Muitos conheciam suas músicas, que ficou conhecida, principalmente, na voz do “rei do baião” Luiz Gonzaga (1912-1989). Entre sucessos como “Baião”, “Qui nem Jiló”, “Paraíba”, “Lorota Boa”, “Respeita Januário” e a belíssima “Asa Branca”, Humberto Cavalcanti Teixeira (1915-1979) também foi advogado, deputado federal e criador das leis de direitos autorais, sendo considerado “o doutor do baião”. Para entender essa trajetória de sucesso, nasce o documentário O Homem que Engarrafava Nuvens, dirigido pelo pernambucano Lírio Ferreira (Baile Perfumado, Árido Movie) e produzido pela atriz Denise Dumont, filha de Teixeira.

Com uma produção de oito anos desde sua idealização até finalização, O Homem que Engarrafava Nuvens entra para o hall dos documentários musicais brasileiros, que ganharam força nos últimos anos com títulos como Coração Vagabundo, Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei, Loki, Palavra (En)Cantada e Cartola – Música para os Olhos (também dirigido por Lírio Ferreira), só para citar alguns.

Nessa viagem de descoberta do próprio pai, Denise Dumont redescobre as suas raízes nordestinas para entender a vida do compositor, que nasceu no ano da grande seca de 1915 – e que foi retratada no famoso livro O Quinze, de Rachel de Queiroz.

Contando cronologicamente a história de Humberto Teixeira, o filme retrata o Brasil festivo, com sua cultura do baião (palavra que vem de “baiano”) e, segundo fontes, tem mais de 300 anos de existência. Passeando por lugares como o Vale do Cariri, localizado no município do Crato (Ceará), o longa expõe personagens simples e curiosos com uma relação intrínseca e duradoura com o baião. Desde as danças e a embolada (música constituída de versos métricos e improvisados), o espectador acompanha artistas de rua e outras personalidades declarando seu amor a esse gênero tão popular no Nordeste e no mundo.

“Narrado” pelo próprio Humberto Teixeira a partir de áudios de arquivo, O Homem que Engarrafava Nuvens traz raríssimas imagens e vídeos de arquivo (como a capital cearense Fortaleza nos anos 20) e personagens como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Otto, Fagner, Lenine, Cale Alencar, Lirinha (Cordel do Fogo Encantado), Patativa do Assaré, Belchior, Carmélia Alves, Sivuca, Pedro Bandeira, Ivanira Teixeira, Ilka Soares, Daniel Filho, Anselmo Duarte, Chico Buarque, Cristiano Câmara, Ricardo Cravo Albin e David Byrne (ex-vocalista da banda norte-americana Talking Heads e grande amante da música brasileira).

Entre entrevistas e versões das músicas de Humberto Teixeira realizadas pelos artistas     (com ou sem a colaboração de Luiz Gonzaga), o filme é um deleite para os olhos e ouvidos, contando com a bela fotografia de Walter Carvalho (que estreou na direção com o belo Budapeste).

Podemos observar desde as primeiras composições de Teixeira, como “Sinfonia do Café” (gravada por Tárik de Souza) e “Deus me perdoe”, tornando-se populares graças à canção “Balanceio”, de Lauro Maia que abre, de vez, as portas para o baião. Sua parceria com Luiz Gonzaga foi inaugurada com “Baião”, primeira canção da dupla.

Unindo a popularidade de Gonzagão com o perfil literato de Teixeira, o gênero ganha o Nordeste até conquistar o resto do País. E é nessa imigração da música e dos nordestinos para outros estados (especialmente São Paulo) que o baião se populariza com as chanchadas. A sanfona vira moda a ponto de ser ensinada nas escolas, revelando o modo inconfundível de cantar de um povo sofrido que encontra na música a sua alegria, o seu modo de cantar as coisas indizíveis.

“Asa Branca” torna-se o maior sucesso de Gonzagão e Teixeira, em uma música que retrata a dor da seca com poesia e delicadeza, e ganha ainda mais força na emocionante interpretação de Maria Bethânia no filme.

Porém, o baião tem sua decadência e resiste graças ao esforço de artistas como Dominguinhos, Elba Ramalho, Alceu Valença, além de ter servido de fonte para os Tropicalistas. Com essa expansão depois da morte de Teixeira e Gonzagão, o forró ganha o mundo, podendo observar no filme as interpretações da cantora japonesa Miro Hatori (do grupo norte-americano Cibo Matto), de David Byrne e de Bebel Gilberto, que mistura português com inglês em uma revisitação ao baião com toques de Bossa Nova. Além disso, observamos a banda Forro in The Dark, que faz grande sucesso nos EUA com os toques nordestinos do baião.

A vida pessoal de Teixeira também é esmiuçada em O Homem que Engarrafava Nuvens, em um chocante cara a cara de Denise Dumont com a mãe, Margarida Jatobá, que revela o homem que só ela conhecia na intimidade. O título do filme, inclusive, vem da casa que Teixeira construiu no Rio de Janeiro, localizada em uma espécie de vale, em que as nuvens baixavam e ficavam quase palpáveis. Após retirar-se da vida pública, dizia que gostava de ficar em sua casa engarrafando nuvens com a filha.

É curioso, também, observar as associações que, mesmo amalucadas, podem fazer sentido, como as teorias de que os EUA roubaram os acordes do baião e inseriram nas canções de Peggy Lee ou, até mesmo, na história de que Raul Seixas deu a Bob Marley um disco de Luiz Gonzaga, colaborando com o nascimento do reggae. Ficam as dúvidas, mas permanece um ótimo filme.

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