O diretor palestino Elia Suleiman (Cada um com Seu Cinema, Intervenção Divina) teve seu mais recente filme exibido no Festival de Cannes 2009, no Festival do Rio 2009 e na 33ª Mostra de Cinema de SP. Com O que resta do tempo, ele se baseou nos diários do pai e dirigiu, roteirizou, produziu e atuou nessa que já pode ser considerada sua obra mais pessoal.

Mostrando a história de sua família desde a ocupação israelense na Palestina até os dias de hoje, o filme começa em 1948 e mostra o seu pai Fuad Suleiman (Saleh Bakri), combatente resistente à ocupação que, desde jovem, fabricava armas e nunca se deixou humilhar pelo Exército, que toma o país logo após a rendição do prefeito de Nazaré, oficializando os conflitos sangrentos e duradouros entre palestinos e israelenses.

Essa rotina dos denominados “árabes-israelenses” é mostrada através do núcleo de Fuad, sua esposa (Samar Tanus) e o filho Elia (interpretado por Zuhair Abu Hanna na infância, por Ayman Espanioli na adolescência e pelo próprio Elia Suleiman na fase adulta). Nesse ciclo de palestinos que escolheram permanecer em seu país (visto que muitos foram expatriados ou enviados para a Jordânia), acompanhamos o dia a dia de um povo perdido entre sua pátria, sua identidade e o domínio israelense.

Entre suicídios como grito de liberdade, resignação, revolta e os conflitos diretos, O que resta do tempo transmite as sensações de um povo em um país dominado e invadido, que vive mecanicamente, muitos quase alheios à realidade, como o vizinho idoso que, sempre que se embebeda ameaça tocar fogo em si mesmo ou na alienada tia Olga (Isabelle Ramadan), que parece que vive em um mundo só seu.

Com um humor ora sacrástico ora non-sense reforçado por uma repetição incômoda, o longa lembra, em alguns momentos, a obra-prima Amarcord, de Federico Fellini, com suas figuras emblemáticas que marcaram a infância do diretor, assim como fez o diretor italiano em sua obra. Nessa falsa diplomacia de amizade que os israelenses pregam em relação palestinos, a violência e humilhação são mostradas, mesmo que de forma velada em muitos momentos.

A mãe, que troca cartas com familiares expatriados, relata a situação econômica e social do país – inclusive, tais documentos também serviram de base para que o diretor desenvolvesse seu roteiro e entendesse melhor o que os pais lidaram na época. Chegando aos anos 70, o filme chega a 1976 e mostra o jovem Elia ainda espectador dos conflitos diretos entre palestinos e militares israelenses, sem as hoje conhecidas explosões terroristas que se tornaram frequentes no conflito.

Com uma direção segura, O que resta do tempo não chega a ser prejudicado por algumas interpretações que resvalam no teatral nem pelo não engajamento de seus personagens (o que pode frustrar os espectadores mais politizados). Suleiman optou, na verdade, por mostrar esse desconforto constante e como isso foi absorvido em sua vida, desde a infância até a vida adulta. E sua forma de contar essa história se mostra em jogos de cena inteligentes, como quando enfermeiros disputam um ferido com militares em um corredor de hospital ou no tanque de guerra em frente à sua casa. Além disso, momentos de completa contemplação com a mãe, já senil (interpretada por Shafika Bajjali), nos traz a meia hora final que, praticamente sem diálogos, pode cansar alguns espectadores, mas que pode ser vista como “um minuto de silêncio” de uma guerra que ainda está muito longe de terminar.

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