janeiro 2010


A primeira coisa a ser dita a respeito de Preciosa – uma história de esperança é: não é um filme fácil. Baseado no livro “Push”, de Sapphire, publicado em 1996, o filme conta a história da adolescente Clarieece “Precious” Jones (Gabourey Sidibe), uma garota negra e obesa de dezesseis anos que mora no Harlem, em 1987. Motivo de chacota para os alunos do colégio, ela enfrenta uma guerra psicológica e física em sua própria casa, sofrendo as maiores humilhações nas mãos da asquerosa mãe Mary (Mo’Nique). Grávida do segundo filho em consequência dos estupros que sofre do pai ausente, ela precisa enfrentar uma dura batalha em sua vida.

Grande vencedor do Sundance Film Festival de 2009, incluindo o Grande Prêmio Concedido Pelo Júri e o Prêmio do Público, Preciosa – uma história de esperança vem ganhando atenção do grande público por contar uma história repleta de violência e superação. Muito bem dirigido por Lee Daniels e com produção executiva de Oprah Winfrey, o filme toca em temas delicados como incesto, violência doméstica e abandono, e certamente vai emocionar os espectadores.

Conhecida como Precious, a garota cria seu mundo à parte para fugir dos problemas que enfrenta na vida real. Em suas divagações, imagina-se uma estrela de cinema, sonha em ser “magra, loira e conquistar um namorado branco”. Privada de todo e qualquer tipo de carinho, ela se refugia imaginando situações em que seria amada, usando fotografias e filmes. É sua única forma de sobreviver, pois, como ela mesma declara no filme, “gostaria que um piano caísse em sua cabeça” para não ter mais de suportar a dura realidade.

Introvertida, Precious mistura carência e violência em uma personagem totalmente traumatizada pelos rebaixamentos de sua mãe, que sempre fez questão de frisar que ela não seria ninguém na vida, em uma mistura de revolta e ciúmes, acusando a filha de ter lhe roubado o único homem que a amou, “deixando-se” seduzir pelo pai.

Porém, indicada pela diretora de seu colégio, a garota é enviada para uma escola alternativa, onde conhecerá a doce e determinada professora Blu Rain (Paula Patton), que a ajudará de todas as maneiras.

Com ótimas interpretações, o filme se sustenta, principalmente, no conflito entre Precious e sua mãe interpretadas, respectivamente, por Gabourey Sidibe e Mo’Nique. A cantora Mariah Carey também atua no longa, com uma interpretação correta e vem recebido elogios ao despir-se de toda sua vaidade ao dar vida à Srta. Weiss, a assistente social da garota, na qual foi premiada com duas estatuetas: uma Festival de Cinema de Capri e outra no Festival de Cinema de Palm Springs.  Além dela, o cantor Lenny Kravitz também participa de Preciosa, como o enfermeiro John do hospital em que a garota tem seu segundo filho.

Porém, é Mo’Nique quem rouba o filme, como a asquerosa e violenta Mary. A atriz, que já levou o Globo de Ouro, o Screen Actors Guild (SAG) e está indicada ao BAFTA (o Oscar inglês), já é considerada presença garantida nas indicações ao Oscar 2010.

Apesar de ser um soco no estômago, Preciosa – uma história de esperança emociona em seus momentos delicados. E quando tudo parece se ajeitar, uma nova punhalada completa o ciclo de Precious, culminando no confronto final dela com sua mãe, mediado por Weiss, na cena mais emocionante do filme, quando esse caldeirão de conflitos finalmente transborda com culpa, inveja e ciúmes. Merece ser conferido.

O diretor palestino Elia Suleiman (Cada um com Seu Cinema, Intervenção Divina) teve seu mais recente filme exibido no Festival de Cannes 2009, no Festival do Rio 2009 e na 33ª Mostra de Cinema de SP. Com O que resta do tempo, ele se baseou nos diários do pai e dirigiu, roteirizou, produziu e atuou nessa que já pode ser considerada sua obra mais pessoal.

