No dia 28 de junho de 1969, nos EUA, teve início um conjunto de violentos episódios que envolveram homossexuais e a polícia, durando vários dias. O foco foi o bar Stonewall Inn e abriu as portas para os movimentos em defesas dos direitos civis LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros).

De lá pra cá, quarenta anos se passaram. E parte daí a premissa do documentário Stonewall – From The Riots To The Millennium, dirigido por John Scagliotti, Janet Baus e Dan Hunt, que busca entender o que aconteceu (e tem acontecido) após Stonewall e como tornou-se a vida LGBT após os ocorridos naquele ano.

Contado em ordem cronológica, o filme registra depoimentos de personagens que participaram e ainda participam de movimentos gays, como policiais, políticos, religiosos, ativistas, artistas, escritores, entre outros.

É instigante observar como a homossexualidade era considerada um crime nos EUA, na qual o “pederasta” poderia ser preso e sofria as mais diversas violências físicas e psicológicas.

Com um acervo farto de imagens e vídeos de arquivo, Stonewall – From The Riots To The Millennium mostra que, para muitos gays, a saída da repreensão naquele tempo eram as drogas, bebidas, promiscuidade e suicídio. Porém, em 1969, surge o Gay Liberation Front, primeiro movimento em que gays, lésbicas, bissexuais e transexuais levantam a bandeira do Gay Power e que, mesmo desorganizado e caótico, afetou a classe conservadora. Isso criou um preconceito ainda maior, pois o que antes era velado passou a ser revelado.

Uma grande questão tratada no filme é que, em 1974, a homossexualidade deixa de ser tratada como uma doença e a união entre homens e mulheres pelos direitos feministas, visto que o sexo feminino ainda carregava o estigma de sexo inferior. Eles e elas comemoraram, em 1970, o primeiro aniversário do Front, que reuniu 15 mil pessoas.

São Francisco se torna o lugar da liberdade sexual e social nos anos 70, mas a bandeira “mudar o mundo” é substituída pela libertinagem sexual. Afinal, nunca se fez tanto sexo gay como nos anos 70 e 80, nos EUA, com o auge das discotecas e saunas (abertas 24 horas por dia). A explicação de tamanha libertinagem vem dos próprios entrevistados do documentário, que buscavam encontrar carinho nos estranhos que transavam como forma de suprir o que a sociedade em si não lhes proporcionava.

Porém, a comunidade organiza-se novamente e cria uma imprensa independente, principalmente lésbica, com jornalismo e poesia, criando vozes nunca ouvidas antes.

A questão racial também se sobressai. Afinal, até os anos 60 (e pode-se dizer, até hoje) negros sempre foram marginalizados. E é aí que nasce a Salsa Soul Sisters, comunidade de lésbicas negras, que buscavam na música um outro modo de dar voz às mulheres, com um público cada vez maior que faziam-nas sentir, como declara uma personagem, “uma criança em uma loja de brinquedos”.

Stonewall – From The Riots To The Millennium mostra, ainda , como os gays começaram a construir suas próprias comunidades religiosas, em que falavam de como Deus vê os Homem como igual, independente de sua orientação sexual. O sargento Leonard Matlovich se assume e em 1975 torna-se o primeiro gay a sair na capa da revista Time. Os tempos pareciam mudar para melhor, especialmente quando Harvey Milk torna-se o primeiro gay declarado a assumir, em 1977, um cargo no governo dos EUA, após quatro tentativas frustradas. A fervorosa cristã Anita O´Brian torna-se a grande oponente de Milk, com objetivo de criar um movimento chamado Save Our Children (Salvem nossas crianças), retratando os professores homossexuais e bissexuais como pedófilos. Igrejas gays são incendiadas e depredadas e gays são assassinados. O senador John Briggs cria a proposição 6, que buscava impedir que professores não heterossexuais lecionassem. A proposição é vetada mas, dias depois, Harvey Milk é assassinado, provocando profunda comoção e desolação nos homossexuais, que viam no seu representante mais direto a solução de muitos dos problemas que enfrentavam.

