O cinema francês sempre foi especialista em tratar de dilemas familiares em sua filmografia. Diretor de pérolas como “Em Paris” (2006), o musical “Canções de Amor” (2007) e o curioso “A Bela Junie” (2008) – todos com a presença do ator Louis Garrel no elenco – o diretor Christophe Honoré lança seu mais recente trabalho: Não, minha filha, você não irá dançar.

O longa conta a história de Léna (Chiara Mastroianni, ótima), filha primogênita da temperamental Annie (Marie-Christine Barrault) e do espirituoso Michel (Fred Ulysse). Após separar-se do marido, Lena decide fugir de Paris com os dois filhos para uma temporada na casa dos pais, no interior da França. Lá ela vai ter de lidar com a sistemática irmã grávida, Frédérique (Marina Foïs) e o inconveniente irmão caçula Gulven (Julien Honoré, irmão do diretor).

Durante sua estadia ela terá, ainda, de conviver com Elise (Alice Butaud), namorada de Gulven; Simon (Louis Garrel), com a qual ela tem um romance mal resolvido; e com a inesperada chegada do ex-marido Nigel (Jean-Marc Barr), que aparece a convite da mãe de Léna. Pronto, está formado o caldeirão de conflitos que se desenrolam durante o filme.

Com belas paisagens do campo, o filme difere dos demais trabalhos urbanos do diretor e ganha em contemplação e poesia, especialmente na figura dos dois filhos de Léna, Augustine (Lou Pasquerault) e Anton (Donatien Suner), que são obrigados a perceber que o mundo fabuloso em que vivem é tomado pelos problemas dos adultos, como o tempestuoso divórcio dos pais.

Na casa, a câmera passeia por entre os conflitos que se formam a cada instante, mas que não se perdem em intensidade ou veracidade. Isso se deve, principalmente, à direção segura de Honoré, sempre buscando trazer filmes simples, porém autênticos.

A casa, também personagem, abriga todos esses problemas sufocados pelo tempo e que são revisitados pela família, com tom amargo mas, muitas vezes, poéticos. As cenas de lembranças que trazem fotos antigas de seus personagens é um dos trunfos, ganhando em drama sem resvalar na pieguice.

Porém, o filme pertence mesmo a Chiara Mastroianni, filha dos lendários Marcello Mastroianni e Catherine Deneuve. A mistura de beleza e talento faz com que ela crie em Léna uma personagem complexa e incompreendida, bombardeada pelos que estão à sua volta. Impossibilitada de lidar até consigo mesma, ela se perde nos problemas que a rodeiam, com uma carga dramática sincera e empática, sempre reforçada na ótima interpretação de Chiara, a força motriz de um filme dedicado, especialmente, às mulheres.
E, nessa jornada, Léna precisa renunciar a certas coisas para se tornar livre do que a sufoca, mesmo que isso tenha certas consequências.

O curioso título do filme parte de uma estória escrita pelo garoto Anton, na qual uma moça precisa se casar com o rapaz que suportar os incessantes rituais de dança de sua tradição. Com uma mistura de fábula, realidade e drama, Honoré coloca Não, minha filha, você não irá dançar como mais um belo exemplar do cinema em sua filmografia.

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