Mostrando a história de sua família desde a ocupação israelense na Palestina até os dias de hoje, o filme começa em 1948 e mostra o seu pai Fuad Suleiman (Saleh Bakri), combatente resistente à ocupação que, desde jovem, fabricava armas e nunca se deixou humilhar pelo Exército, que toma o país logo após a rendição do prefeito de Nazaré, oficializando os conflitos sangrentos e duradouros entre palestinos e israelenses.

Essa rotina dos denominados “árabes-israelenses” é mostrada através do núcleo de Fuad, sua esposa (Samar Tanus) e o filho Elia (interpretado por Zuhair Abu Hanna na infância, por Ayman Espanioli na adolescência e pelo próprio Elia Suleiman na fase adulta). Nesse ciclo de palestinos que escolheram permanecer em seu país (visto que muitos foram expatriados ou enviados para a Jordânia), acompanhamos o dia a dia de um povo perdido entre sua pátria, sua identidade e o domínio israelense.

Entre suicídios como grito de liberdade, resignação, revolta e os conflitos diretos, O que resta do tempo transmite as sensações de um povo em um país dominado e invadido, que vive mecanicamente, muitos quase alheios à realidade, como o vizinho idoso que, sempre que se embebeda ameaça tocar fogo em si mesmo ou na alienada tia Olga (Isabelle Ramadan), que parece que vive em um mundo só seu.

Com um humor ora sacrástico ora non-sense reforçado por uma repetição incômoda, o longa lembra, em alguns momentos, a obra-prima Amarcord, de Federico Fellini, com suas figuras emblemáticas que marcaram a infância do diretor, assim como fez o diretor italiano em sua obra. Nessa falsa diplomacia de amizade que os israelenses pregam em relação palestinos, a violência e humilhação são mostradas, mesmo que de forma velada em muitos momentos.

A mãe, que troca cartas com familiares expatriados, relata a situação econômica e social do país – inclusive, tais documentos também serviram de base para que o diretor desenvolvesse seu roteiro e entendesse melhor o que os pais lidaram na época. Chegando aos anos 70, o filme chega a 1976 e mostra o jovem Elia ainda espectador dos conflitos diretos entre palestinos e militares israelenses, sem as hoje conhecidas explosões terroristas que se tornaram frequentes no conflito.

Com uma direção segura, O que resta do tempo não chega a ser prejudicado por algumas interpretações que resvalam no teatral nem pelo não engajamento de seus personagens (o que pode frustrar os espectadores mais politizados). Suleiman optou, na verdade, por mostrar esse desconforto constante e como isso foi absorvido em sua vida, desde a infância até a vida adulta. E sua forma de contar essa história se mostra em jogos de cena inteligentes, como quando enfermeiros disputam um ferido com militares em um corredor de hospital ou no tanque de guerra em frente à sua casa. Além disso, momentos de completa contemplação com a mãe, já senil (interpretada por Shafika Bajjali), nos traz a meia hora final que, praticamente sem diálogos, pode cansar alguns espectadores, mas que pode ser vista como “um minuto de silêncio” de uma guerra que ainda está muito longe de terminar.

Vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim de 2009, o filme iraniano Procurando Elly conta a história de um grupo de amigos que parte para uma viagem de campo em um final de semana. Entre os convidados, a personagem Elly (Taraneh Alidoosti) parece sentir-se desconfortável em seu jeito introvertido. No grupo, estão personagens como o casal Peyman  (Peyman Moaadi) e Shohreh (Merila Zare’i) com os três filhos, a insegura Naazy (Ra’na Azadivar) e o casal Amir (Mani Haghighi) e Sepideh (Golshifteh Farahani). Todos incentivam o romance dela com o simpático Ahmad (Shahab Hosseini), um divorciado que mora no exterior e pede à amiga Sepideh que lhe apresente uma moça. É aí que ela insiste para que Elly, professora de sua filha, faça parte da viagem.

Nesse ambiente de descontração, o grupo acaba tendo seus planos alterados e vão parar em uma casa praticamente abandonada, à beira mar. Entre jogos de mímica, vôlei e a diversão de incitarem o romance entre Ahmad e a jovem, o grupo percebe que Elly é muito calada, especialmente a desconfiada Shohreh.