Surge um novo representante: Steve Endean, o lobbista dos direitos gays, que retoma a campanha de Milk, ainda em 1978. Em 1979 acontece a primeira Marcha Gay, mesmo ano do surgimento dos primeiros casos de Aids, conhecida até então como “o câncer gay”. Dois anos depois, em 1981, Reagan é eleito e se mostra direto contra os homossexuais, assim como Jerry Falwell, co-fundador do Moral Majority, organização que se baseava nos dogmas cristãos e pregava a homofobia.

O documentário mostra, também, que os bombardeios vinham de todos os lados. É quando a homossexualidade começa a ganhar espaço na cultura e nas artes: artistas como Culture Club, Elton John, Grace Jones, ABBA, Prince, Village People, Donna Summer e Gloria Gaynor tornam-se alguns dos mais influentes ícones gays da época.

Baseados em Martin Luther King os gays, então, revisitam o emblemático discurso do ativista e criam o slogan We still have a dream (Nós ainda temos um sonho) e, em 1982, surge o primeiro Gay Games, evento que reúne manifestações artísticas e esportivas com e para homossexuais.

Em meados dos anos 80, há o fechamento das saunas na mesma época em que descobre-se que a Aids é transmitida por relações sexuais. Os gays enfrentam um novo problema: é necessária a criação de comunidades voluntárias para obtenção de comida e atendimento médico a homossexuais infectados, que eram renegados pelo governo norte-americano.

A Aids sai pela primeira vez na capa das revistas Newsweek e Time. O motivo: a morte de Rock Hudson, clássico galã do cinema norte-americano que, homossexual, foi atingido pela doença que o mataria em 1985. Ativistas LGBT saem às ruas, exigindo medidas do governo para o tratamento da Aids, que marginalizou os infectados. Sem muito sucesso, criam o Aids Memorial Quilt, uma grande colcha de retalhos bordada em memória aos mortos e infectados pelo vírus HIV e que exibe mensagens de paz e igualdade.

Ainda em 1985 é criada a Escola Harvey Milk, dedicada a alunos LGBT, com todos os eventos das escolas norte-americanas, porém sem os problemas que essa parcela da população enfrentaria diante de alunos homofóbicos.

Quando questionados sobre a influência que muitos heterossexuais temem que seus filhos tenham ao conviver com homossexuais, um personagem do filme pergunta: “eu cresci em um mundo hétero e isso não alterou a minha orientação sexual. Por que haveria de acontecer o contrário?”. Famosos tomam a frente dos movimentos gays e a Dinamarca avança e torna-se o primeiro país a legalizar o casamento gay, em 1989.

Em 1992, outro movimento é criado e recebe o nome de Lesbian Avengers, que defende, a princípio, a conscientização da homossexualidade nas escolas, combatendo o preconceito, a violência e a exclusão social.

Stonewall – From The Riots To The Millennium relembra como as organizações heterossexuais começam a descobrir o poderio dessa minoria e sete estados norte-americanos começam a ir contra os gays criando uma coalisão hétero, que vem junto com a proposição 9, novamente derrotada.

Clinton torna-se presidente dos EUA em 1993 e diz-se pró-gay: “Não existem ´eles´ e sim ´nós´”, declara diante da multidão. Mas as Forças Armadas são contra gays (especialmente se forem militares) e cria-se a famosa questão “Don ask, don´t tell” (Não pergunte, não conte). Clinton trai os eleitores LGBT e assina contra o casamento homossexual que, em contrapartida, vem junto com o boom da cultura gay nos anos 90, com artistas como Ellen DeGeneres e Anne Heche, cantoras como KD Lang e filmes como Birdcage – A Gaiola das Loucas e Priscila, a Rainha do Deserto.

Assistindo Stonewall – From The Riots To The Millennium, observamos que três décadas se passaram desde Stonewall e o movimento gay  se tornou uma agitação mundial, reunindo milhões em busca de direitos e respeito sociais. Emocionante por si só, o documentário não apela para maniqueísmos demagógicos; apenas registra os depoimentos de testemunhas oculares que estiveram (e ainda estão) dispostos a lutar por mudanças.

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