele permeada por guerra, traumas e contestação, ambos têm de manter sua postura sisuda diante dos familiares das vítimas, o que torna O Mensageiro um filme incômodo, especialmente quando nos deparamos com o momento de dor de cada família informada. De câmera na mão em tais cenas, o filme ganha ainda mais contornos dramáticos, contrastando a dor com a aparente imparcialidade dos militares.

Harrelson, que está indicado ao Oscar de Melhor Ator, conseguiu construir um personagem difícil que, inicialmente distante e durão, torna-se próximo do espectador com seu jeito irônico e sarcástico, dando certa leveza ao longa. Junto de Foster – também perfeito em seu papel – a dupla vai se tornando mais próxima, o que desencadeia uma mistura de conflitos e, claro, cumplicidade e amizade.

O bom roteiro – também indicado ao Oscar – foi escrito a quatro mãos pelo próprio diretor junto de Alessandro Camon e tira o costumeiro tom patriota dos filmes de guerra norte-americanos. Mostrando uma nação em frangalhos, com militares cada vez mais perturbados, vemos esse contraste de famílias que, orgulhosas de seu país, perdem seus entes, criando sentimentos que misturam revolta e incompreensão. Além disso, O Mensageiro trata das feridas – físicas e psicológicas – deixadas naqueles combatentes e como isso se reflete posteriormente.

Misturando drama e humor (a cena em que Stone e Montgomery ficam bêbados é hilária), o filme preza pelas belas interpretações de todo o elenco. E tem momentos de grande beleza e veracidade, como o diálogo na cozinha travado entre Montgomery e Olivia mostrando que, em uma guerra, definitivamente não há vencedores.

Quando perguntado, em 1963, qual era o nome do nono filme que estava rodando, o diretor italiano Federico Fellini (1920-1993), ainda sem um título escolhido, respondeu ironicamente: “Chama-se 8 ½”. E assim ficou. O filme, que conta a história de um diretor em crise, interpretado por Marcello Mastroianni e as mulheres que o rodeiam, trazia a exuberante Claudia Cardinale e tornou-se um dos filmes mais cultuados do cineasta.

Quarenta e sete anos depois, o diretor Rob Marshall (do premiado Chicago), baseou-se em uma peça da Broadway dos anos 80 (que se baseia no longa de Fellini) lança Nine, que conta com roteiro de Michael Tolkin (Impacto Profundo) e do diretor Anthony Minghella (O Paciente Inglês), falecido em 2008.

Com elenco estelar, o musical conta a história de Guido Contini (Daniel Day Lewis, que definitivamente não nasceu para musicais) como um diretor italiano em crise. Sem ideia de como escrever o roteiro de seu próximo filme – chamado “Italia” – ele encena uma falsa confiança perante à imprensa enquanto revisita as mulheres de sua vida: a mãe (Sophia Loren), a esposa Luisa (Marion Cotillard), a amante Carla (Penélope Cruz), a atriz-musa Claudia (Nicole Kidman), a melhor amiga Lilli (Judi Dench), a fã Stephanie (Kate Hudson) e a prostituta Saraghina (a cantora Fergie).

Passado em 1965 (mesma época do filme de Fellini), Guido vai relembrando – e encontrando – as mulheres de sua vida (exceto pela mãe e pela prostituta, que mexia com os hormônios dele e dos amigos quando criança, já mortas). Aos poucos elas vão lhe inspirando e trazendo sua criatividade volta.

Com personagens pouco trabalhados – e que desfilam números de canto e dança – Nine pode não agradar pelos cortes incessantes que prejudicam as coreografias, porém mantém um ritmo frenético, com belo uso das cores e luzes, criando uma fotografia esplendorosa.

Além disso, a presença das beldades Cruz, Kidman, Hudson e Cotillard, esta última com a personagem mais interessante e que é esplendorosamente interpretada pela atriz francesa, que levou o Oscar de Melhor Atriz por “Piaf – Um Hino ao Amor” (2007). Como a dedicada esposa de Guido, Cotillard tem um desempenho emocionante e delicado, surpreendendo em canções de um inglês impecável.

Porém, resta às demais atrizes renderem-se aos clichês de suas personagens, como a mãe adorada (Loren, em bela, porém curta, homenagem em uma cena lúdica e nostálgica), a amante voluptuosa e espevitada (Cruz, esbanjando sensualidade) e a musa (Kidman, em papel minúsculo e claramente dedicado à Claudia Cardinale, musa do italiano Fellini). Todas cantam – inclusive Dench, em uma canção que mistura inglês e francês – e Hudson, cada vez mais parecida com a mãe Goldie Hawn e que não decepciona com empolgante a canção “Cinema Italiano”. Porém, a voz – como não poderia ser diferente – pertence a Fergie, que interpreta a prostituta, soltando seu vozeirão em um dos números mais empolgantes do filme, com a canção “Be Italian”.

Mas Nine, mesmo com seu prólogo interessante – com breve amostra das mulheres que veremos no longa – e seu ritmo frenético, não possui a mesma qualidade de “Chicago”. Músicas menos atraentes e, claro, a participação de Daniel Day Lewis, que força um sotaque italiano sofrível e não sabe cantar nem dançar. Mas quando a arte imita a própria arte, temos um epílogo em que a arte imita a vida, em um ciclo infinito. Afinal, como já aprendemos em Chicago, não importam os problemas, pois o show tem que continuar.