Porém, certo dia, enquanto observa o filho de Peyman e Shohreh na margem da praia, Elly desaparece, sem deixar pistas. A Guarda Costeira vasculha o mar e nem sinal da moça. E é a partir daí que Procurando Elly muda totalmente seu ritmo e trama para darem lugar ao desespero de seus personagens, especialmente Sepideh, que sente-se culpada, pois impediu de todas as maneiras que Elly voltasse para casa e sim que permanecesse até o final.

Dada como morta – porém sem nenhum vestígio de seu cadáver – os personagens entram em um redemoinho de conflitos, acusações, culpa, honra e suposições que fará com que o filme ganhe em tensão e empatia com seu espectador. Afinal, a situação apresentada é exposta com tanta veracidade que acreditamos e nos imaginamos nela. Além disso, o segredo que Elly tanto escondeu, acaba vindo à tona, fazendo com que os nervos dos personagens fiquem à flor da pele.

Com direção segura de Asghar Farhadi, baseado em história de sua autoria com Azad Jafarian, Procurando Elly traz um elenco empático e carismático, reforçado por interpretações sinceras, especialmente da bela Golshifteh Farahani, intérprete de Sepideh, epicentro dos conflitos ao redor do desaparecimento de Elly. E todos vão descobrir que os segredos terão um efeito bola de neve e devem ser revelados para desfazer o emaranhado de mentiras que a situação acarretou.

Emocionante, com belo uso da fotografia e um ritmo primoroso – que diminui a partir da metade do filme, dando lugar a um bem cuidado suspense dramático – Procurando Elly já ocupa um belo lugar na filmografia do cinema iraniano.

Muitos conheciam suas músicas, que ficou conhecida, principalmente, na voz do “rei do baião” Luiz Gonzaga (1912-1989). Entre sucessos como “Baião”, “Qui nem Jiló”, “Paraíba”, “Lorota Boa”, “Respeita Januário” e a belíssima “Asa Branca”, Humberto Cavalcanti Teixeira (1915-1979) também foi advogado, deputado federal e criador das leis de direitos autorais, sendo considerado “o doutor do baião”. Para entender essa trajetória de sucesso, nasce o documentário O Homem que Engarrafava Nuvens, dirigido pelo pernambucano Lírio Ferreira (Baile Perfumado, Árido Movie) e produzido pela atriz Denise Dumont, filha de Teixeira.

Com uma produção de oito anos desde sua idealização até finalização, O Homem que Engarrafava Nuvens entra para o hall dos documentários musicais brasileiros, que ganharam força nos últimos anos com títulos como Coração Vagabundo, Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei, Loki, Palavra (En)Cantada e Cartola – Música para os Olhos (também dirigido por Lírio Ferreira), só para citar alguns.

Nessa viagem de descoberta do próprio pai, Denise Dumont redescobre as suas raízes nordestinas para entender a vida do compositor, que nasceu no ano da grande seca de 1915 – e que foi retratada no famoso livro O Quinze, de Rachel de Queiroz.

Contando cronologicamente a história de Humberto Teixeira, o filme retrata o Brasil festivo, com sua cultura do baião (palavra que vem de “baiano”) e, segundo fontes, tem mais de 300 anos de existência. Passeando por lugares como o Vale do Cariri, localizado no município do Crato (Ceará), o longa expõe personagens simples e curiosos com uma relação intrínseca e duradoura com o baião. Desde as danças e a embolada (música constituída de versos métricos e improvisados), o espectador acompanha artistas de rua e outras personalidades declarando seu amor a esse gênero tão popular no Nordeste e no mundo.

“Narrado” pelo próprio Humberto Teixeira a partir de áudios de arquivo, O Homem que Engarrafava Nuvens traz raríssimas imagens e vídeos de arquivo (como a capital cearense Fortaleza nos anos 20) e personagens como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Otto, Fagner, Lenine, Cale Alencar, Lirinha (Cordel do Fogo Encantado), Patativa do Assaré, Belchior, Carmélia Alves, Sivuca, Pedro Bandeira, Ivanira Teixeira, Ilka Soares, Daniel Filho, Anselmo Duarte, Chico Buarque, Cristiano Câmara, Ricardo Cravo Albin e David Byrne (ex-vocalista da banda norte-americana Talking Heads e grande amante da música brasileira).

Entre entrevistas e versões das músicas de Humberto Teixeira realizadas pelos artistas     (com ou sem a colaboração de Luiz Gonzaga), o filme é um deleite para os olhos e ouvidos, contando com a bela fotografia de Walter Carvalho (que estreou na direção com o belo Budapeste).

Podemos observar desde as primeiras composições de Teixeira, como “Sinfonia do Café” (gravada por Tárik de Souza) e “Deus me perdoe”, tornando-se populares graças à canção “Balanceio”, de Lauro Maia que abre, de vez, as portas para o baião. Sua parceria com Luiz Gonzaga foi inaugurada com “Baião”, primeira canção da dupla.

Unindo a popularidade de Gonzagão com o perfil literato de Teixeira, o gênero ganha o Nordeste até conquistar o resto do País. E é nessa imigração da música e dos nordestinos para outros estados (especialmente São Paulo) que o baião se populariza com as chanchadas. A sanfona vira moda a ponto de ser ensinada nas escolas, revelando o modo inconfundível de cantar de um povo sofrido que encontra na música a sua alegria, o seu modo de cantar as coisas indizíveis.

“Asa Branca” torna-se o maior sucesso de Gonzagão e Teixeira, em uma música que retrata a dor da seca com poesia e delicadeza, e ganha ainda mais força na emocionante interpretação de Maria Bethânia no filme.

Porém, o baião tem sua decadência e resiste graças ao esforço de artistas como Dominguinhos, Elba Ramalho, Alceu Valença, além de ter servido de fonte para os Tropicalistas. Com essa expansão depois da morte de Teixeira e Gonzagão, o forró ganha o mundo, podendo observar no filme as interpretações da cantora japonesa Miro Hatori (do grupo norte-americano Cibo Matto), de David Byrne e de Bebel Gilberto, que mistura português com inglês em uma revisitação ao baião com toques de Bossa Nova. Além disso, observamos a banda Forro in The Dark, que faz grande sucesso nos EUA com os toques nordestinos do baião.

A vida pessoal de Teixeira também é esmiuçada em O Homem que Engarrafava Nuvens, em um chocante cara a cara de Denise Dumont com a mãe, Margarida Jatobá, que revela o homem que só ela conhecia na intimidade. O título do filme, inclusive, vem da casa que Teixeira construiu no Rio de Janeiro, localizada em uma espécie de vale, em que as nuvens baixavam e ficavam quase palpáveis. Após retirar-se da vida pública, dizia que gostava de ficar em sua casa engarrafando nuvens com a filha.

É curioso, também, observar as associações que, mesmo amalucadas, podem fazer sentido, como as teorias de que os EUA roubaram os acordes do baião e inseriram nas canções de Peggy Lee ou, até mesmo, na história de que Raul Seixas deu a Bob Marley um disco de Luiz Gonzaga, colaborando com o nascimento do reggae. Ficam as dúvidas, mas permanece um ótimo filme.

O cinema francês sempre foi especialista em tratar de dilemas familiares em sua filmografia. Diretor de pérolas como “Em Paris” (2006), o musical “Canções de Amor” (2007) e o curioso “A Bela Junie” (2008) – todos com a presença do ator Louis Garrel no elenco – o diretor Christophe Honoré lança seu mais recente trabalho: Não, minha filha, você não irá dançar.

O longa conta a história de Léna (Chiara Mastroianni, ótima), filha primogênita da temperamental Annie (Marie-Christine Barrault) e do espirituoso Michel (Fred Ulysse). Após separar-se do marido, Lena decide fugir de Paris com os dois filhos para uma temporada na casa dos pais, no interior da França. Lá ela vai ter de lidar com a sistemática irmã grávida, Frédérique (Marina Foïs) e o inconveniente irmão caçula Gulven (Julien Honoré, irmão do diretor).

Durante sua estadia ela terá, ainda, de conviver com Elise (Alice Butaud), namorada de Gulven; Simon (Louis Garrel), com a qual ela tem um romance mal resolvido; e com a inesperada chegada do ex-marido Nigel (Jean-Marc Barr), que aparece a convite da mãe de Léna. Pronto, está formado o caldeirão de conflitos que se desenrolam durante o filme.

Com belas paisagens do campo, o filme difere dos demais trabalhos urbanos do diretor e ganha em contemplação e poesia, especialmente na figura dos dois filhos de Léna, Augustine (Lou Pasquerault) e Anton (Donatien Suner), que são obrigados a perceber que o mundo fabuloso em que vivem é tomado pelos problemas dos adultos, como o tempestuoso divórcio dos pais.

Na casa, a câmera passeia por entre os conflitos que se formam a cada instante, mas que não se perdem em intensidade ou veracidade. Isso se deve, principalmente, à direção segura de Honoré, sempre buscando trazer filmes simples, porém autênticos.

A casa, também personagem, abriga todos esses problemas sufocados pelo tempo e que são revisitados pela família, com tom amargo mas, muitas vezes, poéticos. As cenas de lembranças que trazem fotos antigas de seus personagens é um dos trunfos, ganhando em drama sem resvalar na pieguice.

Porém, o filme pertence mesmo a Chiara Mastroianni, filha dos lendários Marcello Mastroianni e Catherine Deneuve. A mistura de beleza e talento faz com que ela crie em Léna uma personagem complexa e incompreendida, bombardeada pelos que estão à sua volta. Impossibilitada de lidar até consigo mesma, ela se perde nos problemas que a rodeiam, com uma carga dramática sincera e empática, sempre reforçada na ótima interpretação de Chiara, a força motriz de um filme dedicado, especialmente, às mulheres.
E, nessa jornada, Léna precisa renunciar a certas coisas para se tornar livre do que a sufoca, mesmo que isso tenha certas consequências.

O curioso título do filme parte de uma estória escrita pelo garoto Anton, na qual uma moça precisa se casar com o rapaz que suportar os incessantes rituais de dança de sua tradição. Com uma mistura de fábula, realidade e drama, Honoré coloca Não, minha filha, você não irá dançar como mais um belo exemplar do cinema em sua filmografia.

Jenny (Carey Mulligan, de Orgulho e Preconceito) é uma jovem inglesa de 16 anos à frente do seu tempo. Apaixonada por música francesa, ela estuda em uma rígida escola na Londres pós Guerra, em 1961, que precede a década liberal que viria a seguir, com a alçada feminista e o surgimento dos Beatles. Controlada por seus conservadores pais, Jack (Alfred Molina, de Frida) e Marjorie (Cara Seymour), a garota sofre com a pressão de ser a mais brilhante aluna de sua sala para cumprir o desejo dos pais de entrar na renomada e rígida Universidade de Oxford. É quando ela conhece o espirituoso David (Peter Sarsgaard, de Kinsey – Vamos Falar de Sexo), um homem mais velho que vai lhe apresentar o mundo na qual ela sempre sonhou.

Dirigido pelo dinamarquês Lone Scherfig (Meu Irmão Quer Se Matar), a trama de Educação parte do texto autobiográfico da jornalista Lynn Barber e que foi adaptado para as telas por Nick Hornby (Alta Fidelidade e Um Grande Garoto), que também assina a produção do longa.

Mostrando o despertar da adolescência para a vida adulta, acompanhamos a trajetória da sonhadora Jenny, que almeja uma vida liberal, porém o objetivo imposto de estudar em Oxford vai sendo diluído conforme se encanta com o universo que é oferecido por David e seus dois amigos, Danny (Dominic Cooper, de Mamma Mia) e Helen (a bela Rosamund Pike, de 007 – Um Novo Dia para Morrer). Luxo, glamour e transgressões atraem a jovem, que começa a rever os conceitos conservadores que sempre lhe foram estabelecidos.

Jenny acredita que pode conquistar o que deseja entregando-se a esse mundo e, como diz o ditado popular, “tudo que é proibido é mais gostoso”, ela e David driblam os pais da moça para se deliciarem com festas e viagens. Levada por essa sedução, a jovem começa a questionar o fundamento apresentado de que só poderá “ser alguém na vida” se terminar seus estudos. Isso gera um conflito com sua professora (Olivia Williams, de O Sexto Sentido), que vê na garota um futuro promissor em Oxford e com a diretora do colégio (Emma Thompson, em rápida aparição), que não vêem com bons olhos a relação dela com o rapaz.

Com uma direção de arte bem cuidada – que abusa dos pontos históricos de Paris e Londres – o filme retrata a aura dos anos 60 com uma mistura de inocência e sedução, que se reflete em seus personagens. A trilha, composta por Paul Englishby, é complementada por sucessos que se encaixam perfeitamente no contexto e são um deleite para os fãs do gênero.

Porém, Educação se apoia é no carisma e talento de seus personagens. Peter Sarsgaard cria um David naturalmente charmoso e cativante, mas o filme pertence mesmo a Carey Mulligan que mistura beleza, carisma e delicadeza no ponto certo em sua trajetória de descoberta e conhecimento, com notável mudança física da personagem Jenny ao longo do filme. Tal interpretação lhe rendeu o National Board of Review (NBR) de Melhor Atriz, além da indicação ao Globo de Ouro de Melhor Atriz Dramática (e que será divulgada no próximo dia 17 de janeiro). Com isso, Mulligan é cotada com uma forte candidata ao Oscar 2010, que tende a premiar atrizes mais novas e ela, aos 24 anos, interpreta com competência a garota de 16 anos que chega à vida adulta depressa demais.

Mesmo com um final que perde em ritmo e pode frustrar alguns espectadores, Educação agradará aos fãs mais sonhadores, mesmo tendo de encarar que a linha entre a realidade e a fantasia se apresente cada vez mais tênue.

Para ser sincero, nunca assisti a um episódio sequer da série Star Trek, apenas li muito a respeito e considero-me um leigo no assunto. Porém, me surpreendeu a versão para o cinema dirigida por J. J. Abrams (mais conhecido como criador da série-fenômeno Lost).

Mostrando o início dos personagens Kirk e Spock, Star Trek mostra a infância e juventude dos personagens até se aliarem à Frota Estelar, que busca proteger o planeta Terra das forças malignas do espaço e se mantém fiel à série, criada por Gene Roddenberry.

O filme tem um prólogo empolgante, em que a nave do capitão George Kirk (Chris Hemsworth) é atacada pelo capitão Nero (Eric Bana, quase irreconhecível pela maquiagem), da raça alienígena klingons.

Anos depois, acompanhamos a infância de Spock (Zachary Quinto, perfeito no papel), metade humano e metade vulcaniano (raça considerada incapaz de demonstrar sentimentos) e do humano James Kirk (Chris Pine), filho de George. Ambos se alistam na Federação e aí começa o embate entre o frio e reservado Spock versus o tempestuoso e rebelde Kirk, que precisam se unir para impedir que a Terra seja engolida por um buraco negro lançado pelos klingons.

Com diversos personagens clássicos da série, o grupo viaja na lendária USS Enterprise e conta com personagens como Leonard “Magro” McCoy (Karl Urban), Scotty (Simon Pegg), Hikaru Sulu (John Cho) e a bela Uhura (Zoe Saldana), única mulher relevante do elenco, além do experiente capitão Pike (Bruce Greenwood).

Com ótima trilha e ares pop e jovem, o filme agradou dos fãs mais exigentes aos espectadores mais leigos, mantendo-se fiel à série original e com humor e drama na medida certa. As cenas de ação, eletrizantes e muito bem feitas, se apóiam nos efeitos especiais muito bem desenvolvidos. Só para ter uma ideia, até mesmo as luzes das naves do filme “refletem” nas câmeras, dando ainda maior veracidade a esse universo.

Permeado por criaturas estranhas e curiosas, o filme se apóia no embate entre Spock e Kirk, que se tornarão grandes amigos no futuro. E é nesse futuro que, em certo momento do filme, o jovem Kirk se encontra com o idoso Spock (Leonard Nimoy encarnando, aos 78 anos, o personagem que o consagrou). Ótimo exemplo de entretenimento e ação inteligente, Star Trek pode ser conferido sem medo de se decepcionar.

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